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CAPA

EDITORIAL
Nesta edição, uma reflexão sobre o superaquecimento global e seu impacto na saúde


ENTREVISTA
Acompanhe esta conversa com o escritor-médico Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras.


CRÔNICA
Tutty Vasques, cronista convidado, nos dá o "prazer" de um texto divertidíssimo...


MEIO AMBIENTE
Polêmico, mas realista, Al Gore alerta para catástrofe ambiental, sem volta


CONJUNTURA
A exploração sexual infantil: os números são assustadores e as seqüelas, piores


DEBATE
A reforma na assistência à saúde mental na mira de 3 especialistas no tema


HISTÓRIA DA MEDICINA
Anorexia: um mergulho na história da humanidade mostra que ela vem de longa data...


HOMENAGEM
Darcy Villela Itiberê: toda uma vida dedicada ao exercício, pleno e ético, da Medicina


EM FOCO
Homens públicos tão diferentes, na realidade tão semelhantes: são médicos!


RAIO X
Se decidir pela Medicina já é difícil, imagine desistir da profissão, depois de graduado...


ACONTECE
Acompanhe uma visita virtual à 27ª Bienal de Artes, sob o tema Como Viver Junto


SINTONIA
SES começou projeto de catalogação do patrimônio cultural de instituições de saúde do Estado


COM A PALAVRA
Confira texto inteligente e bem humorado do cardiologista Rodrigo Penha de Almeida


TURISMO
Impossível resistir a estas imagens... Veja nossas dicas para conhecer, de perto, esse paraíso


LIVRO DE CABECEIRA
Intercorrências da Morte é o destaque desta edição. De Saramago. É preciso mais?!?


POESIA
Encerrando com chave de ouro esta edição, a poesia de Roland Barthes


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Edição 37 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2006

ENTREVISTA

Acompanhe esta conversa com o escritor-médico Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras.


A VIDA DUPLA DE MOACYR SCLIAR


“Os escritores de ficção descrevem melhor o drama humano
do paciente do que os próprios textos médicos”

Texto: Ivolethe Duarte
Fotos: Beto Scliar*

Médico e membro da Academia Brasileira de Letras com mais de 70 livros publicados, o gaúcho Moacyr Scliar, de 69 anos, é a prova de que é possível fazer duas coisas na vida, e muito bem. No mesmo ano em que formou-se em Medicina, 1962, publicava seu primeiro livro, Histórias de Médicos em Formação – hoje renegado pelo autor. Scliar é um dos grandes representantes da literatura contemporânea, com títulos traduzidos em vários idiomas, ao mesmo tempo que atua como professsor de Medicina em Porto Alegre. Entre suas obras mais importantes estão O Exército de um Homem Só, O Centauro no Jardim, A Orelha de Van Gogh e A Mulher que Escreveu a Bíblia. No gênero não-ficcção, escreveu sobre os médicos Oswaldo Cruz (Sonhos Tropicais) e Noel Nutels (A majestade do Xingu). O escritor recebeu importantes prêmios nacionais e internacionas, sendo também colaborador de jornais e revistas do país. Nesta entrevista ele fala sobre sua vida dupla, um grande medo da infância, de um arrependimento e da conexão entre Medicina e literatura. 


Ser: Quando o senhor começou a escrever e qual foi a vocação que surgiu primeiro, médico ou escritor?
Moacyr Scliar:
Comecei a escrever muito cedo porque fui alfabetizado precocemente por minha mãe, que era professora primária. Assim, na infância, já estava colocando minhas historinhas no papel. Meu pai era um grande contador de histórias e também me motivou para a narrativa. Por outro lado, minha mãe era uma grande leitora e fazia questão que os filhos lessem, o que representou um estímulo.

Ser: Mas qual era a sua idade?
Scliar:
Por volta de seis, sete anos. Mas também na infância nasceu a curiosidade pela medicina, só que de uma maneira diferente da que me levou à literatura. Eu era uma criança com muito medo de doença. Não que fosse hipocondríaco. Eu não tinha medo de ficar doente, até gostava porque ficava em casa, não ia à escola e meus pais cuidavam de mim. Mas quando eles ficavam doentes eu me sentia muito inseguro e ameaçado; era algo que realmente me assustava. Então, muito cedo comecei a ler sobre medicina, falar com médicos e a me interessar por questões de doença.
 
