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Edição 20 - Julho/Agosto/Setembro de 2002

Entrevista

Oswaldo Sevá

“Quase sempre sabemos onde, mas nunca sabemos quando as catástrofes vão acontecer”

Arsênio Oswaldo Sevá Filho* é autoridade nos estudos de riscos de catástrofes tecnológicas e ambientais no país. Filho de cardiologista, professor de Engenharia Mecânica da Unicamp, atua nas áreas de energia, meio ambiente, saúde do trabalho e saúde pública, além de cooperar com a equipe que criou o Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fiocruz. Em entrevista à Ser Médico, fala de detalhes ocultos de catástrofes antigas e do que pode ser feito para amenizar o lado sinistro do mundo cada vez mais industrializado e tecnológico.



SM: Quais são os setores da atividade econômica com potencial de contaminação e de acidentes que ameaçam a saúde humana?
SEVÁ: Muitos setores da indústria têm grande potencial de contaminação e acidentes. Essas atividades devem ser analisadas e avaliadas criticamente por pessoas não preocupadas com a produtividade e lucro porque as conseqüências de alguns processos produtivos são muito graves. No Brasil, a indústria produtora de resíduos com algum grau de toxicidade deveria con-finá-los em containers de concreto espesso, porém, muitas vezes, os colocam em aterros, contaminando lençóis freáticos, minas d’água ou rios. Também está na moda aproveitar os resíduos para co-processamento. As fábricas de geladeiras, televisores e máquinas de lavar produzem borra de tinta no seu processo, um material que pode ser queimado porque tem alto poder calorífico. Poderia ser reprocessado, mas preferem usar a borra de tinta para queimar em fornos da indústria cimenteira ou de cal, provocando eventos que não são acidentais, mas probabilísticos. É o caso da Solvay, em Rio Grande da Serra, na região do ABC. Uma de suas unidades usou um resíduo perigoso num forno de cal, contaminando-a com dioxina. Essa dioxina foi parar numa ração animal, composta por bagaço de laranja e cal (contaminada), exportada para a Europa. Depois, detectou-se dio-xina no leite de vaca na Bélgica. Esse exemplo sobre a seqüência dos fatos demonstra que a indústria deve ser considerada como um setor com fator potencial de contaminação, em alguns casos, de altíssimo risco.

SM: Um evento com dioxina em Sevezo, Itália, trouxe graves conseqüências à saúde da população, tanto que mulheres grávidas expostas foram autorizadas pelo Estado a provocar aborto. Que outros eventos, no Brasil e no mundo, são importantes de serem lembrados?
SEVÁ: Há preocupação entre estudiosos no Brasil — que são poucos — em criar uma memória desses acontecimentos. O caso de Sevezo, de 1976, virou referência porque surpreendeu a todos e foi muito conflitivo. As mulheres foram autorizadas a abortar, mas enfrentaram forte reação da Igreja Católica, que é muito influente na Itália. Os animais foram contaminados, as pessoas foram induzidas a não consumi-los e ainda tiveram de sair de suas casas. Eclodiu uma revolta. O pesquisador francês Patric Lagadec associa esse tipo de catástrofe tecnológica a uma disfunção ou desestabilização social, porque tem desdobramentos tão imprevistos que colocam em xeque a empresa, o poder público, as pesquisas universitárias etc.

SM: Qual foi a repercussão e a lição de Sevezo para o mundo?
SEVÁ: A importância de Sevezo é tal que depois a Comunidade Européia votou a Diretriz 82/501, conhecida como “Diretriz Sevezo”, que pretende classificar todas as atividades industriais conforme o risco, exigindo apresentação de relatórios às autoridades locais sobre quais e quanto material há estocado, onde passa a tubulação, quais meios naturais podem eventualmente ser afetados etc. Essa diretriz está tomando caráter de orientação internacional. No final dos anos 80, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) criou a Convenção 174, ampliando essa prevenção a todos os países que aderiram à convenção. O Brasil aderiu há uns cinco anos e criou a Comissão de Prevenção de Segurança Química (Copasq).

