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Renato Azevedo Júnior - presidente do Cremesp


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Mia Couto, biólogo e jornalista moçambicano


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Homenagem a Moacyr Scliar, médico e escritor, falecido em janeiro deste ano


SINTONIA (pág. 10)
Surge um novo conceito de doença e de saúde


CONJUNTURA (pág. 13)
Identificação possível


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Saúde Global versus Saúde Internacional


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A qualidade das embalagens comercializadas no país


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EM FOCO (pág. 26)
Transtornos afetivos na infância


LIVRO DE CABECEIRA (pág. 29)
Confira a indicação de leitura de Caio Rosenthal*


CULTURA (pág. 30)
José Marques Filho*


GOURMET (pág. 36)
Uma receita especial de Debora Handfas Gejer e Geni Worcman Beznos


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A "suíça brasileira" bem ali, na Serra da Mantiqueira...


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Diretores e conselheiros da terceira gestão 2008-2013


POESIA( pág. 48)
Mia Couto em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”


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Edição 55 - Abril/Maio/Junho de 2011

EM FOCO (pág. 26)

Transtornos afetivos na infância

Depressão infantil

As representações de familiares e profissionais de saúde sobre a doença

Eunice Nakamura*

Os transtornos afetivos ganharam maior evidência nos últimos 15 anos, destacando-se, entre eles, a depressão. As referências à doença, antes praticamente restritas aos consultórios psiquiátricos e serviços de saúde, passaram a ser temática de outros setores da sociedade, com expressivo número de matérias e artigos publicados em jornais e revistas. Já na década de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) expressava preocupação com o aumento de casos de depressão na população mundial. De acordo com a OMS, em 2020 esta será a segunda maior causa de doença, perdendo apenas para as do coração. Mais preocupante é o seu crescimento entre adolescentes e crianças devido às restrições que pode causar no desempenho de atividades nessas fases da vida.

No Brasil, a depressão é estudada desde a década de 1970. Os fatores clínicos dos transtornos depressivos na infância foram publicados na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Embora a classificação para transtornos afetivos na infância e adolescência ocorra a partir de critérios diagnósticos utilizados para adultos, os quadros clínicos podem diferir em função das fases de seu desenvolvimento.

Para Francisco Assumpção Júnior e Evelyn Kuczynski, é fundamental fazer distinção entre as faixas etárias, visto que a idade exerce papel importante sobre os sintomas, as manifestações clínicas e o curso da doença. Para Rosana dos Santos Calderaro e Cristina Carvalho, “o quadro traz a presença de comorbidades e os sintomas manifestam-se, muitas vezes, de forma mascarada”. Além disso, pode haver associação a sintomas somáticos. Ainda na consideração dos autores, “crianças e adolescentes não conseguem identificar ou nomear os sintomas que aparecem de maneira multifacetada”.

Por tratar-se, portanto, de um fenômeno aparentemente localizado nas sociedades ocidentais contemporâneas com características que remetem às suas complexidades e diversidades socioculturais, algumas questões se apresentam. Quem reconhece nos comportamentos infantis os possíveis sinais de uma doença? Como os profissionais de saúde podem “nomear os sintomas que aparecem de maneira multifacetada”, na visão de familiares ou responsáveis? Como garantir, em meio à diversidade de visões e perspectivas sobre os comportamentos infantis, a adesão ao tratamento?

A depressão infantil é apresentada como um fenômeno universal no discurso médico-científico, embora exija reconhecimento de diferentes representações sobre a doença e a infância, segundo realidades e experiências particulares. Nesse sentido, outras áreas, como a antropologia médica, podem colaborar para sua melhor compreensão. De uma perspectiva sociocultural, coloca-se em questão a legitimidade do discurso médico-científico frente a outros. Também questiona-se o dos adultos, para que se estabeleça a relação entre doença mental e infância.

Uma pesquisa acerca dos discursos sobre depressão infantil apresentou resultados interessantes. Foram analisados os formulados por profissionais de saúde – em especial psiquiatras do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (Sepia) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – e familiares de crianças de 6 a 12 anos, com diagnóstico de depressão, acompanhadas nesse serviço, sendo a maioria moradores da periferia da região metropolitana de São Paulo.

