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Cremesp na Mídia

16-12-2009

Futuro médico erra definição de gripe suína


Folha de S.Paulo 16/12/2009 Cotidiano

61% dos alunos do último ano de medicina que participaram da prova do conselho da categoria não souberam explicar o que é a doença

56% dos estudantes foram reprovados no exame, que não é obrigatório; conselho diz que faculdades investem pouco na qualidade do curso

   
 
 Ricardo Westin
 da reportagem local

 
  Mais da metade dos estudantes do último ano de medicina que participaram de um teste de múltipla escolha não soube explicar o que é a gripe suína.
  Dos 621 futuros médicos (25% do total de formandos) que resolveram o exame aplicado pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) dois meses atrás, 61% erraram a resposta.
  Problema de saúde pública mundial, a gripe suína deixou doentes e mortos no Brasil em meados deste ano e deve voltar ao país no próximo inverno.
  "Nossas faculdades são de má qualidade e estão formando médicos péssimos. A saúde da população está em risco. Não é à toa que as denúncias por erro médico aumentam ano a ano", afirma Bráulio Luna Filho, médico responsável pelo exame.
  No Brasil, a lei não exige que se faça residência médica antes de exercer a profissão. Bastam os seis anos de universidade.
  A prova do Cremesp, executada pela Fundação Carlos Chagas, é aplicada desde 2005 com o objetivo de aferir a competência dos novos médicos. Na primeira fase, eles resolvem questões de múltipla escolha. Os poucos aprovados participam da segunda fase, que inclui simulação de situações reais.
  Neste ano, 56% dos alunos foram reprovados, índice parecido com o dos dois anos anteriores. Foram particularmente mal em clínica médica, saúde mental e clínica cirúrgica.
  Entre as razões para esse desempenho "lamentável", o Cremesp diz que as faculdades privadas investem pouco na qualidade dos cursos -muitas não têm hospital próprio- e que o Ministério da Educação não as fiscaliza com rigor.
  "Há muitos interesses políticos e financeiros. O prefeito ou deputado que abre uma faculdade numa cidade ganha um prestígio gigantesco na região", diz o presidente do Cremesp, Henrique Carlos Gonçalves.
  O MEC rechaçou a crítica e disse que, em razão de má qualidade, cortou temporariamente 730 vagas nos vestibulares de medicina do país.
  O Estado de São Paulo tem 31 faculdades de medicina, das quais 25 formam 2.600 médicos por ano. Seis ainda não formaram a primeira turma.
  O exame do Cremesp não é obrigatório, mas vários alunos participam na esperança de que um bom resultado possa ajudar em seus currículos. A baixa adesão não permite que se faça um ranking das melhores e das piores instituições.
  "Como os bons alunos sabiam que iriam bem, participaram da prova. Os maus alunos boicotaram. Tenho certeza que, se todos tivessem participado, a reprovação teria sido muito pior", diz Luna Filho.
  De acordo com ele, houve casos em que as próprias faculdades -por discordar da metodologia ou temer os resultados- incentivaram o boicote.

 Alunos se deixam enganar, afirma associação médica
 
 DA REPORTAGEM LOCAL
 
  Para o presidente da Associação Médica Brasileira, José Luís Gomes do Amaral, os alunos das más faculdades de medicina não devem ser vistos como vítimas. A seguir, a entrevista à Folha. (RW)
  FOLHA - Mais da metade dos futuros médicos foi reprovada...
  JOSÉ LUÍS GOMES DO AMARAL - Quando, há cerca de 15 anos, começou essa explosão no ensino superior privado, já antevíamos a perda da qualidade. O resultado é esperado.
  FOLHA - O que, na prática, significa um médico mal formado?
  GOMES DO AMARAL - Esse médico terá 40 anos pela frente de atendimentos ruins. E o problema não se corrige com o tempo. Aprender fora da universidade é mais difícil.
  Além disso, os melhores médicos vão para a saúde privada, que paga salários mais altos. Enquanto isso, para o nosso Sistema Único de Saúde, sobram os médicos mais deficientes. A saúde pública fica ainda pior.
  FOLHA - Os alunos são vítimas das faculdades ruins?
  GOMES DO AMARAL - Hoje há elementos para saber se uma faculdade é boa ou péssima. Os alunos, na realidade, estão se deixando enganar.