SM: Quais foram os eventos mais marcantes no mundo que envolveram o risco tecnológico?
SEVÁ: Um dos mais conhecidos é o acidente no Bhopal, Índia, com isocianato de metila que, tal como a dioxina em Sevezo, não era o produto principal da empresa. Era um reagente da fase intermediária de um processo que vazou devido às condições de funcionamento dos reatores e da ma-nu--tenção, matando quatro mil pessoas de imedia-to, além de fazer mais de 300 mil vítimas. Há casos que não envolvem diretamente o funcionamento de indústria química, por exemplo, a contaminação de meio natural, principalmente recursos hídricos, por atividades difusas. Alguns resíduos perigosos que são depositados em valas podem vazar. Um dos casos mais conhecidos nos Estados Unidos é do aterro de resíduos perto dos gran-des lagos americanos que contaminou dezenas de crianças. O caso deu origem ao filme “A Qualquer Preço”, estrelado por John Travolta, uma lição de como se estabele-ce o nexo entre contaminação e saúde da população.

SM: E os casos de contaminação de alimentos?
SEVÁ: Há casos como o da semente de trigo americana, tratada com fungicida, envia-da para o Irã que, chegando lá, em vez de ser usada como semente, foi utilizada para fazer pão, matando pessoas. Há o caso do mercúrio numa fábrica de nái-lon do Japão que contaminou alimentos como crustáceos, camarão e peixes consumidos pela po-pulação que morava na baia de Minamata. Essa indústria jogou, durante anos seguidos, um sal mer-curial altamente reativo que entra em processo de bio-metilação no meio orgânico, entrando na cadeia alimentar. E, a cada etapa da cadeia alimentar, ela multiplica exponencialmente a concentração. Primeiro começaram a morrer gatos. Anos depois, começaram a morrer pessoas cuja base alimentar era proteína do pescado ou do crustáceo.

SM: E os casos brasileiros?
SEVÁ: Temos casos de contaminação de lençóis freáticos da Shell Química em Paulínia no bairro Recanto dos Pássaros. Há caso de um conjunto residencial de Mauá, em São Paulo, construído sobre um terreno da Cofap. Há casos mais antigos como o da Rodhia, em Cubatão, cujos resíduos de pentaclorofenol foram desovados, por terceiros, em cavas de areia em vários pontos da Baixada Santista originando focos de contaminação desde Bertioga até Peruíbe, até hoje não identificados totalmente. O aterro Mantovani, em Santo Antonio da Posse, recebeu resíduos de mais de 60 indústrias da região de Campinas durante anos. Recentemente, constatou-se que tudo em volta – solo, subsolo e lençol freático – está contaminado. Alguns casos são abafados, como o da Baía de Todos os Santos, em Santo Amaro da Purificação: uma unidade de produção de chumbo da Cobrac contaminou centenas de pessoas na cidade, inclusive porque filtros da fábrica foram usados como tapetes dentro das casas. Há o caso recente da Ajax, em Bauru, de contaminação por chumbo das baterias.

SM: E os que envolvem a radioatividade?
SEVÁ: O de maior repercussão no país é o acidente com a cápsula de Cézio 137, abandonada numa instalação hospitalar da Santa Casa de Goiânia, que foi desmontada por sucateiros, causando quatro mortes em poucos dias e contaminando mais de trezentas pessoas. Há um estranho caso de radioatividade na região produtora de petróleo do Rio de Janeiro: as borras provenientes das plataformas que operam em alto mar são guardadas num parque de instalações da Petrobras em Rio das Ostras que apresentou índices altos de radioatividade. Esse material foi identificado, mas a Petrobras se encarregou de abafar o problema.

SM: A propósito, a Petrobras esteve envolvida em vários acidentes que geraram catástrofes como derramamento de óleo, vazamentos, o episódio na plataforma P-36 entre outros. Há algum nexo entre a forma de gerir empresas, aumento de produtividade a qualquer preço e o risco tecnológico?
SEVÁ: Isso consta do livro “Acidentes Industriais Ampliados” organizado pelos pesquisadores Carlos Freitas, Marcelo Porto e Jorge Machado, da Fundação Oswaldo Cruz. Nesse livro, escrevi o capítulo “Alerta Sobre o Risco Técnico Coletivo Crescente nas Indústrias de Petróleo do Brasil”. Nos casos da Petrobras que vão desde os de maior repercussão como a explosão na refinaria Duque de Caxias em 1972 — abafado na época da ditadura, que provocou quase quarenta mortos — até o naufrágio da plataforma P-36 — uma das maiores e mais modernas do mundo — mostram que existe conexão entre o gerenciamento, o tipo de organização de produção e o agravamento do risco.

