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EDITORIAL
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ENTREVISTA
Roberto Sávio é o convidado especial desta edição


CRÔNICA
Rubem Alves


BIOÉTICA
Giovanni Berlinger


EM FOCO
Clínica ou Cirurgia? Eis a questão


DEBATE
Aprendizagem baseada em problemas


JUSCELINO KUBITSCHEK
O médico que virou Presidente


HISTÓRIA DA MEDICINA
São Lucas, o médico evangelista

LIVRO DE CABECEIRA
O segredo dos médicos antigos


GOURMET
Pequi: bom demais da conta


CULTURA
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POESIA
Adriana e Luis Orlando Rotelli Resende


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Edição 22 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2003

EM FOCO

Clínica ou Cirurgia? Eis a questão

Clínica ou cirurgia? Eis a questão

Por que ser clínico? Por que ser cirurgião? A partir destas perguntas, a psicóloga Patrícia Lacerda Bellodi, do Centro de Desenvolvimento da Educação Médica (Cedem), da Universidade de São Paulo (USP), realizou um estudo com residentes das duas áreas dos programas de Clínica Médica e Cirurgia do Hospital das Clínicas-USP, para mapear a trajetória de escolha por especialidade descobrindo também qual a idéia que um profissional faz do outro.

Longas entrevistas em linguagem técnica e tendo como mediador um instrumento de avaliação de personalidade – o teste das manchas de tinta, do Psicodiagnóstico de Rorschachforam as ferramentas utilizadas para desvendar quem são, o que pensam e como justificam suas opções, os clínicos e os cirurgiões para um trabalho que resultou no livro “O Clínico e o Cirurgião: estereótipos, personalidade e escolha de especialidade médica”. Foram realizadas entrevistas com 30 residentes de clínica médica e 30 da cirurgia geral, em 1997.

Sobre o processo de escolha, a maioria dos cirurgiões declarou ter optado pela especialidade antes mesmo da entrada na faculdade, enquanto a decisão dos clínicos foi progressiva ao longo do curso, estabelecendo-se principalmente nos dois últimos anos de formação. Apesar das diferenças quanto ao momento da escolha, os residentes das duas especialidades chegaram a pensar em outras opções: os clínicos chegaram a considerar a cirurgia, afastando-se dela principalmente pelo tipo de carreira, enquanto os cirurgiões atentaram-se mais a especialidades classificadas como mistas ou intermediárias, especialmente pela natureza de uma atividade também cirúrgica. Por que ser Clínico? Por que ser Cirurgião? Diante dessas perguntas, os residentes justificaram as suas escolhas com respostas como as seguintes:

Clínicos:
“Sou fascinado pela relação médico-paciente, não podia ser uma especialidade sem paciente...” (masculino).
“A gente se preocupa em entender todas as facetas da pessoa...” (feminino).
“É mais legal pensar, raciocinar no que vai fazer, alterar uma conduta com base no que imaginou fazer. É muito técnico entrar, abrir, cortar e costurar...” (masculino).
“A clínica acompanha o paciente para sempre, doença crônica faz um laço...” (feminino).
“Sabia o que não queria fazer: pediatria, não gosto de crianças; dermatologia, não gosto de ambulatório, gosto de coisa rápida; radiologia, gosto do doente e lá perdemos o contato...” (feminino).
“Ideal de criança: o médico é o clínico, é a parte mais bonita da medicina...” (feminino).
“Não tinha perfil nenhum para cirurgia, nem habilidade manual, achava maçante...” (masculino).

Cirurgiões:
“Porque eu gosto de operar; tenho operado muito pouco; o prazer de fazer com as mãos e não o de ficar pensando, ‘fosforinando.’” (masculino).
“Cirurgia é a especialidade prática da medicina: se é mole, corta; se é duro, serra; se está sangrando, pinça; se tem pus, drena..” (masculino).
“Os resultados, bons ou ruins, são mais imediatos que outras especialidades...” (masculino).
“Seria, modéstia à parte, ... um médico mais completo: tem a clínica e é cirurgião” (masculino).
“Não fica aquela coisa de ficar com o paciente anos e anos, o remedinho, por exemplo: o diabético, sempre tem que controlar...” (feminino).
“Tem a ver com a personalidade: sou um cara prático, sem rodeios, o problema é esse e tem que ser resolvido de tal maneira...” (masculino)

Outra abordagem do trabalho analisou as respostas dos entrevistados por meio do Psicodiagnóstico de Rorschach. Essa metodologia avalia a personalidade, o jeito de ser que nos caracteriza especialmente e que fundamentalmente se repete nas mais diferentes situações. A tarefa apresentada a eles propunha que decifrassem borrões de tinta (simétrico, alguns coloridos, outros em preto e branco e sombreados). Frente às manchas de tinta das pranchas do Rorschach, clínicos e cirurgiões tiveram como tarefa responder: “O que parece para você?”. Dentre as respostas que se produziram, uma pode dar uma idéia generalizada do impacto que o trabalho provocou nos entrevistados: “Borrões de tinta?! Nossa, que tarefa diferente! É melhor pouco falar, senão você vai achar que eu estou ‘viajando’ muito.”