No discurso dos profissionais de saúde entrevistados, a depressão infantil configura-se a partir da necessidade de intervenção sobre determinados comportamentos ou de adaptação de estados que correspondam a um mau funcionamento das crianças. O discurso médico-científico organiza-se segundo uma lógica que estabelece vínculos entre desvios de comportamento e anormalidades fisiológicas ou orgânicas.

A descrição dos mecanismos envolvidos no processo classificatório resume-se, segundo os médicos participantes da pesquisa, nas seguintes etapas: apresentação de queixas, por pais ou responsáveis, de comportamentos diferenciados; decodificação e identificação de sintomas e sinais, por médicos, de acordo com histórico e exame clínico; depuração do quadro apresentado por meio de exames complementares, segundo critério de exclusão; e confirmação do diagnóstico mediante tipologias descritivas, como o CID-10. Em decorrência da classificação, é determinado um tratamento – como terapia psicossocial, utilização de medicamentos ou associação de ambos.

Esse sistema classificatório contempla satisfatoriamente as principais características da depressão infantil, exigindo medidas de intervenção compatíveis e adequadas. No entanto, a observação de determinados comportamentos infantis não está circunscrita exclusivamente à lógica médica, pois depende fundamentalmente do olhar incomodado de pais ou responsáveis, norteados por referências socioculturais específicas.

Para as famílias, o significado da depressão infantil é dado por uma tensão entre o fato de não perceberem ou não compreenderem aquilo que ocorre e a sensação de impotência ou desespero diante da falta de controle sobre determinados comportamentos das crianças.

Ao serem percebidos como diferentes, os comportamentos infantis e as próprias crianças são incorporados aos problemas que, de fato, incomodam os adultos, estabelecendo-se uma relação evidente entre o grau de tolerância (ou intolerância) a esses comportamentos e as condições gerais de vida das famílias.

Nos depoimentos, dramas como separações, brigas, mortes, alcoolismo e condições socioeconômicas – em especial desemprego e baixos salários – foram mencionados como fatores que alteram a dinâmica familiar, podendo afetar, sobretudo, as crianças.

No entanto, elas próprias, muitas vezes, são apontadas como principal foco desses problemas. Portanto, para as famílias entrevistadas, a percepção da doença e de sua gravidade não está vinculada diretamente aos aspectos clínicos que a definem, mas ao “desconforto em lidar com determinadas incertezas da vida, remetendo a situações de falta de controle”.

Contrastando com a noção médico-científica, as representações elaboradas por profissionais de saúde e familiares expressam outras formas de percepção da depressão infantil.

Diálogo complexo
Como é possível, então, estabelecer correspondência entre as representações de profissionais de saúde e de familiares, de modo a obter respostas aos questionamentos quanto às dificuldades no reconhecimento dos sinais da doença nos comportamentos infantis; na classificação de sintomas multifacetados e na garantia de adesão ao tratamento? Aos profissionais de saúde, faz-se necessário o “ajuste biológico” rápido e eficaz; e, aos familiares, o “ajuste sociocultural” da vida.

Segundo Claudine Herzlich, embora os discursos sejam produtos de material verbal constituído – o que coloca o problema da mediação da representação pela linguagem – deve-se ressaltar sua relevância, sobretudo para identificar quem e o que se fala sobre a patologia – ou como ela é percebida pelos atores sociais em diferentes contextos. A aparente homogeneidade dos discursos, provocada pela crescente disseminação da noção médico-científica, não elimina a possibilidade de os diferentes atores sociais vivenciarem o problema de maneira singular. Embora reconhecida pelo discurso médico-científico como doença, a depressão infantil não se torna mais facilmente aceita ou incorporada pela população. Trata-se de fenômeno expresso por diferentes representações, produtos de um processo de “reinvenção criadora”, pelo conceito de Boltanski, no qual são organizados alguns fatores e contradições fundamentais da sociedade. Compreender e saber lidar com essas diferentes representações parece ser um grande desafio para os profissionais de saúde.

*Cientista social, doutora em antropologia social e professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista.

Fontes e referências bibliográficas na pág. 47.


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