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CAPA

PONTO DE PARTIDA
Uma visão sem ação é somente um sonho. Uma ação sem visão é apenas um passatempo. Uma visão com ação pode transformar o mundo. Joel Baker


ENTREVISTA
Chico de Oliveira, sociólogo, professor da USP e um dos fundadores do PT


CRÔNICA
Texto bem-humorado do médico e ex-jogador de futebol Sócrates


POLÍTICA DE SAÚDE
O acesso universal a medicamentos é uma meta que tem de ser o norte das ações...


CONJUNTURA
Projeto Xingú: iniciativa pioneira de atendimento médico feito em aldeias indígenas do país


COM A PALAVRA
A Medicina-espetáculo. Por Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho


DEBATE
Cesárea a pedido


MÉDICO EM FOCO
Euryclides Zerbini


GOURMET
Polenta Especial: receita do anestesiologista José Carlos Canga


HISTÓRIA DA MEDICINA
O uso do branco por médicos


CULTURA
Pinacoteca de Santos


LIVRO DE CABECEIRA
O Código da Vinci e Tao Te King: Um Pequeno Grande Livro


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Edição 28 - Julho/Agosto/Setembro de 2004

CONJUNTURA

Projeto Xingú: iniciativa pioneira de atendimento médico feito em aldeias indígenas do país

Projeto Xingu: medicinas diferentes, o mesmo respeito

Um índio da etnia Tapaiúna, no Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, chega num posto de saúde da sua aldeia. Todo paramentado, com um enorme adorno de madeira em forma de disco no lábio e empunhando uma arma, começa a esbravejar e apontar para uma prateleira de remédios. Falando em voz alta, acaba assustando o médico recém-chegado de São Paulo que ainda não entendia sua língua. Depois de certa confusão e nervosismo, chegou um dentista que trabalhava no posto e, com mais tempo de casa, pôde interpretar melhor o que tanto desejava o índio: um daqueles remédios, apenas para mastigar. Como não estava doente e não precisava do medicamento, ele aceitou os argumentos do dentista e foi embora. O médico respirou aliviado. Passada na década de 1980, essa história foi contada pelo seu protagonista, o sanitarista Douglas Antonio Rodrigues, que desde então nunca mais deixou de atender os índios e há 10 anos é coordenador do Projeto Xingu, iniciativa pioneira de atendimento médico feito em aldeias indígenas do país.

O projeto começou em 1965 como extensão universitária, passou por várias fases, dificuldades e, hoje, vinculado à Fundação Nacional da Saúde (Funasa), é responsável pela atenção básica aos povos do Xingu, assim como pela formação de recursos humanos indígenas para o trabalho nas próprias aldeias. O atendimento básico é feito no local, e os casos de maior complexidade são encaminhados para hospitais próximos ou para o Ambulatório do Índio, em São Paulo. Das cerca de 60 pessoas que fazem parte da equipe, entre auxiliares e monitores de enfermagem, médicos, dentistas, antropólogos e colaboradores, 80% são índios.

Periodicamente, médicos residentes e alunos de graduação da Escola Paulista de Medicina viajam para o local, o que contribui para a formação dos alunos e também ajuda nos períodos de maior movimento nas aldeias, especialmente em campanhas de vacinação ou pesquisas para aferir o atual perfil indígena da região. “Neste momento existe uma grande incidência e prevalência de dores de estômago, gastrite etc. entre os ín-dios. Estamos pesquisando as causas desse problema”, adiantou o coordenador Douglas Rodrigues, dois dias antes de partir para mais uma tem-porada no Xingu.

Doenças do homem branco

“Os indígenas têm um perfil de doença semelhante ao da população brasileira mais excluída socialmente”, compara Douglas. Nesse perfil se enquadram as doenças da infância, principalmente as respiratórias, seguidas das diarréicas e da desnutrição, além das doenças sexualmente transmissíveis, tuberculose, malária e doenças de pele. Esse levantamento é importante para desfazer o mito de que o índio tem mais resistência a doenças, quando na verdade são mais vulneráveis por causa das condições de vida, como falta de saneamento, e por viverem em habitações coletivas.

