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Edição 21 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2002

CRÔNICA

Heloísa Seixas

Mais devagar...

Heloísa Seixas*

Eu só queria que fosse mais devagar, pensou a mulher.

Sim, se pudesse escolher, queria que fosse bem, bem lentamente. Sem pressa, sem susto. Sem sobressalto. Enquanto pensava, olhava as próprias mãos postas sobre os joelhos, em cujo dorso as veias já ganhavam substância, encorpavam-se. Lembrava-se de quando aquelas mãos eram ainda mãos de menina, segurando com força a corda de pular. Segurar, tudo bem. Mas na hora de entrar, aí, sim, ela sentia medo. O pulo tinha de ser bem certeiro, ainda mais quando suas amigas, cada uma sustentando a corda em uma das pontas, rodavam rápido, muito rápido. Cada vez mais rápido.

Era na pracinha, bem perto de sua casa, onde brincavam. Uma pracinha de árvores que então lhe pareciam imensas, com brinquedos de ferro colorido. Um escorrega, dois balanços, um rema-rema. Anos depois, a praça fora destruída para dar passagem ao metrô. Dela, só ficara a lembrança. E a lembrança mais forte era a da brincadeira de pular corda.

Tinha bem presente, ainda, na memória, a sensação de medo, o coração batendo. A emoção de entrar, saltar no ar no segundo exato, o alívio de ouvir o estalo da corda no chão, dando-lhe a certeza de que acertara o pulo. Parecia fácil, mas não era. Ainda mais quando as amigas rodavam a corda tão rápido.

Eu só queria que fosse mais devagar.

Subiu as mãos pelos braços, sentindo nas próprias palmas a pele dos ombros, do colo. A pele que começava a ressecar. Lembrava-se ainda, com toda a nitidez, de quando um homem – nem tanto um homem, mas um rapaz, pouco mais que um menino – a tocara pela primeira vez.

Estavam no sítio de uma amiga, era dia de festa. Junto à piscina, havia um galpão onde ficava a churrasqueira. As crianças brincavam, os adolescentes estavam quase todos dentro da piscina. Ela saiu da água. Estava com frio. A mãe da amiga disse que ela fosse até o quarto pegar uma toalha. Ensinou onde ficava o armário das roupas de cama e banho.

Ela, então com 13 anos, o corpo começando a tomar forma, entrou no quarto e abriu a porta do armário, sentindo os bicos dos seios como se quisessem furar o tecido do biquíni, a pele arrepiada nos braços, nas coxas. Foi quando ouviu os passos atrás de si. Virou-se, já adivinhando. Era ele. O rapaz que passara a manhã conversando com ela e que depois, brincando, a jogara dentro da piscina. Sorriu para ele. Ele sorriu de volta e, sem dizer nada, aproximou-se. Ela baixou os olhos. De repente, sentia-se como se estivesse nua. Ele a tocou, primeiro com leveza, deslizando a palma das mãos por seus ombros, seus braços. Em seguida, num gesto rápido, enlaçou-a pela cintura e começou a beijá-la.

Mas ele foi depressa demais – e ela se assustou.

Lembrava-se ainda do coração apressado, ba-tendo com susto. Susto e desejo. Ela queria, sim, mas não tão depressa.

Eu só queria que fosse mais devagar, voltou a pensar. E estremeceu ante lembranças tão antigas.

De repente, levantou-se. Caminhou até a cômoda e olhou-se no espelho. Chegou mais perto, observando com atenção o próprio rosto. Ressentia-se por tudo acontecer tão depressa. Ficava impressionada em ver como as rugas se acentuavam de um dia para o outro, as raízes brancas dos cabelos surgindo menos de uma semana depois da tintura. Era tudo muito rápido. Assustadoramente rápido. Não se importava de envelhecer, mas precisava de um pouco mais de tempo – tempo para se acostumar.

Eu só queria que fosse mais devagar, pensou mais uma vez. E sorriu um sorriso triste. Mas este logo se alargou. Porque, pelo menos ao sorrir, seu rosto voltava a ser, ainda que por um instante, um rosto de menina.

* Heloísa é autora dos livros Pente de Vênus, A Porta, Diário de Perséfone e Através do Vidro e escreve os Contos Mínimos na revista Domingo no Jornal do Brasil.

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