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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Editorial de Luiz Alberto Bacheschi, que assumiu a presidência do Cremesp em janeiro deste ano


ENTREVISTA (pág. 4)
Acompanhe um papo informal com o compositor, médico e herpetólogo...


SINTONIA (pág. 9)
Pintores famosos e o legado - artístico - a seus médicos, na visão do conselheiro José Marques Filho


CRÔNICA (pág. 14)
Texto do premiado médico escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, Moacyr Scliar


ESPECIAL (pág, 16)
A reforma do sistema de saúde americano por Lynn Silver, sub-secretária da Saúde de Nova Iorque


CONJUNTURA (pág. 22)
Dados do Cebrid mostram que os jovens experimentam a bebida muito cedo: entre 10 e 12 anos


DEBATE (pág. 26)
Em discussão a evolução da psiquiatria e o programa de saúde mental no país


GIRAMUNDO (pág. 32)
O que esperar da Conferência Mundial sobre o Clima realizada em Copenhague em dezembro passado?


PONTO COM (pág. 34)
Informações interessantes de acesso rápido, nos endereços eletrônicos selecionados. Clique!


HOBBY (pág. 36)
O médico cardiologista Maurício Jordão pratica o ilusionismo nas horas vagas


CULTURA (pág. 38)
A Bahia pelo traço, leve e característico, de Hector Julio Páride Bernabó


TURISMO (pág. 42)
Búzios: 24 praias belíssimas, além de mirantes com vista de 360 graus


CABECEIRA (pág. 47)
Sugestões de leitura da presidente da Academia de Medicina de São Paulo


POESIA (pág. 48)
Trecho de A Noite Tava Divina, de Paulo Vanzolini


GALERIA DE FOTOS


Edição 50 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2010

SINTONIA (pág. 9)

Pintores famosos e o legado - artístico - a seus médicos, na visão do conselheiro José Marques Filho


Autorretrato com o Dr. Arrieta (1820), Goya/Instituto de Arte de Mineápolis 

MATIZES DE UMA RELAÇÃO

Por José Marques Filho*

Pela arte, a gratidão de Goya e outros pintores aos seus médicos

A relação médico-paciente como arte foi um conceito desenvolvido por Hipócrates e ao qual o pai da medicina dedicou especial atenção. O bioeticista brasileiro William Saad Hossne repete em suas aulas que não existe ato médico digno deste nome sem adequada relação com o paciente. Essa díade, rica em conteúdo e significado para ambos, teve seus matizes revelados por alguns artistas. Além de registros de talento – e às vezes de genialidade –, são representações de forte conteúdo emocional daquele que cuida e, sobretudo, daquele que é cuidado.

Por José Marques Filho*

 O espanhol Francisco de Goya, pintor preferido dos reis de Bourbon, tinha apenas 46 anos no outono de 1792 quando, subitamente, ficou febril e hemiplégico à direita, ocasião em que foi tratado por seu amigo e médico pessoal Eugênio Arrieta. Foi nessa época que começou a perder a audição, doença que evoluiu para a surdez completa. Em 1819, aos 73 anos, teve outro acidente vascular cerebral que agravou ainda mais a hemiplegia. Goya também tinha a saúde debilitada e padecia de dores por causa da intoxicação crônica (saturnismo) desenvolvida pela absorção de chumbo presente em pigmento de tinta. Por décadas, o doutor Arrieta procurou aliviá-lo dessas dores. O saturnismo é evento descrito com frequência em pintores, causado pelo hábito de levar à boca pincéis com fragmentos de tinta.


