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Destaques: entrevista c/Ennio Candotti e debate sobre Gestão em Saúde


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Doadores de sêmen devem ser identificados?


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O perfil da assistência à saúde no país


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O SUS na percepção do acadêmico de Medicina


CONJUNTURA
Tuberculose. A epidemia através dos anos


MÉDICO EM FOCO
Equipes de médicos salvam nas estradas


HISTÓRIA DA MEDICINA
A história da Faculdade de Medicina paulista


CULTURA
O médico e sua arte: a fotografia


LIVRO DE CABECEIRA
Dicas: pequenas grandes histórias, fantasia e autobiografia


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Edição 27 - Abril/Maio/Junho de 2004

MÉDICO EM FOCO

Equipes de médicos salvam nas estradas

Resgate nas estradas

Antonio Carlos Marttos Jr*

Quando um paciente chega ao hospital, poucas pessoas têm idéia do trabalho que as equipes tiveram até aquele momento.

Domingo, duas da madrugada, na Rodovia Presidente Dutra, uma campainha aguda ecoa no silêncio da noite fria de maio. Em poucos segundos, cinco profissionais se dirigem à ambulância UTI e ao caminhão de resgate para atender a um acidente que acabava de acontecer, próximo à cidade de Santa Isabel, em São Paulo. Mais informações chegam pelo rádio: um veículo com três ocupantes caiu em uma ribanceira. Durante o percurso, a equipe planeja a estratégia do resgate.

Ao chegar no local do acidente, uma viatura de tráfego sinaliza a pista. Uma senhora e sua filha de oito anos estão no acostamento à nossa espera. A criança não apresenta qualquer lesão e, a mãe, apenas uma laceração na perna. Ambas estão muito preocupadas com o pai, que ainda está no carro, em uma íngreme ribanceira. A equipe da viatura de resgate prepara as cordas para descermos os cerca de 30 metros de ribanceira até o veículo acidentado. Nesse intervalo, avaliamos mãe e filha, deixando-as em segurança em uma das viaturas.

A equipe desce, verifica a segurança do local e, então, avalio a vítima. Um jovem de 32 anos, que voltava de São Paulo após um domingo de futebol e churrasco com amigos e familiares. Ele não se move, apresenta tetraplegia, lesão de coluna cervical. Toda a equipe empenha-se para retirá-lo com segurança do veículo e no transporte ribanceira acima, utilizando KED, colar cervical, prancha longa, maca de ribanceira, cordas etc. Levado para ambulância, os procedimentos de suporte avançado à vida são realizados e o paciente segue para São José dos Campos. Lá é atendido em hospital universitário por equipe multidisciplinar.

Esse fato aconteceu em 1996, ano em que a primeira rodovia federal foi privatizada e quando foram instituídas normas para o Atendimento Pré-Hospitalar (APH). Antes disso, o atendimento era realizado basicamente por policiais rodoviários. Eles socorriam as vítimas de acidentes em seus próprios veículos ou solicitavam ajuda de bombeiros próximos ou de ambulâncias de municípios vizinhos – que, na maioria das vezes, não contavam com equipamentos adequados ou equipes treinadas para esse fim. Fora isso, o atendimento também podia ser prestado graças a algumas iniciativas louváveis, como a dos Anjos do Asfalto, mas eram limitadas a determinados trechos de rodovias e dependiam de doações para manter-se. O sistema Dersa em São Paulo contava com a atividade pioneira do Dr. Masayuki Okumura (veja Box) que gerenciava um serviço de resgate nas rodovias estaduais, sem contar, no entanto, com médicos nas ambulâncias.

