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EDITORIAL
Destaque p/reportagem especial sobre o longo e penoso processo de aposentadoria dos médicos


ENTREVISTA
Nesta edição, Giovanni Guido Cerri fala sobre sua experiência à frente da FMUSP


CRÔNICA
O escritor Ruy Castro nos brinda com seu texto divertido e inteligente, sua marca registrada


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Polêmico, o apelo ao consumo infantil desenfreado na análise de uma especialista no tema...


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Mata Atlântica: ainda é possível, sim, salvar o que resta desta floresta


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Aposentadoria: depois de anos de (árduo) trabalho, chega - enfim - a dificuldade maior...


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Saúde Suplementar: especialistas no assunto avaliam as relações de mercado e a assistência à saúde


HISTÓRIA DA MEDICINA
Você conhece Alcméon de Crotona? Acompanhe a história do avô da Medicina, por José Marques Filho


ESPECIAL CENTRO DE SÃO PAULO 1
A restauração do centro da cidade devolve aos paulistanos a nostalgia dos bons tempos...


ESPECIAL CENTRO DE SÃO PAULO 2
Mercado Municipal: restauro tornou local agradável para passear, fazer compras e almoçar


ESPECIAL CENTRO DE SÃO PAULO 3
Theatro São Pedro aniversaria em plena atividade, com espetáculos de dança, música e dramaturgia


TURISMO
Prepare-se para realizar uma viagem de sonho pelo continente australiano


LIVRO DE CABECEIRA
Cartas da Guerra, de Antonio Lobo Antunes, é a recomendação de nosso delegado em Atibaia


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Acompanhe o que os leitores da Ser Médico acham da revista...


POESIA
A poesia da vez é de autoria de Vladimir Mayakoviski


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Edição 39 - Abril/Maio/Junho de 2007

CRÔNICA

O escritor Ruy Castro nos brinda com seu texto divertido e inteligente, sua marca registrada


Trompas de Falópio, out; tubas uterinas, in


Foi há dez anos. E tanto eu como o Falópio ainda não nos acostumamos

Ruy Castro*

Foi há exatamente dez anos. De repente, médicos de 16 países reuniram-se em São Paulo e anunciaram que, depois de insanos estudos, seis mil partes do corpo humano tinham sido rebatizadas com novos nomes oficiais. E o resultado é que nunca mais tivemos dor de ouvido. Só dor de orelhas.

Eles descobriram que, por uma série de motivos – não me pergunte quais –, muitos dos nomes antigos já não serviam. E foram bem claros: só os nomes estavam mudando, mas as funções continuavam as mesmas. Ah, bom! A velha orelha, portanto, continuava a ser orelha, própria para levar um puxão ou carregar um brinco, mas teria de ser chamada de orelha externa. E o ouvido, subitamente evaporado dos dicionários médicos, passava a ser a orelha interna.
 
Outro que dançou nessa revolução da nomenclatura foi o cotovelo que, coitado, foi rebatizado como cúbito. Donde, no caso de alguma namorada o ter mandado passear nos últimos dez anos, você não teve dor-de-cotovelo, mas dor-de-cúbito. Só que, em alguns casos de mudança de nome, os cientistas tiveram de fazer um ajuste, e este foi um deles – porque já havia no braço um osso chamado cúbito. Pois deixou de chamar-se. O antigo cúbito passou a chamar-se ulna, a fim de liberar espaço para o novo cúbito que aposentou o cotovelo.

E lembra-se do perônio, aquele osso que os jogadores de futebol costumavam fraturar junto com a tíbia? Passou a chamar-se fíbula. Donde, desde então, tivemos exclusivamente fraturas da fíbula e da tíbia. Se você soube de algum jogador que fraturou o perônio nesse período, só pode ter sido algum veterano desinformado atuando num time de masters e, mesmo assim, maior de 40 anos.

Quanto ao bravo aparelho digestivo – aquele que você sempre obrigou a processar os mais pesados torpedos nos fins-de-semana e ele nunca lhe faltou –, também mudou de nome. Tornou-se o sistema digestório que, não sei por quê, me soa como nome de purgante. Eu não me surpreenderia se, nos últimos tempos, ele negou fogo diante de uma buchada de bode ou de um mortífero sarapatel que você mandou para dentro – apenas por não se reconhecer como um sistema “digestório”.
 