Van Gogh no leito de morte, desenhado por Gachet, sob o pseudônimo Paul Van Ryssel

Como pintor oficial da família real espanhola e do clero, Goya viveu no conturbado período histórico em que Napoleão Bonaparte ocupou a Espanha e destituiu, em 1808, o rei Carlos IV de Bourbon. Por meio de sua arte, fez uma peculiar crônica social e reportagem dos tempos sangrentos que experimentou. Goya rompeu cedo com os padrões artísticos da época e foi extraordinário em vários gêneros do desenho e pintura. Já era um pintor exímio na crítica social, pela expressão facial e corporal das figuras representadas, quando concluiu, em 1820, o Autorretrato com o Dr. Arrieta. O quadro foi feito para demonstrar a gratidão que tinha pelo médico que o atendeu durante a vida de doente. A obra capta a expressão de carinho com que o doutor Arrieta trata e ampara o corpo do paciente e amigo, enquanto administra um medicamento por via oral.


Gachet pelo traço de Van Gogh

O quadro de Goya é o mais emblemático da relação médico-paciente porque ambos estão representados na cena durante um ato médico. Porém, o profissional da medicina que se tornaria mais conhecido como personagem da pintura de seu paciente (e vice-versa) foi o francês Paul Ferdinand Gachet.


Retrato de Henri Bourges, médico de Tolouse-Lautrec 

Filho de um operário da indústria têxtil, Gachet se dedicou ao desenho e à pintura de aquarelas desde muito jovem, antes mesmo de cursar a faculdade de Medicina em Paris. Era considerado personalidade excêntrica para os padrões médicos da época, frequentava o meio artístico e vestia-se de maneira diferente da burguesia, principalmente de seus pares. Adepto da fitoterapia, tinha particular interesse pela psiquiatria e, na tese de conclusão do curso de Medicina, dissertou sobre a melancolia.


Félix Rey, outro médico retratado por Van Gogh, além de Gachet

Em 1890, Gachet e Vicent van Gogh iniciaram a relação médico-paciente. Na época, o pintor holandês vivia na França e apresentava grave quadro de disfunção mental, que oscilava da aparente tranquilidade às alucinações. Van Gogh acatou a sugestão do amigo Pissaro e passou a residir em Auvers-sur-Oise para tratamento clínico com Gachet, notório por tratar pacientes alienados sem mantê-los internados. Durante os 72 dias de tratamento que antecederam seu suicídio, van Gogh encontrou em Gachet mais que um amigo, um irmão.

Foi o único médico que aceitou receber suas pinturas como pagamento pelas consultas, em parte por também ser amante das artes, pintor amador e colecionador de telas impressionistas. Ele era amigo de artistas como Pissaro, Monet e Cézane – este último pintou várias telas de natureza morta no ateliê de Gachet. Quando van Gogh deu um tiro no tórax, o irmão Theo e o médico ficaram o tempo todo ao lado do pintor agonizante, que faleceu dois dias depois. Foi nessa ocasião que Gachet fez o esboço de carvão sobre papel intitulado Van Gogh no Leito de Morte, assinando Paul van Ryssel, seu pseudônimo artístico. O quadro, hoje no acervo do Museu d’Orsay de Paris, tornou-se o mais importante de autoria do médico artista.


Entrada do Hospital Saint Paul (1889), de Van Gogh, aquarela/Museu Van Gogh, Amsterdam

Van Gogh pintou dois retratos de Gachet. O último, concluído poucos dias antes de sua morte, foi leiloado em 1990 por U$ 86,5 milhões, tornando-se o mais caro do mundo colocado à venda até então. Ironicamente, a obra de tamanho valor foi pintada no período mais perturbado da vida do artista, que conseguiu vender apenas um único quadro em vida. Antes de Gachet, ele havia feito o Retrato do Dr. Félix Rey, o médico que suturou sua orelha alguns anos antes. Na mesma ocasião pintou a Enfermaria do Hospital de Arles, a Entrada do Hospital Saint Paul (à esquerda) e o Enfermeiro Trabuc, entre outros relacionados à medicina.


