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CAPA

PONTO DE PARTIDA (SM pág. 1)
Novo movimento deve unir médicos e sociedade contra o descaso e a falta de prioridade com as quais a Saúde vem sendo tratada


ESPECIAL 1 (SM pág. 4)
Ser Médico comemora 10 anos em grande estilo. Seu conteúdo diversificado agrada a todos, médicos inclusive...


ESPECIAL 2 (SM pág. 5)
Ser Médico 10 anos: acompanhe trechos de artigos memoráveis da revista


CRÔNICA (SM pág. 12)
Nesta edição comemorativa, uma crônica bem-humorada e inteligente de Moacyr Scliar. É preciso dizer mais?!?


SINTONIA (SM pág. 14)
Congresso Brasileiro de Bioética: acompanhe síntese da palestra da cientista política Adela Cortina


CONJUNTURA (SM pág. 18)
Médicos e indústria farmacêutica: a falta de limites para conflitos de interesse


MEIO AMBIENTE (SM pág. 21)
Parece sonho, mas é realidade. A Reserva Ecológica Mamirauá existe. Mesmo.


DEBATE (SM pág. 25)
AVC: um RX da situação epidemiológica e condutas no atendimento do paciente, no Brasil


COM A PALAVRA (SM pág. 32)
Humanização da Medicina. Idéia atual? Não senhor! Já estava bem presente no passado...


GOURMET (SM pág. 39)
Prepare sua mesa. Você não vai conseguir resistir a esta receita...


TURISMO (SM pág. 42)
Ah... esse deserto você precisa conhecer. É ali, no Maranhão! Acompanhe o texto, veja as fotos!


LIVRO DE CABECEIRA (SM pág. 47)
Às margens do Sena, junto a Maison De La Radio... você já ouviu esse bordão?


POESIA (SM pág. 48)
Toda a emoção de um trecho de Entre o que Vejo e o que Digo, do poeta mexicano Octavio Paz


GALERIA DE FOTOS


Edição 41 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2007

COM A PALAVRA (SM pág. 32)

Humanização da Medicina. Idéia atual? Não senhor! Já estava bem presente no passado...

Alegria e riso na Medicina do passado


Retrato seiscentista de François Rebelais, feito por Nicolas Habert

Vera Cecília Machline*

Uma evidência de que a história reserva notáveis convergências são os Doutores da Alegria, que – entre outros esforços de humanização na Medicina – há 16 anos levam diversão a crianças hospitalizadas e a seus cuidadores. Coincidentemente, um alegórico “Doutor Alegria” já existia na adaptação elisabetana do Regimen Sanitatis Salernitanum, provavelmente escrito no século 12 mas ainda em moda no século 19, que tem recomendações higiênicas – ou seja, preventivas – em versos rimados, para facilitar a memorização. Originalmente publicada em 1607, essa versão inglesa do “Regimento de Saúde da Escola de Salerno” traz conselhos como:

“Não beba muito vinho, ceie
pouco, levante cedo (...).
E use ainda três médicos, primeiro
o Doutor Descanso,
Depois o Doutor Alegria, e o
Doutor Dieta.”

Resumindo uma longa e intrincada história, a alegria e demais emoções hoje são julgadas atividades mentais. Antigamente, por serem consideradas reações passivas a acontecimentos externos, eram designadas paixões ou afeições da alma. No modelo formulado por Platão (427-347 a.C.) de uma alma humana tripartite, as paixões residiam na cavidade próxima do coração para assistirem à parte racional a refrear os desejos da alma apetitiva, situada abaixo do diafragma. Divergindo de seu mestre, Aristóteles (384-322 a.C.) sustentou que o coração era o órgão que sediava todas as faculdades vitais e mentais. Entre esses dois paradigmas, Galeno de Pérgamo (129-cerca de 210 d.C.) preferiu a primazia platônica dada à mente – anatomicamente confirmada pelos alexandrinos Erasistrato e Hierófilo (por volta do séc. 3 a.C.), que rastrearam os nervos até o cérebro. Assim, a não ser que a razão interviesse, o coração se expandia ou se contraia livremente, dependendo da paixão em curso. Alegria e prazer, por exemplo, dilatavam o coração e aqueciam o corpo, enquanto tristeza e medo ocasionavam – como ainda se diz – “coração apertado” e “frio na barriga”.


