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CAPA

EDITORIAL (SM pág. 1)
O segredo médico é o destaque principal do editorial desta edição


ENTREVISTA (SM pág. 4)
Shotaro Shimada: visão ainda mais grandiosa da yoga


CRÔNICA (SM pág. 8)
Texto bem humorado de Tufik Bauab Jr, vice-presidente da SPR


MEIO AMBIENTE (SM pág. 10)
Efeito estufa: ações cotidianas, poluidoras, passam despercebidas...


CONJUNTURA (SM pág. 12)
Transtornos mentais e de comportamento: faltam recursos para prevenção e tratamento


SINTONIA (SM pág. 18)
Instituto Internacional de Neurociências de Natal ELS: audácia e pioneirismo


DEBATE (SM pág. 20)
Ginecologistas do Cremesp discutem aborto e saúde pública


EM FOCO (SM pág. 26)
O que representa ser estrangeiro e estudar Medicina no Brasil? Um enorme desafio...


HOBBIE DE MÉDICO (SM pág. 29)
Brasil Império: Manuel dos Santos Júnior mostra sua coleção de louça histórica


COM A PALAVRA (SM pág. 34)
Com vocês... Montaigne, dissecado por Joffre Marcondes de Rezende


HISTÓRIA DA MEDICINA (SM pág. 36)
Você conhece a história e a origem da palavra sífilis? Surpreenda-se. Texto de Isac Jorge Filho


ACONTECEU (SM pág.40)
Festival de Dança de Joinville: emoção à flor da pele, para bailarinos e espectadores


ARTE E TURISMO (SM pág. 42)
Conheça a arte popular, maravilhosa, na fachada de casas de pequenos vilarejos brasileiros


LIVRO DE CABECEIRA (SM pág. 46)
O terrorista, de John Updike, é a recomendação de leitura do infectologista Jacyr Pasternack


CARTAS & NOTAS (SM pág.46)
Acompanhe os comentários dos leitores sobre as matérias da edição passada da revista


POESIA (SM pág. 48)
Poema do poeta português Antonio Galeão fecha esta edição com pura emoção


GALERIA DE FOTOS


Edição 40 - Julho/Agosto/Setembro de 2007

HISTÓRIA DA MEDICINA (SM pág. 36)

Você conhece a história e a origem da palavra sífilis? Surpreenda-se. Texto de Isac Jorge Filho

Girólamo Fracastoro



Médico do século XVI inspira obra ficcional sobre a sífilis

Isac Jorge Filho*

Girólamo Fracastoro, médico genovês do século XVI, ficou famoso por sua luta contra o Mal Francês, como era conhecida a sífilis na época, além de vários outros nomes. O termo sífilis ficou conhecido após o fantástico poema por ele escrito chamado Syphilis sive morbus gallicus ( Sífilis ou Mal Francês) . O autor Heitor Rosa usou esse médico e sua obra, para criar uma história ficcional, leve e bem humorada, com personagens e situações ajustadas à época. Dá ao leitor uma idéia interessante da sociedade, da presença da Igreja e a Medicina naquele século. O narrador é o assistente de Fracastoro, Gioacchino dalla Rosa, cirurgião-barbeiro que no final da vida transcreveu em suas memórias todas as aventuras vividas com o mestre, culminando na revelação de como Fracastoro “inventou a palavra sífilis e descobriu sua origem”. A seguir, alguns trechos de vários capítulos:

O avanço do Mal Francês em Verona e cidades do norte tornava-se cada vez maior e mais grave. Para Fracastoro, tal nome não se adequava à moléstia, e ele vinha meditando sobre um outro mais apropriado para realmente caracterizá-la.

À medida que observava a situação quase epidêmica de Verona e outras cidades importantes como Veneza, Pádua e Milão, Fracastoro tomava notas de forma alucinante, à noite conferindo nossos escritos e registrando em minúcias a evolução do paciente e da doença. Além disso, com freqüência eu o ouvia repetir versos latinos, que só mais tarde soube serem dele próprio. Um grande poema achava-se em gestação.

Não era nada pequena a tarefa de vencer a idéia consagrada de ser o Mal Francês doença natural do macho, e que os homens não deviam dela se envergonhar; pelo contrário, enquanto não a experimentassem, qualquer aventura feminina ou galanteio seriam de pouca credibilidade e indignos de ser contados.

