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PONTO DE PARTIDA (pág.1)
Renato Azevedo Júnior - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág.4 a 9)
James Childress


CRÔNICA (págs.10 a 11)
Luis Fernando Veríssimo*


SINTONIA (págs.12 a 15)
Dimensão étnico-racial nos estudos sobre saúde


DEBATE (págs.16 a 21)
Hospitais devem receber investimentos externos?


CONJUNTURA (págs.22 a25)
Dilemas éticos no atendimento a presidiários


GIRAMUNDO (págs.26 a 27)
Curiosidades de ciência e tecnologia, história e atualidades


PONTO COM (págs.28 a 29)
Informações do mundo digital


EM FOCO (págs.30 a 32)
Paixão pelo futebol e pela Medicina


CULTURA (págs.33 a 35)
Loucura e Literatura


MAIS CULTURA (págs.36 a 37)
Mostra no MAC USP apresenta o artista como autor e editor


HOBBY (págs.38 a 41)
Médico fotógrafo


TURISMO (págs.42 a 46)
Carcassone: cidadela medieval


LIVRO DE CABECEIRA (pág.47)
Henri Beyle


FOTOPOESIA (pág.48)
Mário Quintana


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Edição 64 - Julho/Agosto/Setembro de 2013

CULTURA (págs.33 a 35)

Loucura e Literatura

Loucura & literatura

Wilson Luiz Sanvito*

O tema loucura é dramático e fascinante ao mesmo tempo. Dramático para a vítima e seus familiares, e fascinante para os estudiosos do assunto (psicólogos, médicos, filósofos, ficcionistas e outros). Certamente os ficcionistas têm uma contribuição importante nesse tema que trata do ser humano com os seus problemas e desafios: viver-consigo-mesmo, viver-com-os-outros e viver-no-mundo.

O laboratório ficcional do escritor proporciona a ele uma infinidade de situações com que o ser humano se defronta e não consegue administrar. A loucura é um modo diferente de estar no mundo. O espectro da insanidade é muito amplo, situando-se num extremo aquele que mergulha nas trevas da loucura e não consegue viver na sociedade (louco major) até aquele que administra mal pequenos problemas (louco minor). Parece que, de perto, ninguém é normal (apud Caetano Veloso). Hoje se coloca o rótulo de comportamento desviante em pessoas com pequenas manias: viciado em sexo, viciado em trabalho, viciado em compras, fobia social... É a “psiquiatrização” da sociedade.

Mas retornemos ao louco major. Esse comparece com frequência nas páginas de grandes escritores. Fiódor Dostoiévski, um dos grandes mestres da literatura universal, é um verdadeiro bruxo para descrever as emoções humanas. Cada personagem é dissecada do ponto de vista psicológico até o mais profundo do seu ser. A galeria é vasta – são pessoas atormentadas, corroídas pelo ódio, dilaceradas pelo remorso, prisioneiras de compulsões..., enfim, o leitor entra em contato com personagens sombrias e se emociona com o rumo dos acontecimentos. São vários os livros em que o tema é abordado com muita acuidade e, até mesmo, com boa dose de genialidade. Para ficarmos nos mais notórios: O idiota, Crime e castigo, Os irmãos Karamazov, O jogador. Freud baseou seus estudos sobre o parricídio no romance Os irmãos Karamazov.

Muitos outros ficcionistas trataram da loucura. Outro gênio foi William Shakespeare, que “deitou e rolou” nessa área. Ele fez experimentos com todos os sentimentos no seu laboratório ficcional. Pode-se até dizer: “Que todo teatro insano/No fundo/É shakesperiano”. E esse jogo da insanidade fica patente nas suas principais peças: Hamlet, Othelo, Rei Lear, Macbeth...