Enfim, ao ler tudo isto, você perguntará: “Mas que loucura foi essa? O que os nomes antigos tinham de errado?” Ah-há! E esta será uma boa pergunta. Mas pode apostar que, por trás da explicação, lá está, solerte, aquele nosso velho conhecido: o “politicamente correto”.

Vejamos o pomo-de-adão. Descobriu-se que, como as mulheres (as feias, principalmente) também têm aquela horrenda proeminência no gogó, era injusto homenagear apenas o Adão, esquecendo-se a querida Eva. Essa descoberta partiu, sem dúvida, de alguma militante com um pomo-de-adão que só faltava fazer glu-glu. E ela não se conformava em ver essa importante parte de sua anatomia atribuída a um homem. Ao mesmo tempo seria preconceituoso inventar o pomo-de-eva e, de qualquer maneira, o nome não se aplicaria a um gogó masculino. Daí que, a partir de então, o poético pomo-de-adão passou a ser chamado, prosaicamente, de proeminência laríngea.
 
Pelo mesmo motivo, os cientistas aproveitaram para cassar também os nomes de outros heróis que há séculos vinham batizando certas partes do corpo. De um dia para o outro, eles não serviam mais, apenas porque se referiam a homens, o que menosprezava a participação da mulher na nomenclatura. Com isso, o tendão de Aquiles passou a ser o tendão calcâneo. A trompa de Eustáquio tornou-se a tuba auditiva. E não ria, mas as trompas de Falópio passaram a ser as tubas uterinas.

Não vamos nem discutir o desrespeito a Aquiles, o grande guerreiro da mitologia e um dos símbolos universais da coragem e da valentia. Mas, o que dizer do insulto a Eustáquio e Falópio, os médicos italianos do século XVI que foram os primeiros a descrever as trompas que ganharam os seus nomes? Eustáquio e Falópio não dispunham de computadores, micro-câmeras ou aparelhos de ultra-som para espiar dentro do corpo humano. Tudo que descobriram foi à custa de cirurgias complicadas numa época sem recursos como micro-câmeras, anestesia ou a simples luz elétrica. E o que fizeram os seus atuais sucessores, cercados de modernas facilidades? Cassaram-lhe os nomes.
 
Os médicos se justificam dizendo que essa nova nomeação já veio tarde, que os nomes eram imprecisos e que aquelas partes, digamos, do ouvido e do útero estavam de fato mais para tubas do que para trompas. Será? Pois, mesmo que se parecessem com trombones ou fagotes, seus nomes originais deveriam ser preservados, até porque sua função no corpo humano nunca foi a de produzir música. E que mulher ficará mais contente ao saber que, no lugar das líricas trompas de Falópio, passou a carregar em suas entranhas um par de tubas uterinas? Já não basta o sentido tão pejorativo do verbo entubar?
 
Eu acharia mais justo se, no embalo, os médicos também tivessem mudado o nome de algumas de suas especialidades. Os bravos otorrinolaringologistas, por exemplo, cuja designação se presta tanto a brincadeiras, poderiam ter sido convidados a se chamar por um nome que destroncasse menos a língua e criasse menos calos nos ouvidos de seus clientes. 
 
P.S.: Bem, é claro que tudo que você leu acima foi uma brincadeira e, certamente, os cientistas tiveram excelentes motivos para corrigir certas descrições anatômicas. O jargão jornalístico também está cheio de palavras estranhas – por que, por exemplo, em jornalês castiço, a publicação de uma notícia errada é chamada de “barriga”?

Sou até muito grato a esses cientistas por terem conservado intactos alguns nomes e expressões que me encantam, embora eu não saiba direito para que servem ou o que significam. Alguns deles: esqueleto, glote, piloro, úvula, cóccix, genivalgo, zarolho, orelhas de abano e movimentos peristálticos.

* Ruy Castro é escritor, autor de Amestrando orgasmos – Bípedes, quadrúpedes e outras fixações animais (Objetiva, 2004), entre outros.


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