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CAPA

PONTO DE PARTIDA
Editorial, com Isac Jorge Filho


ENTREVISTA
Nosso convidado é Diego Gracia, um dos papas da Bioética na Europa


CRÔNICA
Acompanhe texto bem-humorado de Tufik Bauab, médico radiologista


CONJUNTURA
Uma análise da história da hanseníase no país


BIOÉTICA
A situação sombria das mulheres indianas


MÉDICAS EM FOCO
Marilza Rudge e Mary Ângela Parpinelli contam suas trajetórias profissionais


DEBATE
A quebra das patentes dos medicamentos no Brasil


FOTOLEGENDA
Harold Pinter, prêmio Nobel de Literatura, e a política externa dos EUA


SINTONIA
Hospital expõe fotos tiradas por crianças e adolescentes internados


LIVRO DE CABECEIRA
Totalidade e Infinito - Emmanuel Lévinas


CULTURA
Faculdade de Medicina da Bahia: 1ª instituição do ensino superior do país


TURISMO
O crescimento - prazeroso - do turismo rural no Brasil


HOBBY DE MÉDICO
Quando a partitura se transforma em instrumento de trabalho...


POESIA
Entre o Sono e o Sonho - Fernando Pessoa


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Edição 34 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2006

FOTOLEGENDA

Harold Pinter, prêmio Nobel de Literatura, e a política externa dos EUA



Fragmentos de um discurso nada amoroso

O dramaturgo, poeta, diretor, ator e ativista político inglês Harold Pinter ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2005.  Na ocasião da entrega do prêmio, em 7 de dezembro, Pinter, de 75 anos, por estar doente, enviou um discurso de 46 minutos, gravado em vídeo, exibido na Academia Sueca, em Estocolmo. O discurso é uma forte peça de acusação contra a política externa norte-americana, particularmente com relação à invasão do Iraque e ao governo Bush, afetando também a atuação do primeiro ministro britânico Tony Blair.

Sem qualquer cerimônia e com todas as letras, os dois dirigentes são chamados de criminosos de guerra, a invasão do Iraque é qualificada como um ato de terrorismo de Estado, os EUA são acusados de ser um país militarista, desumano, brutal e de ter presidentes mentirosos. Para o escritor, com a manipulação da mídia e sob o pretexto de defender a liberdade e a democracia, ludibriam e entorpecem a inteligência de seus próprios cidadãos em favor de interesses econômicos e políticos em todo o mundo.

A seguir, Ser Médico apresenta trechos editados do discurso de Pinter.

1 - A maioria dos políticos não está interessada na verdade, mas no poder e na sua manutenção. Para mantê-lo é imprescindível que as pessoas continuem na ignorância. Portanto, o que nos rodeia é uma enorme teia de mentiras. Para justificar a invasão do Iraque, disseram que Saddam Hussein possuía um perigoso arsenal de armas de destruição maciça. Não era verdade.  Que o Iraque mantinha relações com a Al Qaeda e era coresponsável pelas atrocidades de 11 de setembro de 2001.  Não era verdade.  Que era uma ameaça à segurança mundial. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade.  A verdade tem a ver com o que os Estados Unidos acham que é o seu papel no mundo.

2 - Todos sabem o que aconteceu na URSS e no leste europeu no período pós-guerra: uma brutalidade sistemática, atrocidades freqüentes, a supressão impiedosa do pensamento independente. Mas os crimes americanos do mesmo período foram registrados apenas de forma superficial, se é que foram documentados. Os EUA apoiaram e, em muitos casos, arquitetaram todas as ditaduras militares de direita no mundo depois da II Guerra Mundial. Refiro-me à Indonésia, à Grécia, ao Uruguai, ao Brasil, ao Paraguai, ao Haiti, à Turquia, às Filipinas, à Gua-temala, a El Salvador e, é claro, ao Chile. O horror que os EUA impuseram ao Chile em 1973 nunca poderá ser esquecido e nunca poderá ser perdoado. Houve centenas de milhares de mortes em todos esses países e são atribuíveis à política externa norte-americana.