A privatização da Rodovia Presidente Dutra, deu início a um novo campo de trabalho para os profissionais de saúde. Foram criadas onze bases de SOS Usuário que contavam com médico, enfermeiro e motorista na ambulância UTI, além de dois socorristas, na maioria das vezes bombeiros, nas viaturas de resgate. Com esse sistema, a rodovia passou a dispor de atendimento médico a cada 40 quilômetros, proporcionando um tempo resposta médio a acidentes de cerca de 12 minutos. Foi uma revolução no atendimento pré-hospitalar em rodovias no Brasil. Muitas vezes, os acidentes acontecem longe de hospitais capacitados ao atendimento e o transporte das vítimas pode durar 30 minutos ou até uma hora. Com isso, a hora de ouro pode ocorrer antes da chegada ao hospital.

Parto na Rodovia

Os profissionais atuam em situações de risco, sob pressão e necessitam desenvolver habilidades incomuns. Todos nós, médicos que realizamos APH, já nos deparamos com situações como fazer rapel, intubação em pacientes no chão, na cabine de caminhão, preso às ferragens, adentrar em um veículo destruído para obter acesso venoso, drenar um tórax enquanto a equipe de resgate retirava as ferragens para possibilitar a remoção da vítima. Às vezes, as bases de resgate representam o principal socorro aos moradores de comunidades vizinhas afastadas das cidades. Passam de dezenas os relatos, por exemplo, de partos realizados na rodovia.

Recordo-me de uma segunda-feira em que caia uma chuva intensa sobre a cidade no final da tarde. Estávamos de plantão na Base da Vila Maria da Via Dutra, quando, a 200 metros, uma lotação com 12 pessoas capotou em um acesso à pista local, devido ao alagamento da área. Fomos imediatamente ao local do acidente, sob forte chuva. A lotação estava tombada, com um passageiro preso sob um banco. Conseguimos entrar rapidamente na lotação pela janela traseira, fato que salvou a vida desse passageiro, pois a água já subia dentro do veículo. Ele só não morreu afogado porque o resgatista ficou imóvel, com meio corpo submerso, elevando a cabeça da vítima inconsciente para deixá-la acima do nível da água. Enquanto isso, o resto da equipe entrava na van, após quebrar o pára-brisa. Com o desencarcerador, conseguiram elevar o banco, liberando a vítima para que fosse removida com segurança para a ambulância.

Em outro caso, lembro-me que, por causa da obstrução total da pista após um acidente, tivemos que correr por cerca de um quilômetro com as mochilas de resgate, até o local, pois a ambulância não tinha acesso. Recentemente, a Nova Dutra implementou a utilização do 07 VIR (Veículo de Intervenção Rápida). Esse tipo de veículo – previsto na Resolução 2.048 do Ministério da Saúde – é tripulado por médico, enfermeiro e carrega todos os equipamentos de suporte avançado de vida. Por ser menor que uma ambulância, agiliza o acesso aos locais de acidente, o que possibilitou a redução do tempo-resposta de 12 para 8 minutos.

Os casos mais difíceis de conduzir são os de engavetamentos ou acidentes com ônibus que envolvem muitas vítimas. É fundamental realizar a triagem dos acidentados, priorizar e organizar os atendimentos. Nessas situações o médico precisa ser capaz de agir com precisão e liderar todos os profissionais que estão atuando.
Em uma outra segunda-feira, seis horas da manhã, um ônibus capotou próximo a Guarulhos. Recordo-me de que eram 16 vítimas – muitas estavam descontroladas –,duas delas em estado grave. Uma delas caiu ribanceira abaixo e a outra estava presa entre a janela do ônibus tombado e o asfalto, com apenas parte do tórax e cabeça visíveis.

Ficamos cerca de 30 minutos com essa última, conversando e acalmando-a. Após a elevação de parte do ônibus, num trabalho conjunto de nossa equipe de resgate com a do Corpo de Bombeiros, retiramos a senhora e verificamos que houve uma amputação traumática de membro superior esquerdo, além de trauma tóraco-abdominal importante. Imediatamente realizamos as manobras de suporte avançado de vida, encaminhando-a, via terrestre, a um hospital da região. Por causa da neblina, não foi possível fazer o transporte pelo helicóptero Águia da Polícia Militar do Estado, mas esse auxílio é freqüente em situações como essa.

