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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Renato Azevedo Júnior - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Heiner Flassbeck, economista e diretor da Unctad


SINTONIA (pág. 9)
José Ricardo de C. M. Ayres*


CRÔNICA (pág. 12)
Antonio Prata*


CONJUNTURA (pág. 14)
Os problemas da população de rua


DEBATE (pág. 18)
Haino Burmester e Laura Schiesari


MÉDICOS NO MUNDO (pág. 24)
O atendimento da população em regiões de alto risco


SUSTENTABILIDADE (pág. 28)
Alerta para o consumo de alimentos contaminados


GIRAMUNDO (págs. 30 e 31)
Curiosidades da ciência e tecnologia, da história e atualidade


PONTO COM (págs. 32/33)
Acompanhe as novidades que agitam o mundo digital


EM FOCO (pág. 34)
Sherlock Holmes, um doutor detetive


LIVRO DE CABECEIRA (pág. 37)
Sugestão de leitura de Krikor Boyaciyan*


HOBBY (pág. 38)
Esporte já não é exclusivo do universo masculino


CULTURA (pág. 40)
Arte urbana conquista espaço internacional


GOURMET (pág. 45)
Arroz indiano


POESIA( pág. 48)
Ana Cristina César


GALERIA DE FOTOS


Edição 57 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2011

MÉDICOS NO MUNDO (pág. 24)

O atendimento da população em regiões de alto risco


Como é ser médico na Somália

Profissionais da saúde arriscam a vida no país que enfrenta a seca e a fome de milhões de pessoas, em meio a uma violenta guerra civil e à anarquia política


”Ser médico na Somália, nos dias de hoje, significa estar preparado para ir a qualquer lugar, e a qualquer momento, para dar assistência. Significa arriscar sua vida todos os dias. Essas pessoas são heróis e merecem nosso respeito.” A afirmação é de Valéry Sasin, coordenador médico do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) naquele país.

As equipes de saúde trabalham em meio a um cenário apocalíptico. Além da violência da guerra civil e do caos político – o país não tem governo efetivo desde 1991 –, a fome aumentou dramaticamente nos últimos meses, em consequência da pior seca em 60 anos. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em comunicado divulgado em setembro, a situação pode piorar em poucos meses. “No total, quatro milhões de pessoas passam fome, das quais 750 mil poderão morrer nos próximos quatro meses, se não houver uma resposta adequada. Dezenas de milhares de pessoas já morreram, metade das quais crianças”, informou a ONU. As facções envolvidas na guerra civil dificultam a chegada de alimentos aos somalis, segundo as organizações humanitárias. Centenas de milhares deles – os que têm força e meios – migraram para campos de refugiados situados nas nações vizinhas Quênia, Etiópia e Iêmen.

Nesse contexto de desastre bíblico, médicos e equipes de saúde enfrentam obstáculos inimagináveis para os profissionais ocidentais. Os dados, porém, são fragmentados e inconclusos, uma vez que o território somali está dividido entre as várias facções e tribos em guerra. O diretor da organização Médicos do Mundo (Médicins du Monde – MDM), Bernard Juan, afirmou, em artigo publicado no jornal francês Le Monde, que a mídia internacional “mostra o horror dos campos de refugiados, mas estes são apenas a espuma de um mar que ninguém pode mais ver”. Segundo ele, a imprensa, as organizações humanitárias e a ONU “não têm mais acesso ao Sul do país”, onde “a morte é certa, menos pela falta de alimentos que pelo acordo tácito de todos em gerir o conflito, no lugar de colocar um fim a ele, uma rotina que se arrasta há muitos anos”.

Além da Cruz Vermelha e da Médicos do Mundo, a Médicos Sem Fronteiras também atua na região. Porém, essas organizações encontram cada vez mais dificuldades para dar atendimento médico à população. A Cruz Vermelha tem mais acesso ao território somali, principalmente na capital, Mogadíscio, enquanto a MDM e a MSF estão mais presentes nos campos de refugiados.


