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CAPA

EDITORIAL (SM pág.1)
Homenagem especial a José Aristodemo Pinotti


ENTREVISTA (SM pág. 4)
Professora da PUC analisa a vida em sociedade


CRÔNICA (SM pág. 8)
Texto de Tufik Bauab, presidente da Sociedade Paulista de Radiologia


PALAVRA (SM pág. 10)
Saúde e Educação devem ser prioritárias para crianças entre 0 e 6 anos


CONJUNTURA (SM pág. 14)
Neuroética. Ficção científica é passado longínquo...


EM FOCO (SM pág. 16)
"A pílula mudou o status da mulher e da abordagem de saúde" (Rodrigues de Lima)


ESPECIAL (SM pág. 20)
Novas posturas reafirmam nosso compromisso com a comunidade e o meio ambiente


DEBATE (SM pág. 22)
Especialistas da USP avaliam preservação ambiental e sustentabilidade


GIRAMUNDO (SM pág. 28)
Nova coluna estreia com temas interessantes e atuais


HISTÓRIA (SM pág. 30)
Movimentos populares transformaram o modelo de saúde pública no país


LIVRO (SM pág. 35)
Títulos de presença obrigatória em sua estante


CULTURA (SM pág. 36)
Batatais reúne acervo precioso do pintor paulista Cândido Portinari


TURISMO (SM pág. 42)
Ao sul de Minas, uma cidade imperdível para visitar, praticar esportes e descansar


CARTAS (SM pág. 46)
Comentários dos leitores sobre algumas matérias da edição anterior, nº 47


POESIA (SM pág. 48)
Olavo Bilac


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Edição 48 - Julho/Agosto/Setembro de 2009

PALAVRA (SM pág. 10)

Saúde e Educação devem ser prioritárias para crianças entre 0 e 6 anos

A PRIMEIRA INFÂNCIA E A INVIABILIZAÇÃO DO POSSÍVEL

João Augusto Figueiró*



Há milênios discorre-se sobre o adulto ser resultado de sua natureza, das relações com a família e grupos sociais, da cultura, valores, crenças, normas e práticas. “Educai as crianças e não será necessário castigar os homens”, dizia Pitágoras. Platão clamava por melhores “nutrientes” sociais e culturais aos pequenos. O argumento de que a primeira infância é decisiva na formação do adolescente e do adulto passou a sustentar-se em estudos e pesquisas científicas nos últimos 100 anos. Mais recentemente, a neurociência evidenciou que episódios precoces de natureza física, emocional, social e cultural permanecem inscritos por toda vida nas conexões sinápticas, por meio de fenômenos de neuroplasticidade e biomoleculares.


Construímos um mapa da realidade a partir das experiências da infância. A criança é dotada de capacidade absorvente, tudo recebe, julga com imaturidade, pouco recusa ou reage. Ela estrutura a personalidade do futuro adulto. A análise do impacto da primeira infância (de zero aos seis anos) na compreensão do mundo deve considerar os universos adulto e infantil, a desumanidade do primeiro e a humanidade do segundo. Se o adulto de hoje foi um dia criança – e a criança de hoje será o adulto de amanhã –, de onde provém, então, a desumanidade da sociedade contemporânea? 

Freud demonstrou que as interações precoces envolvendo os aspectos cognitivos e afetivos são pré-moldes das futuras relações do sujeito consigo, com os outros e com o ambiente. Karl Jasper discorreu sobre “o homem só conseguir chegar a seu verdadeiro ser conduzido pelo outro”. Jean- Jacques Rousseau definiu o homem como um ser “feliz e bom” – e que os preconceitos culturais e as normas da vida social produziriam “sua crueldade e infortúnio”.

Locke teceu considerações sobre a tendência inata à criança em “desenvolver sua personalidade original sob influência do ambiente e da aprendizagem”. E Maria Montessori estabeleceu a preparação do ambiente – muito antes do ingresso da criança na escola – como “chave da educação e da cultura real da pessoa desde o nascimento”.

Esquecemos esses ensinamentos? Os números dizem que sim: dos 22 milhões de crianças brasileiras de zero a seis anos, mais de 14 milhões estão fora de qualquer atendimento escolar ou apoio institucional. O percentual de não atendidos chega a quase 70%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Agência do Senado aponta que 13 milhões de crianças dessa faixa etária, de famílias carentes, estão fora de creches. Somos detentores do triste recorde de crianças mais estressadas do mundo.

Infelizmente, o Brasil não dispõe de estatísticas confiáveis sobre a abrangência da violência contra a criança e o adolescente, exceto quando a vítima morre ou o agressor é preso. Temos alguns dados locais, estudos frequentemente parciais, amostragens, muitas teses, mas nada de abrangência nacional, além da taxa de mortalidade por “causas externas”, que inclui assassinatos, afogamentos e acidentes. Nosso sistema de registro é falho, os profissionais que atendem às vítimas geralmente não recebem treinamento adequado, a notificação compulsória – apesar de existir –  não é corretamente cumprida.

Viceja a guerra dos números com equívocos, manipulações, uso político dos dados, em que faltam ações efetivas e preventivas. Sobre a violência, abusos e suas repercussões, vale citar que até os indicadores indiretos, como evasão escolar, infrações na adolescência, a presença de menores em abrigos, e de morbidade (número de crianças atendidas nos principais hospitais de emergência do país), também são falhos.