3 - Os EUA apoiaram a ditadura brutal de Somoza na Nicarágua durante mais de 40 anos. O povo da Nicarágua, liderado pelos sandinistas, derrubou o regime em 1979, numa revolução popular impressionante. Os sandinistas não eram perfeitos, mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Começaram a implantar uma sociedade estável, decente, pluralista. Foram entregues terras a mais de 100 mil famílias. Foram construídas duas mil escolas. Uma campanha de alfabetização excepcional reduziu o analfabetismo a menos de um sétimo. Implantaram a educação e o serviço de saúde gratuitos.  Os EUA denunciaram estes feitos como sendo uma subversão marxista-leninista. Se fosse permitido que a Nicarágua implantasse normas básicas de justiça social e econômica, os países vizinhos iriam levantar os mesmos problemas e agir da mesma forma. Os EUA acabaram por derrubar o governo sandinista. O desânimo e a pobreza triunfaram novamente. Os cassinos voltaram. Os serviços de saúde e a educação deixaram de ser gratuitos. Os grandes negócios voltaram com toda a força. Vencera a “democracia”.

4 - Os crimes dos EUA são sistemáticos, constantes, cruéis, desumanos, mas na verdade pouca gente toca no assunto. Reparem em todos os presidentes americanos dizendo na TV as palavras “o povo americano”, como na frase: “Digo ao povo americano que chegou o momento de rezar e de defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano para confiar no seu presidente, nas ações que ele vai tomar brevemente no interesse do povo americano”. A linguagem é utilizada para manter o pensamento bloqueado. As palavras “o povo americano” funcionam como uma almofada confortável e tranqüilizadora. Claro que isto não se aplica aos 40 milhões que vivem abaixo da linha de pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres encarcerados no enorme gulag de prisões espalhadas por todos os EUA.
 
5 - A invasão do Iraque foi um ato de banditismo que demonstrou um desprezo total pelo conceito do direito internacional. A invasão foi uma ação militar arbitrária, inspirada em uma série de mentiras e por uma grosseira manipulação da mídia e, por seu intermédio, do público. Um ato concebido para consolidar o controle militar e econômico americano do Oriente Médio, mascarando-o de libertação – em desespero de causa –, já que todas as outras justificativas não conseguiram se justificar. Levamos ao povo iraquiano a tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, numerosos assassinatos sem sentido, miséria, degradação e morte e chamamos isso de “levar a liberdade e a democracia ao Oriente Médio”.

6 - O que aconteceu à nossa sensibilidade moral? Olhem para a Base Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação há mais de três anos, sem qualquer representação legal, na prática presas para sempre. A chamada “comunidade internacional” não só a tolera como nem sequer pensa nela.

7 - No início da invasão do Iraque, os jornais britânicos publicaram na primeira página uma fotografia de Tony Blair beijando um menino iraquiano. “Uma criança agradecida”, dizia a legenda. Alguns dias depois apareceu, numa página interior, um artigo e uma fotografia de outro garotinho de quatro anos sem braços. A família dele tinha ido pelos ares com um míssil. Ele fora o único sobrevivente. “Quando é que volto a ter braços?” perguntava. Essa história não teve continuação. Claro, Blair não estava com ele ao colo, nem com o corpo de outra criança mutilada, nem com o corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue causa nojo. Mancha a camisa e a gravata quando fazemos um discurso sincero na televisão.

8 - Os mais de dois mil americanos mortos são um empecilho. São transportados para as suas campas no escuro. Os funerais são discretos. Os mutilados apodrecem na cama, alguns para o resto de suas vidas.

9 - Os EUA ocupam 702 instalações militares espalhadas pelo mundo em 132 países. Possuem oito mil ogivas nucleares ativas e operacionais. Duas mil estão em alerta vermelho, prontas para serem lançadas em 15 minutos. Quem é que eles pretendem atingir? Osama bin Laden? Vocês? A mim? Ninguém em especial? A China? Paris? Quem sabe? O que sabemos é que esta loucura infantil – a posse de armas nucleares e a ameaça de sua utilização – está no âmago da atual filosofia política americana. Não podemos esquecer que os EUA estão em permanente pé de guerra e não dão mostras de descansar.

Apesar das tremendas desvantagens que existem, uma feroz determinação intelectual, resoluta e inabalável, para definir a verdadeira verdade das nossas vidas e de nossa sociedade é uma obrigação crucial que cabe a todos nós. É um imperativo. Se essa determinação não estiver incorporada em nossa perspectiva política, não nos resta qualquer esperança de reabilitar o que está quase perdido – a dignidade do homem.


 
Edição baseada na tradução de Margarida Ferreira publicada no site  http://www.resistir.info 
O texto original na íntegra está disponível nos sites 
http://www.nobelprize.org 
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