Os campos de refugiados nos países vizinhos já estão lotados, mas centenas de somalis chegam a eles diariamente


Atendimento médico

Sabe-se que o país conta com pouquíssimos médicos, mas não há números gerais precisos. Segundo Valéry Sasin, na região de Puntlândia, Nordeste do país – menos afetada pelo conflito –, há, por exemplo, sete profissionais para cada 100 mil habitantes, enquanto na Europa existem entre 250 e 400 para o mesmo número de habitantes. Em todo o país, disse, “há apenas um anestesista e um neurocirurgião, e nenhum dermatologista”. Para tratar do crescente número de feridos, “os médicos trabalham sem parar, e a maioria deles está morando nos hospitais”, afirmou Sasin, em entrevista divulgada pela Cruz Vermelha. “Estão cansados, mas continuam atendendo os feridos e doentes, independentemente do clã, filiação política, religião ou grupo armado ao qual o paciente pertence”.

Em dezembro de 2010, uma bomba explodiu durante uma cerimônia de formatura de médicos, na capital somali. O alvo eram políticos que participavam do evento, porém dentre os mais de 20 mortos e 60 feridos havia médicos, professores e alunos que se formavam naquele dia, afirmou o diretor da Cruz Vermelha.

A organização abastece 36 clínicas administradas pelo Crescente Vermelho Somali – Ong federada à CICV, presente nos países muçulmanos – com remédios e outros suprimentos, assim como os dois hospitais de referência em Mogadíscio, um estatal e outro administrado pelo Crescente Vermelho. Também treina as equipes médicas e apoia a luta contra diabetes e malária.

Trabalho humanitário
A Médicos Sem Fronteiras conta com “mais de 1,4 mil profissionais de saúde somalis e o apoio de, aproximadamente, 100 profissionais estrangeiros instalados em Nairóbi, no Quênia, que oferecem cuidados primários, cirurgias, tratamento contra desnutrição, assistência médica e apoio aos refugiados, além de distribuir água e suprimentos em nove locais na região Centro-Sul da Somália”, informou. Presta também cuidados médicos aos refugiados somalis nos acampamentos de Dagahaley, Ifo e Hagadera, que formam o complexo de Dadaab, no Quênia; e Liben, na Etiópia.

Com capacidade para 90 mil abrigados, Dadaab reunia, em meados de setembro, uma população de aproximadamente 400 mil pessoas. Os refugiados, que continuavam a chegar diariamente, eram instalados em abrigos precários nos arredores do acampamento. A mistura de calor extremo, falta de água e saneamento, atrasos nos registros dos recém-chegados e na provisão de alimentos resulta em grandes dificuldades nas condições de vida dos sobreviventes, alertou o MSF.

A Médicos do Mundo também está instalada na região do complexo de Dadaab. Devido ao aumento do número de refugiados e das consultas médicas, que provocaram uma pane em sua assistência médica, a organização decidiu, em colaboração com a Ong Women and Health Alliance, dirigir seus esforços particularmente às mulheres e às crianças com menos de 5 anos, população mais afetada pela crise.

A MDM dá suporte a um hospital de Dadaab e a 10 centros de saúde,  na área de reabilitação, além de fornecer medicamentos e materiais médicos. Também capacita profissionais da saúde.


Crianças com menos de cinco anos são as mais afetadas pela fome

Situação política
Em guerra civil desde a queda do governo comunista de Siad Barre, em 1991, a Somália conta, atualmente, com um denominado Governo Federal de Transição, presidido por Sharif Sheikh Ahmed, apoiado pelas potências ocidentais e pela ONU. Porém, o GFT está presente, apenas, em algumas zonas de Mogadíscio. O restante do país está dividido entre várias facções e tribos.