Estudos feitos atualmente comprovam, sobretudo em outras regiões indígenas, os malefícios do contato com o homem branco. “As chamadas doenças da civilização, como hipertensão arterial, obesidade e diabetes, que não víamos nos indígenas, começam a aparecer agora. São decorrentes do contato entre esses povos”, explica Rodrigues. Esse é um fator preocupante, pois, a mesma pesquisa realizada na década de 1980 indicava a ausência dessas doenças entre os povos indígenas.

Primeiras visitas

O Projeto Xingu teve início em 1965, com a equipe do professor Roberto Geraldo Baruzzi, idealizador da iniciativa, então convidado pelo ser-tanista Orlando Villas Bôas, diretor do Parque. Como havia uma linha regular semanal do Correio Aéreo Nacional, da Força Aérea Brasileira (FAB), que fazia o trajeto entre Xingu e São Paulo, os pacientes mais graves eram levados para a Unifesp. “Era mais fácil chegar a São Paulo do que levar um índio do Xingu para Cuiabá”, explica o coordenador do projeto.
“Inicialmente, havia a necessidade de vacinar os índios, imunizá-los, existiam histórias de alta mortalidade por epidemias de sarampo, por exemplo, porque os índios eram muito suscetíveis. Eles não tinham contato anterior com a doença, que, quando vinha, era catastrófica”.

Depois de muitos problemas de financiamento e gestão, uma mudança na legislação em 1999 permitiu que a saúde dos índios ficasse a cargo do Ministério da Saúde. Com isso, foram criados os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, gerenciados dos pela Funasa. O Xingu foi englobado em um deles e a Unifesp acabou tornando-se responsável pelo trabalho.

Formação nas aldeias

A partir da metade dos anos 80, os indígenas das próprias aldeias começaram a receber formação para o atendimento de saúde. “É muito difícil manter um profissional de saúde no local, pois ele tem que morar lá e ficar longe da família. A rotatividade era muito grande”, lembra Douglas. Os índios começaram a ser capacitados para as tarefas mais simples nos atendimentos, tornando-se monitores de saúde. Depois disso, uma parceria com as Secretarias de Saúde e Educação do Mato Grosso, permitiu que os índios recebessem formação como auxiliares de enfermagem. “O que inicialmente previa 20 auxiliares de enfermagem indígenas no Xingu, acabou gerando mais de 100 no Estado inteiro. E já tenho pelo menos meia dúzia de auxiliares de enfermagem que querem ser enfermeiros, esse é o próximo passo”, ressalta, orgulhoso.   

Medicina do pajé

“Os índios têm também sua medicina, seu sistema de cura”, faz questão de lembrar Douglas. Isso significa que o tratamento dado aos índios é feito em conjunto ou com o consentimento do pajé da aldeia. “É muito comum presenciarmos médico e enfermeiro trabalhando ao lado do pajé. O trabalho inteiro se pauta pelo profundo respeito a essa medicina tradicional”.

Os indígenas reconhecem a importância da medicina ocidental, mas não deixam de se consultar com seus xamãs e raizeiros. Um exemplo dessa relação se deu quando um índio, chamado Dombá Suiá, veio para São Paulo para um transplante de rim, o primeiro feito em índios da região. Ele disse ter visto o pajé da aldeia durante a cirurgia, fator que lhe deixou mais tranqüilo. O detalhe é que, na verdade, o pajé estava no Xingu.

O trabalho de décadas no Parque Indígena tem deixado um saldo positivo para a saúde dos índios. A mortalidade infantil é mais baixa do que em muitas regiões do país. Em 1988, morriam 224 crianças índias para cada 1.000 nascidas em todo o país, índice considerado de extermínio. Em 2003, esse número baixou para 60 a cada 1.000 nascimentos. Em cerca de 20 anos a população dobrou, “por diminuição de mortalidade, muito mais do que por aumento de natalidade”. Ainda assim, em números gerais, é hoje uma população que cresce demograficamente quatro vezes mais que o restante do país.