– E não é fácil evitar a conquista feminina – dizia ele.
– Mas não são as mulheres mais fáceis de se controlar?
– Não, Gioacchino, não subestimes o furor uterino.
– Falas da mulher insaciável?
– Sim, as que sofrem de ninfomania ou de metromania. É o delírio lascivo que infecciona as mulheres solteiras, as donzelas, as viúvas e as prostitutas em fase de cura moral ou de penitência.
– Como a distingues da eretomania?
– Mas já te disse. Recordo-te, a eretomania não tem estágios, pois já começa com o furor da carne e a sede brutal do sexo. Ao contrário, a metromania vai de sinais leves, como o desânimo, grandes suspiros e a falta de vontade para coser, fiar ou bordar. Quando a doença chega no grau mais elevado de malignidade, a mulher fala coisas obscenas e oferece o corpo. E aí pode receber os ares do Mal Francês.
– Então podemos evitar a doença se aplacarmos o furor de amor, não estou certo? Como tratas essas infelizes na fase em que ainda não adquiriram a doença, ou que estão perto de tê-la?
– Na minha opinião, o melhor é prescrever-lhes o eletuário ou emulsão de castidade. Misture sementes amassadas de papoula branca, urtiga, beldroegas com água de rosas, água de alface, gotas de licor de Hoffman e xarope espesso de açúcar. A vantagem dessa minha fórmula é que ela pode ser tomada também por eclesiásticos, frades, padres e freiras.
– E por que os religiosos tomariam teu remédio? Não fazem eles votos de castidade?
– Onde ouvistes dizer isso? Eles são os mais acometidos da eretomania ou do furor uterino. Tomando o eletuário todos ficarão com as mãos e os pensamentos em seus devidos lugares.


Câmara de vapores para eliminar a doença do suor

– Não sou alquimista mas posso explicar-te por que o mercúrio é usado nessa doença. Muito aprendi em longas conversas com um clínico suíço de quem me tornei amigo, apesar de tê-lo encontrado apenas duas vezes. Além de médico, é ele também alquimista; chama-se Paracelso. Explicou-me, por exemplo, que existe conexão entre os planetas e os metais, pois os astros governam as atividades e transformações destes em outros corpos. Portanto, o sol governa o ouro; a lua crescente, a prata; a lua minguante, o mercúrio; Vênus, o cobre; Marte, o ferro, e assim por diante. O mercúrio, quando se liberta do corpo do cinábrio, é um líquido prateado capaz de devorar o ouro. Ora, se ele consome o metal mais nobre e poderoso, por que não consumiria o veneno do Mal Francês? Quando fazemos o ungüento com pó de cinábrio e besuntamos as feridas, a alma do mercúrio se liberta para dentro do corpo e vai certamente devorar o vírus da doença.

E assim era Fracastoro, o médico que usava tão bem o medicamento e a lógica, cujo saber ele demonstrara na Universidade de Pádua.

Elegeu-me seu ouvinte. O poema, leu-mo diversas vezes, à medida que novos versos tomavam a forma final, a tal ponto que, com suas explicações, o latim tornou-se para mim quase tão compreensível quanto minha própria língua.
Nem Virgílio nem Dante criaram algo tão real e útil. Não foi um poema inspirado na paixão ou numa lenda, mas a lição de medicina dirigida a todos os clínicos, como um farol iluminando-os no tratamento daquela doença. A Medicina em Poema, e também o Poema da Medicina. Era assim que discutia sua obra, considerando entretanto poesia e medicina como duas realidades, a ser ouvidas e sentidas separadamente.

– Então não percebes? Escutaste a nossa Divina Tragédia – dizia. – Olha para esse inferno, onde reis, papas, bispos, comerciantes ou soldados estão sentados sobre brasas e consomem os corpos numa urna fumegante. Olha para o purgatório daqueles jazendo nas camas a tremer os ossos de dor, os lençóis pregados em suas chagas besuntadas de linimentos. Olha para o céu daqueles já curados. Leste algo pior em Dante?

Quanto tempo recomendas o uso do ungüento mercurial?
– Enquanto a doença não sumir. Pode ser por toda a vida, quem sabe? Este é o preço que se paga. Uma noite com Vênus e a vida inteira com Mercúrio.
(Diálogo entre Fracastoro e seu assistente)


Memórias de um Cirurgião-Barbeiro
Editora Bertrand Brasil
220 págs.
20 ilustrações
 


*Isac Jorge Filho é gastroenterologista e ex-presidente do Cremesp


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