Frida sobre o dr. Farill: "salvou-me e restituiu-me a alegria de viver"

Van Gogh foi contemporâneo e amigo de Toulouse-Lautrec, outro notável artista que retratou seu médico. Profundamente marcado por problemas de saúde, Lautrec tinha aspecto doentio desde a infância. Era portador de picnodisostose, afecção congênita de caráter autossômico recessivo que afeta o esqueleto. Aos 13 anos, caiu de uma cadeira e fraturou o fêmur esquerdo. Uma segunda fratura de fêmur ocorreu pouco tempo depois, quando rolou pelo leito seco de um rio pouco profundo. A partir de então, praticamente parou de crescer – quando adulto atingiu 1,52 m de altura. O aspecto físico singular decorria das pernas tortas e curtas, em contraste com a cabeça e tronco desenvolvidos. Usava chapéu para encobrir as fontanelas não fechadas. Mantinha a barba crescida para melhorar a estética facial alterada, devido à agenesia bilateral dos ângulos da mandíbula. Como tinha os dedos curtos, sempre apresentava-se com as mãos nos bolsos. O pintor passava por episódios de delirium tremens quando estava em avançado estado de alcoolismo e, certa vez, fraturou a clavícula ao sofrer uma crise convulsiva. Durante quase todos os episódios foi atendido por seu médico pessoal Henri Bourges. Também como homenagem e gratidão àquele que dele cuidou por toda a vida, pintou um retrato do médico, quadro que está exposto no Museu de Arte de Carnegie (Pittsburgo).

Em outros tempos e continente, a mexicana Frida Kahlo ofereceu consideráveis exemplos de obra influenciada por problemas de saúde. Aos seis anos, após contrair poliomielite, ela passou a apresentar atrofia na perna direita. Vítima de acidente automobilístico aos 18 anos, fraturou três vértebras, algumas costelas e a pelve, além da fratura cominutiva da tíbia e da fíbula direita. Quando se recuperou desse acidente, começou a pintar e representar a dor física com a qual teve de conviver pelo resto da vida. Ainda como sequela, a pintora ficou impossibilitada de uma gestação a termo, o que frustou seu desejo de ser mãe.

Em 1953, uma infecção seguida de necrose levou à amputação da perna direita, abaixo do joelho, o que lhe causou sofrimento e grave quadro depressivo. Em 1954, aos 44 anos, foi encontrada morta, registrando-se como causa oficial do óbito uma provável embolia pulmonar. Mas a última anotação de seu diário (“eu espero que meu fim seja alegre e espero nunca voltar”) dá margem à especulação de que Frida tenha conseguido, finalmente, levar a efeito a intenção de suicídio. Frida sempre expressou gratidão ao médico Juan Farill, tanto na pintura como nos registros escritos. “Fiz sete operações da coluna. O dr. Farill salvou-me e restituiu-me a alegria de viver. Quero viver, já comecei a pintar um quadro para dar de presente ao dr. Farill. O faço como prova do meu carinho por ele”, foram algumas das referências ao médico que Frida escreveu em seus diários. Assim como Goya, a pintora mexicana se autorretratou ao lado de seu médico, em 1951. Mas o fez de maneira diferente, confirmando a originalidade como uma das marcas dessa que é considerada uma das grandes pintoras latinoamericanas.

As pinturas de Goya, van Gogh, Toulouse-Lautrec e Frida Kahlo descortinam uma relação médico-paciente apoiada na confiança, condição fundamental ao sucesso do cuidado médico dispensado a um ser humano fragilizado e carente. Outros fatores dessa relação, como a mútua admiração podem, muitas vezes, torná-la ainda mais complexa e, certamente, mais afetiva e acolhedora. Por ser a medicina ciência e arte, a sensibilidade de quem a pratica pode encontrar, no artista, características semelhantes, potencializando a empatia indispensável à relação terapêutica.


* José Marques Filho é reumatologista, conselheiro do Cremesp. Fontes e referências bibliográficas na pág. 47.

 


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