SM: O sr. poderia explicar melhor essa conexão?
SEVÁ: A indústria petrolífera é de alto risco em todas as etapas e o sistema brasileiro de petróleo é um dos mais complexos do mundo. Desde produção, transporte, refino, tratamento de derivados até distribuição, há riscos que exigem um trabalho de prevenção de acidentes e organização da mão-de-obra, completamente diferente do que a empresa tem feito. Ela vem aposentando trabalhadores precocemente e terceirizando um volume crescente de atividades. Ao se colocar pessoas menos preparadas em áreas opera-cionais, perde-se a memória técnica das empresas. Há também uma sensação de impunidade em decorrência do poderio da Petrobras, que é um verdadeiro Estado dentro do Estado brasileiro. Por essa perspectiva, infelizmente, vão continuar acontecendo vazamentos, explosões e naufrágios de plataformas. Eles são probabilísticos. A maioria das instalações tem mais de 30 anos e isso agrava os riscos.

SM: Diante desse panorama assustador envolvendo riscos, qual é o papel dos profissionais envolvidos, principalmente os de saúde?
SEVÁ: Defendo a formação de grupos multiprofissionais, incluindo médicos, que possam estabelecer nexos entre matérias contaminantes e eventuais sintomas desenvolvidos, para que se possa qualificar porque alguns indivíduos adoecem de determinadas causas, até para facilitar o tratamento. Não podem ser somente médicos do trabalho porque precisamos de toxicologistas, em certos casos, dada a diversidade das substâncias indústriais. E também precisamos de pessoas da área jurídica para avançar na questão da responsabilização civil e criminal, principalmente quando esses eventos têm vítimas fatais, lesões, incapacidades permanentes e vizinhos atingidos. A legislação brasileira qualifica crimes ambientais. Existe um arcabouço legal que precisa ser estimulado. Na parte que me toca, os engenheiros estão pouco preparados para enfrentar acidentes. Costumamos ensinar engenharia como algo que sempre funciona. Temos que nos basear na experiência de países mais avançados. Quase sempre sabemos onde, mas nunca sabemos quando as catástrofes vão acontecer. Os vários profissionais envolvidos devem trocar informação, tentar monitorar os acontecimentos, criar entre si mecanismos de acionamento rápido, caso aconteça o pior. Quando o acidente acontece, dificilmente pode ser combatido ou neutralizado, só a pequena chance de diminuir sua propagação. Portanto, tem de haver preparo para o socorro, enxergando o final da cadeia. Por exemplo, qual é a capacidade de atendimento a queimados de um lugar que concentra muitas indústrias perigosas? Isso só é possível pelo conjunto de profissionais de várias áreas.

SM: Por meio da intervenção multiprofissional, qual tem sido papel dos médicos no processo de intervenção para melhor trabalhar essa problemática?
SEVÁ: O grupo americano Médicos pela Responsabilidade Social, ligado às principais universidades dos EUA e que chegou a ganhar o prêmio Nobel da Paz, em 1985, por sua luta contra a disseminação do risco radioativo, constituiu-se uma espécie de entidade antinuclear. Em 1994, esse grupo publicou o livro Critical Condition, Human Health and Enviroment (Situação Crítica, Saúde Humana e Meio Ambiente) que abarca todos os tópicos es-tudados por geógrafos, ecólogos, biólogos etc. É um livro técnico-didático para o grande público que ataca um ponto importante dessa problemática: a informação e desinformação, ou porque empresas e governos omitem alguns casos ou porque fornecem informação enviesada. Esse é um dos melhores exemplos de como os médicos poderiam acrescentar e destacar sua formação frente a essas situações de riscos.

SM: Na Medicina do Trabalho, fala-se muito em ambiente interno e externo do trabalho. Há fundamento técnico na separação entre esses dois ambientes no processo produtivo?
SEVÁ: Existe a separação física por um muro ou alambrado, definindo juridicamente que o lado de dentro é propriedade privada e o de fora é público. Mas, para o princípio da termodinâmica essa separação não faz sentido. Toda fábrica tem insumos, energias, resíduos que entram e saem, além de perdas dissipativas que, em alguns casos, faz pouca ou nenhuma diferença se a pessoa está dentro ou fora. Em determinados casos, vizinhos podem ser contaminados ou atingidos por acidente, enquanto os trabalhadores se expõem aos riscos durante anos seguidos. Não é exatamente igual dentro e fora, mas o mesmo fenômeno pode provocar doentes ou acidentados do trabalho. Esse é o marco conceitual sobre o qual deveríamos trabalhar.

*Arsênio Oswaldo Sevá Filho é formado em Engenharia Mecânica, professor do Departamento de Energia da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e colaborador do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fundação Oswaldo Cruz (RJ).

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