A literatura fantástica de Franz Kafka criou tipos em que o absurdo invade o cotidiano e desestabiliza suas vítimas. A galeria kafkiana ilustra a psicanálise, o que pode ser constatado em livros como A metamorfose e O castelo. É evidente, nos seus tipos, a fragmentação da consciência gerando uma espécie de esquizofrenia e impedindo atitudes afirmativas. As personagens se debatem numa tentativa de afirmação da racionalidade, não obstante a irracionalidade triunfa.

E o que dizer dos loucos mansos do nosso Machado de Assis? Ainda bem que com eles dá para conviver, já com os loucos furiosos não dá nem para coexistir. A galeria machadiana de pirados é vasta, e começo com o mais notório, que é o Rubião do romance Quincas Borba. No início, o filósofo Quincas Borba lega a Rubião não só a sua fortuna, mas também a sua loucura e a obrigatoriedade de cuidar de seu cão de nome Quincas Borba. Rubião é um ingênuo e na corte é envolvido e manipulado por um casal (Palha e Sofia). Apaixona-se por Sofia, que espertamente alimenta um “amor platônico”. Gradualmente vai mergulhando num processo de loucura e, sem juízo e sem fortuna, é abandonado pelos “amigos”. Rubião acredita-se Napoleão III e morre em Barbacena, em pleno delírio de grandeza, acompanhado do seu cão Quincas Borba e repetindo a frase do Humanitismo (filosofia de Quincas Borba): “Ao vencedor, as batatas”.

Também na sua obra-prima Dom Casmurro, Machado trata do ciúme doentio de Bentinho e constrói uma das figuras femininas mais marcantes da literatura mundial: Capitu. Esse livro chegou a ser chamado pelo grande crítico de literatura Harold Bloom de “o Otelo dos trópicos”.

No conto O alienista, Machado cria uma caricatura da ciência na figura do psiquiatra Simão Bacamarte, que converte, segundo Benedito Nunes, a razão da loucura na loucura da razão. Parece que o gênio de Machado vislumbrou avant la lettre o poder médico (o médico ordena e o doen­te obedece), a “medicalização da sociedade” (os problemas são sempre médicos, qualquer que seja sua natureza) e o “cientismo” (a ciência é a única depositária da verdade). Para boa parte da crítica, O alienista fala da loucura para satirizar o positivismo. Alguns querem mesmo ver nesse conto um embrião da antipsiquiatria, corrente que apareceu na segunda metade do século 20.

O gênio tira leite de pedras. Foi o que fez Machado com O anjo Rafael, conto secundário publicado no Jornal das Famílias, em 1869. Trata-se de um indivíduo que acredita ser o anjo Rafael (“monomania celestial”) e sua filha – Celestina – acredita que seu pai é o anjo. Quando o pai morre e a filha se casa e vai morar na cidade (até então ela morava numa fazenda com o pai), depois de três meses ela retoma a sanidade. Segundo os psiquiatras da USP, Daniel Martins de Barros e Geraldo Busatto Filho, o conto de Machado antecipou, em 18 anos, a descrição de um transtorno psíquico chamado de folie à deux (British Journal of Psychiatry). A descoberta da “loucura a dois” foi feita por dois psiquiatras franceses – Falret e Lasègue –, em 1887. Eles demonstraram que parentes (ou gente muito próxima) de pessoas com sintomas psicóticos podem desenvolver o mesmo problema mental pela convivência ou “contágio”. Machado chegou a antecipar, até mesmo, a cura do “mal” pela ruptura da convivência entre o psicótico e o familiar afetado – exatamente o que os psiquiatras franceses também descreveram.

Mas eu quero concluir com uma pergunta ao leitor e uma frase de impacto no gran finale. Será que o indivíduo certinho, que nunca transgride as normas, é normal? Deixo para a reflexão do leitor a frase final: “Um sujeito resolveu se regenerar – na primeira semana, ele cortou o cigarro; na segunda semana, ele cortou a bebida; na terceira semana, ele cortou o jogo de azar; na quarta semana, ele cortou as mulheres; na quinta semana, ele estava cortando bonecos de papel no hospício”.

 

*Professor titular e livre-docente de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

 


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