A capacitação dos profissionais que atuam no atendimento pré-hospitalar e os tipos de viaturas de resgate utilizados são regulamentados pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Ministério da Saúde. Não apenas médicos e enfermeiros devem ter cursos específicos de pelo menos 80 horas, mas também os demais profissionais – telefonistas, operadores de rádio, motoristas, enfermeiros de nível médio, inclusive os bombeiros.

Os cursos são importantes para garantir o melhor atendimento. Devido ao tempo de transporte, apenas o suporte básico de vida pode não ser suficiente para manter a vítima viva até a chegada ao hospital. A presença de equipes médicas nas rodovias é fundamental. Os profissionais que atuam no APH exercem atividade de risco, devem ser experientes e bem preparados tecnicamente, o que demanda uma adequada remuneração.

A atividade de resgate é uma das mais gratificantes que um médico pode desempenhar, pois é fundamental para o prognóstico do paciente e, muitas vezes, com resultados imediatos. Também propicia um aprendizado diário e o convívio com pessoas muito especiais, como os bombeiros e os resgatistas, com histórias de vida incríveis. Aqueles que atuam em APH em rodovias desenvolvem o espírito de equipe. Muitas vezes ficam em trailers ao lado da pista, em bases sob viadutos e sabem que a vida das vítimas e dos próprios companheiros depende de todos. Há um ditado na estrada: “se alguém gritar pula, não pergunte por que, pule. Pode ser um caminhão desgovernado ou qualquer outra situação que ponha a vida da equipe em perigo”. Quando um paciente chega ao hospital, poucas pessoas têm idéia do trabalho que as equipes de resgate tiveram até aquele momento. Expondo-se à chuva, frio, risco de acidentes, às vezes ficam horas envolvidos em uma situação, com um único objetivo: salvar vidas!

Dr. Okumura, o pioneiro

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Masayuki Okumura foi o responsável pela operacionalização do primeiro serviço de resgate do país –  Sistema de Ajuda aos Usuários (SAU) em estradas sob a jurisdição do Dersa, em 1976.

Na época, ele era médico no pronto-socorro do Hospital das Clínicas e lembra que no início do serviço havia muito preconceito por parte dos policiais rodoviários. O problema foi resolvido depois que o médico passou a fazer parte do corpo docente da polícia, ministrando aos profissionais aulas sobre primeiros socorros e sua importância em situações de acidentes. 

Segundo o médico, num resgate deve-se priorizar o tempo – o menor possível –  pois, no hospital, a vítima tem melhores condições de ser avaliada. O traumatismo por contusão, comum nos acidentes, requer maior atenção dos médicos. “Nele, não podemos afastar a possibilidade de haver lesão hemorrágica de vísceras internas, pois o fluxo sangüíneo do fígado, baço, rim e pâncreas é de um a dois litros por minuto. Portanto, fazer curativo não hemostático no local do acidente é perda de tempo precioso”, destaca. Okumura se queixa, ainda, que falta reconhecimento para a atividade. “Infelizmente, os médicos não são valorizados ética, funcional, moral e financeiramente, como deveriam”.  

Óbitos caem 50%

Dados fornecidos pelo gerente médico da Nova Dutra, Renato Macedo, apontam uma média de 56 atendimentos médicos realizados por dia e 20.400 ao ano. Com o tempo, os atendimentos médicos associados a medidas de segurança e prevenção de acidentes diminuíram praticamente à metade o número de óbitos por ano na rodovia. Em 1997, ocorreram 9.279 acidentes, com 5.074 feridos e 481 mortes. Em 2003, foram 8.643 acidentes com 4.188 feridos e 250 óbitos.

*Antonio Carlos Marttos Jr, é médico da equipe de resgate da Nova Dutra - Base Vila Maria desde 1996, professor de Medicina de Urgência da Faculdade de Medicina do ABC e gerente médico do Pronto-Socorro do Hospital Santa Marina.


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