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CAPA

PONTO DE PARTIDA
Destaques: entrevista c/Ennio Candotti e debate sobre Gestão em Saúde


ENTREVISTA
Ennio Candotti, presidente da SBPC


CRÔNICA
Cláudia Monteiro de Castro


SINTONIA
Slavoj Zizek


BIOÉTICA
Doadores de sêmen devem ser identificados?


DEBATE
O perfil da assistência à saúde no país


COM A PALAVRA
O SUS na percepção do acadêmico de Medicina


CONJUNTURA
Tuberculose. A epidemia através dos anos


MÉDICO EM FOCO
Equipes de médicos salvam nas estradas


HISTÓRIA DA MEDICINA
A história da Faculdade de Medicina paulista


CULTURA
O médico e sua arte: a fotografia


LIVRO DE CABECEIRA
Dicas: pequenas grandes histórias, fantasia e autobiografia


GALERIA DE FOTOS


Edição 27 - Abril/Maio/Junho de 2004

HISTÓRIA DA MEDICINA

A história da Faculdade de Medicina paulista

A Casa de Arnaldo no cenário do conhecimento

Berta Ricardo de Mazzieri*

Início do século XX encontra São Paulo com pouco mais de 300 mil habitantes e uma elite intelectual ansiosa por torná-la um pólo cultural no País. Na cidade exposta a transformações sociais, adquiria primazia a criação de uma escola médica capaz de suprir a carência assistencial que se projetava pela falta de profissionais nas regiões Sul e Sudeste, em contraposição ao aumento da emigração e, com ela, as epidemias que se alastravam. Essa realidade torna-se objeto de reflexão de representantes das mais distintas áreas e, lembrava Júlio de Mesquita Filho, eram famosas as noitadas no jornal O Estado de S. Paulo, onde tratavam, além de questões políticas e culturais, das ações e implicações que precisavam superar, para dotar a cidade de uma faculdade de Medicina.


Formados no Rio de Janeiro, Bahia ou Europa o pensamento médico no período caracterizava-se pela ampliação do conhecimento, beneficiado pelo desenvolvimento da Medicina no século XIX, exposta à filosofia positivista de Augusto Comte - que inclusive direcionou a organização da saúde pública no país. Para a França, onde Paris tornara-se o centro cultural da Europa, seguiam os paulistas em busca de uma educação mais aprimorada, desfrutando, em Montpellier e Salpêtriére, desse ambiente intelectual, artístico e espiritual que, posteriormente, caracterizaria as ciências no Estado. O Groupement des Universités et Grandes Écoles de France pour les Relations avec l’Amerique Latine, criado nesse período, trouxe ao Brasil, em 1908, Georges Dumas, filósofo e psicólogo francês que, em 1901, ao lado de Pierre Janet, fundou a Sociedade Francesa de Psicologia.

No Brasil, Dumas aproximou-se de Victor da Silva Freire, Ramos de Azevedo e Theodoro Ramos. Quando, em 1923, instituiu-se a Sociedade Civil Liceu Franco Brasileira, a primeira reunião do Conselho foi presidida por Júlio de Mesquita, de cujo filho Dumas tornara-se amigo. De influência direta, a medicina francesa foi decisiva na formação dos profissionais até a Seguda Guerra Mundial, quando voltaram-se para a concepção americana, já em pleno desenvolvimento.

Luiz Pereira Barreto, médico e filósofo, doutor em ciências naturais pela Universidade de Bruxelas, considerado o primeiro neo-positivista da classe médica, e de cujo saber fruíam os mais eminentes médicos, tornou-se presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Comemorando o primeiro ano de sua instalação, em 1896, têm início as atividades da Policlínica da Sociedade, local onde Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho, um dos fundadores, destacava-se, não apenas pelo prestígio de cirurgião, mas pela acolhida aos médicos em busca de novos conhecimentos, tornando-a semelhante a uma escola. Renomados profissionais lá discutiam os problemas de saúde e higiene do Estado e, também, como implantar a Academia de Medicina e Cirurgia de São Paulo, instituída por lei desde 1891.

Unidos por um sentimento de brasilidade e com um espírito marcadamente influenciado pela concepção evolucionista de Herbert Spencer, filósofo e sociólogo britânico, maior figura intelectual da era vitoriana, e de Comte, criador da Sociologia, esses intelectuais possuíam ampla cultura, dominando vários campos do saber, mas adeptos, sobretudo, dos princípios humanísticos.