Ser: É verdade que seus pais incentivaram os vizinhos a comprarem vários exemplares do seu primeiro livro publicado?
Scliar:
É verdade. O livro era uma coletânea de histórias que escrevi como estudante. Eu as publicava numa coluna do jornal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que se chamava O Bisturi. Alguns de meus colegas gostavam muito dessas histórias e me estimularam a fazer um livro que se chamou Histórias de Médicos em Formação e foi publicado graças a um amigo editor. Os autores que estão iniciando têm muita dificuldade de encontrar uma editora porque representam um investimento muito arriscado.  E, de fato, os meus pais ajudaram, fazendo com que os vizinhos adquirissem o livro, sobretudo minha mãe. Mas era um livro juvenil, escrito no entusiasmo da mocidade. Depois, quando fui relê-lo, resultou numa decepção, pelos defeitos que meu texto tinha.

Ser: O senhor chega a se arrepender desse livro?
Scliar:
Nunca mais deixei reeditar (risos). Eu até digo aqui em Porto Alegre que se alguém encontrar um exemplar pode me trazer que compro por qualquer soma, para que esse crime literário fique sem testemunha (risos).  Na realidade, isso acontece com autores que começam jovens. Foi uma lição porque cheguei à conclusão de que é preciso esperar algum tempo até publicar um texto. Daí por diante, cada vez que escrevia, não corria para publicar em algum jornal. Guardava na gaveta, depois relia e reescrevia.

Ser: O senhor concorda com a tese de que as pessoas deviam começar a escrever depois dos 40 anos, quando estão maduras e preparadas para contar boas histórias?
Scliar:
Esse é um dito muito repetido em relação ao romance, de que não existem romancistas com menos de 40 anos, porque é uma forma literária que exige maturidade e uma visão mais abrangente. Mas não é verdade para o conto e nem para poesia. Castro Alves, por exemplo, morreu aos 24 anos com uma obra poética realizada. O grande escritor russo Anton Tchecov, que por sinal era médico e morreu aos quarenta e poucos anos, também. Com Kafka, que morreu aos 43 anos, a mesma coisa. Quando se trata de romance talvez a maturidade seja um critério importante, mas quando falamos de ficção curta ou de poesia, acho que esse critério não vale.

Ser: O senhor já escreveu mais de 70 livros, é professor da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, colabora com jornais, revistas, participa de seminários e palestras pelo Brasil inteiro. Como concilia todas essas atividades?
Scliar:
Com muita correria, organização e disposição. Realmente tenho muitas solicitações, muitos projetos e me esforço para tentar fazer tudo que planejo. Tem algumas coisas que considero uma colaboração cidadã para o nosso país, como por exemplo, discutir com os jovens tanto sobre o tema de saúde, como da literatura em escolas e universidades. Viajo muito para exercer essa atividade e me sinto bem fazendo isso.

Ser: Sua atuação na Medicina teve de ser reduzida para uma dedicação  maior à literatura?
Scliar:
Fiz residência em Medicina Interna e comecei a trabalhar como internista em um hospital para tuberculosos em Porto Alegre. Na verdade eu era clínico, não era especialista em tuberculose, mas comecei a me interessar pelo assunto e isso me levou à saúde pública. Fiquei fascinado por trabalhar com uma doença com alta prevalência na população e, então, fiz um curso de saúde pública, indo trabalhar na Secretaria da Saúde. Foi uma experiência gratificante porque era uma época de grandes realizações na saúde pública brasileira, sobretudo no Rio Grande do Sul. Era um grupo vanguardista, um centro de excelência que recebia médicos de várias partes da América Latina para treinamento. Trabalhei ali praticamente durante toda a minha vida. Depois me dirigi para a docência, onde procuro ensinar aos jovens estudantes aquilo que aprendi em várias décadas. Hoje minha atividade se restringe à docência, mas também participo de grupos de trabalho do Ministério da Saúde e escrevo regularmente sobre temas médicos para vários jornais e periódicos do país.