As duas irmãs, de Renoir, ilutram o antigo costume - hoje incomum - de compartilhar leituras

Em termos formais, porém, as paixões foram incorporadas à teoria médica somente no “novo” galenismo do século 12, pelo autor árabe, ou pelo tradutor latino, do compêndio Isagoge Johannitii. Mas dado ambos serem desconhecidos, esse influente abecê foi respeitosamente atribuído a Joannitius, que era o nome latino de Hunayn ibn Ishaq al’Ibodi (cerca de 809-877 d.C.). Mesmo com tantas incertezas cercando tal compêndio, foi por seu intermédio que – juntamente com o ar ambiente, comida e bebida, sono e vigília, movimento e descanso, evacuação e repleção – as paixões passaram a compreender as “seis coisas não naturais” que, apesar de exógenas, influíam na saúde. Esses seis conjuntos de agentes “não naturais” podiam tanto revigorar quanto minar a vitalidade do organismo, posto seu uso ou abuso estar subordinado a diversos fatores. Além do princípio da moderação,  os fatores a serem computados pelo médico incluíam o estado físico, o temperamento, a idade e o sexo do paciente, bem como o período do dia, a estação do ano e até – para adeptos da astrologia – as alturas e conjunções das constelações do zodíaco.


Interior do Hôtel-Dieu de Paris por volta de 1500, similar à Santa Casa de Lyon onde Rabelais iniciou sua carreira médica

Entre as paixões da alma, a alegria em particular era freqüentemente recomendada, como atesta o Regimen Salernitanum, cujas orientações eram genéricas por excelência. Mas também vários consilia (conselhos) encomendados por membros do clero e da nobreza indicavam – especialmente àqueles com pendor à melancolia – distrações como ouvir música; caminhar pelo jardim; entabular conversa com amigos; ler ou ouvir histórias divertidas; e outros passatempos, em sua maioria muito semelhantes às nossas opções de lazer.

Diferente do humor, que somente a partir do século 18 começou a significar uma construção engraçada, o riso também teve suas propriedades medicinais exploradas no passado. Apesar de afigurar-se um rompante de alegria imoderada, o riso não era considerado uma paixão mas, sim, um exercício voco-respiratório. Conforme Girolamo Mercuriale (1530-1606) explica em seu De arte gymnastica – assim como o grito, o canto, a leitura, a conversação e o choro – o riso exercita o tórax e as partes envolvidas na emissão da voz. Tais exercícios, sendo próprios do pulmão, limpam e fortificam esse órgão e aumentam seu calor natural. Adicionalmente, entre outros benefícios, envigoram e purificam as partes sólidas do organismo, dissipam umidades internas e expelem mucos e fleumas. O riso, em especial, por fazer os intestinos vibrarem, aquece o abdômen. E, posto acalorar o rosto ao dilatar a boca, rir seria particularmente benéfico para aqueles com a cabeça e o tórax resfriados; os dominados por um temperamento frio, a começar pelos melancólicos; e qualquer pessoa com calafrios e outros males provocados por pesares e tristezas. Entretanto, como Mercuriale adverte, riso excessivo debilita o organismo dado consumir em demasia espírito vital e calor interno, ambos imprescindíveis à vida. Em suma, diversos efeitos salutares do riso descritos por Mercuriale continuam válidos – a despeito de a fisiologia humoral ter dado vez à hormonal, hoje investigando a liberação de endomorfinas quando nos exercitamos.

Não foram apenas as virtudes terapêuticas de uma boa gargalhada que levaram pensadores do século 16 a se interessarem pelo riso. Uma questão que ocupou tanto homens de letras quanto médicos de então foi a essência do ridículo – ou seja, o móvel do riso – ante a brevidade a este respeito na Poética aristotélica, no De oratore de Cícero (106-43 a.C.) e na Institutio oratoria de Quintiliano (cerca de 25-96 d.C.). Para estes clássicos, tal essência seria um defeito, uma torpeza ou uma impropriedade de ordem moral, invariavelmente sem dor.

Ponderando sobre essas cogitações, boa parte da intelligentsia quinhentista julgou ser o riso um movimento duplo de expansão e contração, derivado de duas paixões contrárias, geralmente tristeza e maravilha, ou alegria. Outro ponto controverso provou ser a rápida menção, no tratado aristotélico sobre as Partes dos animais, de que o ser humano é o único animal que ri. Na verdade um axioma, melhor conhecido pelo lugar-comum “o riso é o próprio do homem” – derivado da Introdução às Categorias de Aristóteles escrita por Porfírio (233-304 d.C.) – ele se tornou um dilema com a constatação de que certos macacos ocasionalmente emitem gritos semelhantes ao riso. Mesmo envolvendo uma dúvida, esclarecida em fins do século 20 pela etologia, a possibilidade de o riso ser exclusivo dos humanos vinha ao encontro do programa do humanismo renascentista – que, com a ajuda dos clássicos, buscou meios de conhecer melhor o ser humano e maneiras como ele poderia exercer suas potencialidades.