A maioria dos xinguanos hoje fala português, mas também preserva sua língua original. O Parque abriga cerca de 14 etnias que falam 12 idiomas indígenas diferentes. A mudança de hábitos e o contato cada vez mais intenso com o homem da cidade traz novos problemas, entre eles o alcoolismo. De qualquer forma, a experiência descrita por Orlando Villas Bôas é confirmada por todos que interagem com os índios. Em todo tempo em que esteve no Xingu, o indigenista disse nunca ter visto eles discutindo ou brigando entre si.


Ambulatório é referência nacional

Em 2003 foram mais de 600 consultas médicas a indígenas feitas pelo Ambulatório do Índio da Unifesp, que surgiu em 1992, por conta da demanda de pacientes indígenas que precisavam ser encaminhados para atendimentos de maior complexidade. Coordenado pelo médico Jorge  Carlovich, o serviço age em conjunto com a Casa de Saúde do Índio (Casai), que recebe e abriga os índios. Outra importante atividade do Ambulatório é atender os chamados índios desaldeados, que perderam suas terras e vivem no Estado.

A partir de 1999, a Fundação Nacionmal da Saúde (Funasa) passou a ser responsável pela saúde dos indígenas no país e a Casai de São Paulo, junto com a Unifesp, acabou se tornando referência nacional. Com um projetyo de parcerias oficializado em junho deste ano, foi criado na capital paulista o Centro Integrado de Referência em Saúde Indígena de São Paulo (Cirsai), para agilizar os atendimentos e diminuir a permanência dos doentes.

A proposta do projeto, coordenado pela Funasa, é englobar em um só local os serviços do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (Incor), do Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, para as mulheres índias, trabalhando em conjunto com o Ambulatório do Índio e a Unifesp. A prefeitura de São Paulo, ainda, ficou encarregada do apoio nutricional e educacional aos hóspedes e pacientes da nova casa. "Eles não vêm aqui a passeio e sim numa situação de fragilidade, muitas vezes de  permanência prolongada", explica Carlovich.

Conm experiência de quem levou "no braço" o atendimento aos índios por mais de 12 anos em São Paulo, essa nova parceria faz o coordenador do serviço respirar mais aliviado. "A grande lição do contato com os índios foi aprender a ouvir", orgulha-se Carlovich, que usa suas experiências e histórias em discussões éticas com alunos. "Isso serve para percebermos como somos mal formados como seres humanos e para lidar com as diferenças. O rico é exatamente essa troca, o que um pode aprender na cultura do outro", conclui. 


Os indígenas desaldeados de São Paulo

No Brasil existem cerca de 381.700 índios, que pertencem a cerca de 210 povos e falam mais de 170 idiomas diferentes, segundo pesquisa realizada pela Funasa em 2002. No Estado de São Paulo, há cerca de 3.800 índios, distribuídos em 17 aldeias. No entanto, são 60 mil os desaldeados espalhados pelo Estado. Segundo o último senso demográfico do IBGE, 67 mil pessoas se auto-declararam indígenas no Estado.

Na cidade de São Pauloi, existem populações de pelo menos três etnias diferentes. Os Guaranis, com cerca de 540 índios, têm aldeias nas regiões de Parelheiros e Jaraguá, mas com péssimas condições de vida. Os Pankararus, em maior número - cerca de 800 -, sequer têm aldeia e vivem em favelas das zonas oeste e sul da cidade. Com estes, praticamente não existe mais preservação da língua original e só costumam ser lembrados por terem construído o Palácio dos Bandeirantes e o Estádio do Morumbi, depois de perderem suas terras em Pernambuco e terem migrado para São Paulo, a partir de 1950. Há, ainda, cerca de 15 índios da etnia Kariri-Xocó vivendo em uma favela da zona sul.

 


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