Ser: O senhor se define como médico-escritor ou escritor-médico?
Scliar:
Caso seja considerada a maneira pela qual sou conhecido, primeiro como escritor e depois como médico. Mas na minha cabeça as prioridades são absolutamente iguais. Posso não dedicar tanto tempo à saúde pública como antes, mas não faço isso com menor paixão, porque corresponde a uma das duas necessidades que sinto. Seria para mim muito difícil se tivesse que optar entre uma coisa ou outra. Felizmente, isso nunca aconteceu. Mesmo que tenha dado trabalho e sacrificado o lazer, acho que compensa.

Ser: Como professor de Medicina, que reflexão faz sobre o ensino médico atual?
Scliar:
O ensino médico está diante de um desafio muito grande. Na verdade, sempre esteve, mas hoje vivemos um período de grandes mudanças dentro da profissão. Acho que do ponto de vista técnico e científico, o ensino médico atingiu todos os objetivos. O que precisaria ser complementado é o lado humano da medicina; a relação médico-paciente deveria ser concebida como uma relação entre seres humanos. O estudante precisa ter sua visão social e humanística ampliada. Nos Estados Unidos, por exemplo, isso é comum. Eu mesmo dei um curso na Brown University sobre a visão do médico e da doença na literatura. Isso baseado na constatação de que muitas vezes os escritores de ficção descrevem melhor o drama humano do paciente do que os próprios textos médicos.

Ser: Qual sua maior preocupação quando está desenvolvendo uma história? Algum escritor em especial o estimulou a escrever?
Scliar:
O meu objetivo é contar uma história que tenha um tríplice característico. Primeiro, que dê prazer, pois o texto literário não deve ser chato nem carrancudo – e nada impede que a gente use o humor. Segundo, deve emocionar e, através do prazer e da emoção, deve proporcionar uma lição de vida. Para fazer isso, é preciso duas coisas: ter boas idéias e o domínio da forma literária, que só se alcança com a prática, o tempo e a constante revisão daquilo que a gente faz. Já os autores que me influenciaram foram muitos. Destaco Guimarães Rosa –  lembrando que ele foi médico – , Clarice Lispector, Machado de Assis, Érico Veríssimo e Graciliano Ramos. Dois estrangeiros me impressionam: Franz Kafka e Anton Tchecov.

Ser: Seu livro O Centauro no Jardim foi considerado pela National Yiddish Book Center (EUA) uma das 100 melhores obras de temática judaica escritas em todo o mundo nos últimos 200 anos. O senhor viveu numa comunidade ídiche na infância? O que há de autobiográfico nessa obra?
Scliar:
Sou filho de imigrantes, o que é muito comum aqui no Rio Grande e em toda região Sul do Brasil. Aqui temos boa parte da população formada por descendentes de alemães, italianos, árabes e também, no caso da minha família, de judeus oriundos do sul da Rússia que vieram para o Brasil em um projeto de colonização agrícola. Meus pais não eram pessoas religiosas, eram muito emancipados, mas mantinham a tradição judaica, em termos de literatura, dos costumes, de falar o idioma, o que realmente foi importante para mim. O Brasil é uma soma de culturas, um exemplo de diversidade cultural. Assumir a cultura de nossos pais é uma coisa que considero importante para o país.
 
Ser: Em geral os filhos de imigrantes que viveram em comunidades ou que têm traços físicos marcadamente diferentes dizem que têm dificuldade para definir sua identidade quando nascem num país como o Brasil. O senhor passou por isso também? 
Scliar:
O Brasil tem um passado de preconceito que não chega aos níveis da África do Sul e dos EUA, mas havia sim algum tipo de discriminação e de brincadeiras. Porém, foi uma coisa do passado, transitória, e eu não tive a menor dificuldade em assumir a identidade judaica porque parto do princípio de que quanto mais identidade a gente tiver, melhor para nós.

Ser: O senhor escreveu um livro sobre Noel Nutels que também é judeu. A escolha desse personagem tem a ver com sua ascendência judaica?
Scliar:
Tinha muitas identificações com Noel Nutels, a quem conheci pessoalmente. Primeiramente ocorreu a identificação médica. Encontrava Noel nas reuniões de saúde pública; ele trabalhava com a saúde dos povos indígenas. Além disso, tinha uma identificação pessoal com Noel, porque como meus pais, ele era um imigrante russo vindo da mesma região. Tanto ele como a Clarisse Lispector. Os dois foram para o Nordeste, acabaram morando em Recife, onde ele se formou em Medicina. Depois ele veio para o Rio de Janeiro e foi convidado a trabalhar com os índios da região do Xingu. Esse trabalho era admirável. Comovia o fato de Noel, não sendo brasileiro de nascimento, se identificar profundamente com os índios do Xingu. Tem uma história muito bonita e inspiradora de um indiozinho doente que o Noel e a esposa levaram para casa e cuidaram. Desde que o Noel faleceu eu tinha o projeto de escrever um livro sobre ele. Levei anos trabalhando com essa idéia, mas quando comecei, o livro brotou de uma vez só.