Por sua magnitude e ubiquidade, a violência contra a criança merece especial atenção no Brasil. Crianças de todas as classes sociais e regiões são abusadas e maltratadas. Abusos físicos, emocionais, psicológicos, sexuais – incluindo a exploração comercial –, diferentes formas de negligência, como omissão, abandono pela família e/ou Estado, trabalho infantil, são considerados crimes pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A maioria desses eventos criminosos sequer é julgada ou punida.

É uma violência banalizada pela impunidade e corrupção que grassam no poder público. Muitas categorias de transtornos mentais há tempos vêm sendo associadas ao abuso, negligência e violência na infância – em especial os de ansiedade, dissociativos, depressivos, de personalidade e aqueles ligados ao uso abusivo de álcool e drogas, de comportamentos transgressores, impulsivos, agressivos e violentos.

Há formas mais silenciosas e sutis de violência. Uma das grandes responsáveis pela transmissão transgeracional da violência na sociedade, a cultura do consumismo destrói valores humanos. Somos resultado de um período marcado pela concentração econômica de bens, de conhecimento e de cultura, o que leva parcela significativa da população à progressiva exclusão. A pressão consumista atual, e jamais vista na história humana, pavimenta terreno para a explosão da violência cotidiana.

Os fatores de risco e proteção da violência, sua emergência e prevenção, são sobejamente conhecidos da literatura médica. Começa no período pré-concepção com fetos indesejados ou rejeitados, decorrência da falta de um programa nacional eficaz de planejamento familiar e controle da natalidade. Permanece nas gestações mal cuidadas, tensas e desamparadas, nos partos desnecessariamente cirúrgicos. Continua na primeira infância, privada de nutrientes afetivos fundamentais ao saudável desenvolvimento psíquico, social e cultural. Exigimos e desenvolvemos no país estruturas físicas, como pontes, viadutos, estradas, aeroportos e estádios de futebol, mas poucos se debruçam sobre a infraestrutura humana que irá gerir esses recursos.

A educação acadêmica não é suficiente para formar pessoas construtoras de um mundo menos violento. Nada contra investimentos nessa área, muito ao contrário, mas se não fosse por ela, não teríamos a bomba atômica, a indústria armamentista, governos tirânicos e corruptos e guerras cirúrgicas, realizações de pessoas letradas e educadas. Lamentavelmente, os argumentos científicos, filosóficos e pedagógicos atuais não conseguem convencer para o investimento na primeira infância. Mostremos, então, algumas razões econômicas para isso.

Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um dólar investido nessa faixa etária gera economia de sete dólares em assistência social, atendimento a doenças mentais, manutenção de sistemas prisionais, repetência e evasão escolar; e 15 dólares per capita em doenças que continuam manifestando-se na vida adulta, como depressões e abuso de drogas, entre outras.

Interferir adequadamente na infância é um desafio. Os achados científicos recentes podem contribuir para isso. Os conceitos de salutogênese e resiliência ajudam a explicar porque alguns indivíduos desenvolvem-se de forma sadia e outros conseguem triunfar mesmo em ambientes hostis e adversos. A resiliência refere-se à relativa resistência de um indivíduo a experiências de risco em seu ambiente para a superação dos estresses e adversidades. É utilizado para referir-se a pessoas de performances psicológicas boas, a despeito das vivências negativas das quais se esperaria sequelas graves. Criada pelo pesquisador Aaron Antonovsky, em 1979, a salutogênese designa as forças que geram saúde. É o oposto da patogênese (influências que causam a doença).

Antonovsky recomenda potencializar as forças que se opõem ao estímulo causador da doença para evitar que as pessoas adoeçam. Propõe formas de estimular e preservar esta “força”, pela ciência, pela salutogênese, promovendo a saúde individual, coletiva e social.

A promoção da cidadania e o fomento da saúde mental e social (salutogênese), além da educação e cuidado, contribuem para que a criança possa, desde cedo, resolver conflitos de maneira pacífica e não violenta – lidando de maneira respeitosa e generosa com o outro e o ambiente, confrontando a realidade, as adversidades e as frustrações de forma construtiva e inclusiva das diferenças (resiliência). O mundo contemporâneo impele ao resgate de valores essenciais, como a ética, amor e respeito às diferenças, para a promoção da convivência societária e solidária fundamentada na resiliência e salutogênese.

Seria este um discurso delirante? Paulo Freire em a Pedagogia da Indignação nos socorre e ensina que “o discurso da impossibilidade da mudança para a melhora do mundo não é o discurso da constatação da impossibilidade, mas o discurso ideológico da inviabilização do possível”. Convirjamos então na construção desta “utopia possível”.

O que é o Instituto Zero a Seis?

Organização não-governamental o Instituto Zero a Seis (http://www.zeroaseis.org) busca colaborar, fundamentado em bases científicas, na construção de uma geração que cultue a paz e a não violência. Seu público-alvo são jovens, adultos cuidadores de crianças, pais e mães, educadores, cientistas e profissionais de várias outras áreas.


   
* João Augusto Figueiró, médico e psicoterapeuta do Hospital das Clínicas da FMUSP, presidente e diretor científico do Instituto Zero a Seis – Primeira Infância e Cultura de Paz. Trabalhou na implantação das atividades da Universidade da Paz - ONU em São Paulo.




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