Por conta desse tipo de preocupação, tanto os clínicos quanto os cirurgiões fizeram poucas associações. Apesar de coincidirem nesse aspecto, o ritmo dessa produção marcou a primeira diferença entre os residentes das duas áreas. Os cirurgiões foram muito mais rápidos que os clínicos nas suas respostas, congruente com os estereótipos de que são “mais rápidos, ativos e dinâmicos”, enquanto os clínicos, seriam “mais demorados ou sossegados”.

Outro fato que merece destaque é que tanto os clínicos quanto os cirurgiões produziram muitas respostas de conteúdo humano, ou seja, quase sempre haviam pessoas presentes em suas respostas, evidenciando interesse e preocupação com o outro. O “ver o todo” não foi privilégio dos clínicos, mas o estereótipo do médico clínico como alguém meticuloso, que “gosta de discutir o sexo dos anjos” e adora “abrir o leque das hipóteses diagnósticas” apareceu de forma clara nas respostas.

Os clínicos, em suas associações, localizavam suas respostas em detalhes muito pequenos das manchas de tinta, eram verdadeiros “detalhes do detalhe”. Onde a maioria das pessoas tende a ver um conteúdo inteiro, a percepção dos clínicos era hipercrítica. Esse grupo também produziu respostas localizadas não na figura, na mancha de tinta, mas sim no fundo, no espaço em branco da prancha. Se por um lado esse tipo de resposta revela flexibilidade, indica também certa oposição à figura de autoridade representada naquele momento pelo examinador e reforça estereótipos de que: “Cirurgia tem que seguir o mestre, a clínica é mais individualizada, eles adoram discutir... Na cirurgia tem que respeitar sempre a experiência da pessoa mais velha...” (Cirurgia, feminino).

A maior imaginação dos clínicos versus maior praticidade dos cirurgiões ficou muito evidente na marcante tendência à abstração do primeiro grupo. Os clínicos transformavam suas respostas em verdadeiras metáforas e fábulas, histórias com começo, meio e fim! Vejam, frente a uma mesma prancha, o que disseram clínicos e cirurgiões:

“Dois anjos levando alguém para um lugar melhor, não sei quem poderia ser, é isso que me vem, a idéia que me vem é alguém sendo transportado para um lugar melhor, baita fantasia! Duas asas, a figura do anjo e isso aqui poderia ser duas pessoas sendo transportadas, pessoas que morreram, sendo transportadas... Não necessariamente morreram e sim no sentido de progredir para alguma coisa melhor” (Clínica, masculino). “Parece-me asas do sacro, um osso meio destruído... o formato é de sacro, estou no Cólon e fazendo toque retal, isso está muito próximo...” (Cirurgia, feminino).

O gênero em questão
Entre os residentes, o estudo não evidenciou diferenças entre homens e mulheres na mesma especialidade. Aqueles que escolhem a mesma especialidade são semelhantes entre si e há pouca influência do gênero nessas características. Mas, independente da especialidade, os homens mostraram-se muito mais imaginativos e as mulheres mais práticas em suas respostas, o que não confirma os tradicionais estereótipos de gênero.

O processo de escolha da especialidade médica em um grupo brasileiro mostrou uma série de dados semelhantes à de pesquisas análogas em outros países, até mesmo no que diz respeito à velha rivalidade entre as duas especialidades. A esse respeito disse um residente da cirurgia: “O clínico e o cirurgião, os dois pólos... O trabalho deles é mental e o nosso, manual. Como Leonardo da Vinci, conhecido pelas pinturas e pelos trabalhos científicos, e Michelangelo, escultor, cresceu meio pedreiro, aprendeu a esculpir, em Florença era ‘um qualquer’ que trabalhava com as mãos...”

E parece que, segundo a história da época, tal como esses dois grandes artistas renascentistas, os clínicos e cirurgiões respeitam tanto o trabalho um do outro que... se odeiam.

* Patrícia Lacerda Bellodi é doutora em Psicologia Clínica, membro da Retaguarda Emocional para o Aluno de Medicina (Repam) da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica (Cedem) da Faculdade de Medicina da USP e autora do livro “O Clínico e o Cirurgião: estereótipos, personalidade e escolha de especialidade médica”, Editora Casa do Psicólogo, fruto de sua tese de doutorado.

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