A principal facção, o grupo islamista al-Shabad – acusado pelos Estados Unidos de ser vinculado à al-Qaeda –, controla boa parte do Centro e do Sul do país, regiões mais afetadas pela fome. As outras forças envolvidas no conflito – além das tribos e clãs – são: a Ahlu Sunna Waljama´a (ASWJ) e a Missão da União Africana na Somália (Amisom). A primeira é composta por muçulmanos sufis, e já combateu a al-Shabab com vigor. A Amisom, patrocinada por outros países africanos, está presente apenas em uma área restrita de Mogadíscio.



Dr. Yousuf

      Dentre os poucos médicos do país, o cirurgião Mohamed Yousuf tem um papel preponderante. Responsável pelo Hospital Medina, o principal do país, em Mogadíscio, o também professor da Universidade Benadir voltou para a Somália em 2002, após viver 22 anos na Itália, na África do Sul e em Moçambique. “Estou satisfeito de ter voltado. Se nós, que respeitamos a vida, ficamos aqui ou voltamos da diáspora, podemos formar uma maioria, mas se deixamos espaço para os que matam – e eles têm o controle hoje – o país está perdido”, ponderou o médico, em entrevista divulgada pela Cruz Vermelha. Yousuf mudou-se com a mulher para o hospital, há alguns anos, após seu carro ter sido alvo de disparos de milicianos do al-Shabaab, contrários aos seus “gostos ocidentais”.

O Hospital Medina tem 80 leitos, mas, segundo o médico, “o número de pacientes é quase sempre maior. Às vezes, temos 200 ou até mais”. Para atender todos, informa, “temos barracas e ocupamos um anexo que era usado por militares”. Feridos de guerra representam 75% dos pacientes. “Nós acolhemos também vítimas de acidentes de trânsito, de quedas e, claro, pessoas doentes. Todos vêm para este hospital”.

Medicamentos, materiais médicos e cirúrgicos são fornecidos pela Cruz Vermelha, relatou o cirurgião, mas faltam “materiais de limpeza e combustível para o gerador de eletricidade, que tem de funcionar 24 horas por dia”. Os salários também são pagos pela organização humanitária.

A situação da saúde da população, em geral, é muito ruim. “Vemos, cada vez mais, pacientes aos quais não podemos ajudar, pois eles chegam em um estado de extrema fraqueza, preexistente aos seus ferimentos”, lamentou Yousuf.


Uma brasileira em Dadaab

A pediatra brasileira Luana Fagundes Lima trabalhou, durante três meses, no atendimento da criança em um dos Centros de Terapia Nutricional da Médicos Sem Fronteiras, no complexo de Dadaab. Antes de sair de férias, ela deu, em agosto, um depoimento ao MSF:

“Terminei meu primeiro trabalho com a Médicos Sem Fronteiras muito satisfeita com os resultados. No meu primeiro mês, registramos 320 admissões no Centro de Terapia Nutricional e 21 mortes. Ou seja, 7% de mortalidade. No mês seguinte, a crise piorou, e o número de pacientes aumentou para 476, mas a mortalidade caiu para 1,4% (6 perdas), porque iniciamos um centro de terapia intensiva, treinamos pessoal e adequamos protocolo.

Trabalhar para MSF foi um grande aprendizado. No Rio de Janeiro eu atuava em grandes hospitais. Em lugares assim, quando precisamos de um medicamento, ele está na mão em um segundo. E contamos com equipes super-qualificadas. Aqui temos de ensinar e aprender o tempo inteiro. Temos de perder a postura do médico que organiza o setor, e colocar a mão na massa em tempo integral. É bem gratificante perceber como um pequeno gesto modifica todo um ambiente e se transforma em vidas salvas.”


Mais informações e doações:
Cruz Vermelha: www.icrc.org ou www.ifrc.org
Médicos Sem Fronteiras: www.msf.org.br
Médicos do Mundo: www.medicosdomundo.pt ou www.medecinsdumonde.org



(Colaborou Flávia Knispel)


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