Ao estruturar o curso em 1913, Arnaldo cercou-se de expoentes da Medicina brasileira, além de professores estrangeiros contratados para iniciar as diferentes cátedras. A primeira sede da Faculdade de Medicina funcionou em espaço cedido pela Escola de Comércio Álvares Penteado. Tanto a Faculdade de Medicina como a Universidade de São Paulo tiveram crescimento no período das Grandes Guerras, com contribuição de mestres europeus. Com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, retornam à França Émile Brumpt, catedrático da Faculdade de Medicina de Paris  que aqui instituiu o ensino e metodologia científica em parasitologia  e Mayer Simon Lambert, fisiólogo da Faculdade de Nancy. Nesse mesmo período, outros professores começam a chegar da Itália, Alemanha e Estados Unidos. Ao inserir a evolução e integração do saber científico à prática médica, esses professores formaram discípulos que contribuíram para o modelo democrático que viria se impor na criação da Universidade de São Paulo.

Em 1916, Arnaldo contatou a Fundação Rockefeller, da qual recebeu apoio educacional e financeiro, que se estendeu após sua morte em 1920, possibilitando a construção do prédio da Faculdade de Medicina (a Casa de Arnaldo) e do Hospital das Clínicas, em parceria com o Governo do Estado, além de originar a criação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, incorporada à USP em 1938.

Filosofia, a célula-mãe da USP

Em 25 de janeiro de 1934, São Paulo iniciou um novo período na história educacional. Consideradas células embrionárias da USP, as faculdades de Medicina, de Direito e a Politécnica alinharam-se à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, instituída pelo decreto de fundação da universidade. Instalada em espaços cedidos pela Politécnica e pela Faculdade de Medicina, e com caráter moldado sob influência européia, sobretudo a francesa, sua dinâmica previa o cultivo de todos os ramos do saber. Theodoro Ramos assumiu sua direção com o objetivo de torná-la um núcleo de entrosamento científico-cultural da universidade. Em viagem à Europa, coube a ele contratar, na França, Alemanha, Itália e Portugal, os professores estrangeiros, com participação pessoal de Júlio de Mesquita Filho e orientação de George Dumas, professor da Sorbonne.

Por ocasião da Segunda Guerra, quase todos os italianos são obrigados a retornar. Porém, após o término do contrato, muitos professores europeus aqui permaneceram, integrando-se ao quadro docente. Na Faculdade de Medicina, de 1914 a 1934, Alfonso Bovero, da Universidade de Turin, criador da Escola Anatômica. Na Filosofia, em maior número, os alemães Ernest Breslau da Universidade de Colônia, que ao morrer foi substituído por Ernest Marcus; os franceses Paul Arbousse Bastide, da Universidade de Bensançon e Roger Bastide, titular na Sorbonne, professor no Institut des Hautes Études d’Amerique Latine, que aqui chegou em 1938, para substituir Lévi-Strauss, na cadeira de Sociologia, permanecendo até 1954, entre outros.

O crescimento da USP, na Capital e Interior, evidenciou os trabalhos singulares de Paulo Sawaya, discípulo de Alfonso Bovero e Ernest Breslau, fundador do Instituto de Biologia Marinha; Rômulo Ribeiro Pieroni, um dos fundadores do Instituto de Energia Atômica; Geraldo de Paula Souza, fundador do Instituto de Higiene; Zeferino Vaz, fundador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Euryclides de Jesus Zerbini, realizador do primeiro transplante cardíaco na América Latina, em 1968.

Fruto do sentido originário delineado nos anos 10, mas carregando na bagagem a criatividade promotora do saber para extra-muros, a Casa de Arnaldo acolheu os primeiros professores estrangeiros contratados. Sua participação no processo de criação da USP caracterizou-se pela atividade integradora de seus membros, somando esforços na formação e consolidação do espírito universitário, participantes e herdeiros que foram das idéias, princípios e compromissos escritos por um passado de luta pelo aprimoramento educacional que deixou marcas no pensamento contemporâneo.

*Berta Ricardo de Mazzieri é museóloga, responsável pelo Museu de História de Medicina da USP e autora dos livros “A arte de curar” e “Três Faculdades de Medicina de São Paulo”, entre outros.


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