Ser: Como é o seu processo de criação de personagens? Como ele surge e como se define?
Scliar:
Pegando o caso do Noel, um personagem real que eu tinha conhecido ou o Oswaldo Cruz, sobre o qual tinha lido, eles servem como mote para histórias de ficção. Agora, claro que é preciso criar outros personagens ficcionais e a gente acaba aprendendo com o tempo que quando a história deslancha, os personagens adquirem vida própria. Eles são movidos pela sua lógica, de tal maneira que numa cena o personagem só pode dizer ou fazer aquelas coisas que está dizendo ou fazendo ali. O escritor se sente como se apenas estivesse registrando algo que está acontecendo.

Ser: Dá para viver de literatura no Brasil, especialmente ao se comparar com o padrão de vida de médicos?
Scliar:
Pouca gente pode viver só de literatura. Eu particularmente cheguei a um estágio da carreira em que isso seria possível. A grande diferença é que eu nunca quis viver só de literatura, porque queria conciliar minhas duas profissões. Agora, se não dá pra viver de livro, o escritor também escreve artigos para jornais, roteiros e outras coisas desse tipo. Ele diversifica suas atividades.

Ser: O escritor canadense Yann Martel, autor de A vida de Pi plagiou ou inspirou-se no seu livro Max e os felinos? Como essa história se resolveu?
Scliar:
Na verdade, ele não tinha lido o meu livro, mas um resumo e, baseado nisso, escreveu o dele. Ou seja, não copiou o texto mas a idéia. Pode acontecer em literatura de alguém achar uma idéia muito boa e fazer a sua história. Isso não teria me incomodado em nada, não fosse por dois detalhes. Primeiro, ele não se deu ao trabalho de avisar que estava fazendo isso – ao menos por uma questão de cordialidade deveria ter feito. Segundo, ele falou mal do meu livro. Ele disse que não havia lido, mas tinha a informação de que não era bom – embora não soubesse dizer de onde tirou essa informação. Então, ficou parecendo o seguinte: era um tema que tinha sido estragado por um autor brasileiro e que ele iria dar a forma adequada à idéia. Eu achei uma desconsideração, mas não quis levar o caso ao tribunal, porque não é do meu estilo; não sou uma pessoa litigante. Por fim, ele me telefonou, pediu desculpas e com isso resolvi dar o assunto por encerrado.

Ser: Há algum ponto de conexão entre a Medicina e a literatura?
Scliar:
Muitos. A literatura e a medicina partilham um território comum: a condição humana. O grande tema da literatura é a condição humana. O da medicina é a condição humana da pessoa doente. A doença é extremamente reveladora, faz com que as máscaras caiam e que as pessoas se revelem como elas são. Isso é o que fascina os escritores de ficção quando eles usam a doença como ponto de partida para um texto literário. Exemplos clássicos  são A Montanha Mágica do Thomas Mann que se passa num sanatório de tuberculosos e O Alienista, de Machado de Assis. Outro aspecto é que tanto a medicina como a literatura valorizam a palavra, ainda que de maneira diferente. Na literatura, a palavra é um instrumento de valorização estética. Na Medicina, ela pode ter um significado simbólico e terapêutico muito grande. Dizer a palavra câncer para uma pessoa, por exemplo, não é só dar uma informação, às vezes representa um veredicto. O médico aprende a usar a palavra da mesma maneira que um escritor aprende a valorizá-la. A Medicina fornece abundante material para a literatura e a literatura propicia aos médicos meios para entender o paciente, pelas histórias de ficção. Acho que as duas se completam e não é de se estranhar que no passado, e ainda hoje, tantos médicos tenham sido escritores.


* Fotos cedidas como cortesia pelo fotógrafo Beto Scliar, filho de Moacyr Scliar, para ilustrar esta entrevista.


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