Para ilustrar que também se brincou com as idéias expostas acima, vale lembrar as “divertidas crônicas” do médico humanista François Rabelais (cerca de 1493-1553), contando os feitos do gigante Gargântua, seu filho Pantagruel e seus companheiros de aventuras. Mas porque essas histórias igualmente ridicularizavam o establishment escolástico ainda imperando na Universidade de Paris, essas crônicas foram sistematicamente proibidas pela Sorbonne. Por isso, Rabelais repetidamente alegou em Gargântua e Pantagruel que sua intenção fora apenas minorar o sofrimento de “aflitos e enfermos” – assim como, quando necessário, ele próprio lia em voz alta, para seus pacientes no Hôtel-Dieu de Lyon, um capítulo de suas crônicas. Além de sustentar pessoalmente  entreter pessoas sob seus cuidados médicos, Rabelais argumenta na segunda metade da décima (poema de 10 versos) abrindo Gargântua e Pantagruel:

“Outro intuito não tive, entretanto,
 A não ser rir, e fazer rir portanto,
 Mesmo das aflições que nos consomem.
 Muito mais vale o riso do que o pranto.
 Ride, amigo, que rir é o próprio do homem.”

Enfim, o humanismo renascentista e a ainda incipiente humanização na Medicina são inconfundíveis. Não obstante, ambos têm interessantes pontos de contato.

* Vera Cecília Machline é historiadora da Medicina  e integra  o Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, da PUC-SP

Fontes e referências bibliográficas na pág . 47

Patch Adams no Brasil

“A amizade é o melhor remédio, mas o humor é um excelente meio de se aproximar das pessoas”

Em passagem fugaz pelo Brasil, o incomum médico norte-americano Hunter “Patch” Adams falou sobre sua missão no mundo. Os trejeitos, as roupas coloridas e o nariz de palhaço visam facilitar a comunicação com as pessoas doentes. Diferente da idéia passada pelo filme sobre sua vida – O amor é contagioso, 1998, protagonizado pelo ator Robin Williams – Adams diz que não almeja alegrar doentes. “Não diria como os jornalistas que gostam de frases feitas, que o riso é o melhor remédio. A amizade é o melhor remédio, mas o humor é um excelente meio de se aproximar das pessoas”, afirmou.

Entre os dias 1 e 4 de setembro, Patch Adams fez palestras e workshops no Rio de Janeiro e São Paulo. A visita ao Brasil foi organizada por um grupo de estudantes de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de São Paulo. 

Formado pela Virginia Medical University, ele é um dos mais notórios adeptos da medicina humanizada, com enfoque na pessoa em vez da doença, baseada na cooperação, amor, humor e alegria. Escolheu dedicar-se aos marginalizados por políticas e sistemas de saúde, descaso, miséria e guerras. Para ele, o fato de a medicina estar no topo da hierarquia das profissões transforma os médicos em seres distantes e indiferentes.

Seu pai morreu na Guerra do Vietnã, quando ele tinha apenas 16 anos. Com a perda traumática, viveu sob o signo da tragédia pessoal. Em um único ano tentou suicídio três vezes, sendo internado em uma clínica psiquiátrica. “Nessa época minha vida mudou. Descobri que não deveria me matar para mudar as coisas, mas fazer a revolução”. Há 35 anos Patch Adams planeja construir o hospital dos seus sonhos, para praticar “uma medicina profundamente humanizada”.

Patch por ele mesmo

- “Sempre fui nerd, meio esquisitão. Nunca fui atleta, nem tinha muito sucesso com as garotas, portanto tive muito tempo de sobra. Foi aí que comecei a fazer palhaçadas.”
- “No elevador tem sempre aquele silêncio. Aí, para tentar mudar esse clima, começava a fazer palhaçadas.”
- “Sou grandalhão, mas tento ser inofensivo.”
- “Decidi ser médico porque acho um absurdo um país como os Estados Unidos recusar atendimento a milhões de pessoas só porque são pobres.”
- “Há 35 anos tento construir o hospital dos meus sonhos. E no hospital dos meus sonhos uma faxineira ganharia o mesmo salário que um cirurgião.”
- “Os Estados Unidos adoram matar gente ao redor do mundo”.
- “Ver uma sociedade tão racista e preconceituosa (como a dos EUA) partiu ainda mais meu coração, já machucado pela morte do meu pai.”

(Colaborou Vanessa Miano)






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