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Edição 24 - Julho/Agosto/Setembro de 2003

COM A PALAVRA

Aureliano Biancarelli

Colhendo Verdades, Frutos Proibidos e Relatividades

Aureliano Biancarelli*

“Em quase trinta anos de jornalismo, os médicos e suas tarefas sempre cruzaram minhas reportagens, em algumas eram os vilões, em outras, os heróis.”

Era o ano de 1972, ditadura militar, eu tinha 22 anos e cursava jornalismo na USP. À noite, trabalhava na gráfica do Estadão, contando as linhas dos linotipistas. Nos intervalos e nas férias, fazia reportagens. Um advogado fazendeiro, personagem de uma de minhas matérias, convidou-me para ver os índios doentes de tuberculose junto às suas terras, no Mato Grosso. Descobri, antes mesmo de embarcar, que sua preocupação não era a doença dos índios, mas as terras que as tribos disputavam com suas fazendas.

Embarquei sem avisar ao jornal (estava em férias), passagem paga pelo anfitrião, que em pleno vôo abriu a pasta para me exibir um revólver. “Estou tentando salvar esses índios. Ou eles se retiram das minhas terras, ou vão morrer pela doença ou pelas balas.”

Era minha primeira viagem aérea e confesso que tive medo. Os índios eram os Xavantes, das margens do rio Couto de Magalhães. O anfitrião percebeu logo que eu não era parceiro de suas idéias. Falou sobre as ações de dom Pedro Casaldáliga, bispo do Araguaia, que tinha como “comunista subversivo” que devia estar morto ou na prisão. Casaldáliga se hospedava na nossa “república”, na rua das Palmeiras, quando vinha a São Paulo. Eu estava viajando com o “inimigo”, e não podia dizer isso, nem tinha jeito de voltar atrás.

O advogado fazendeiro despejou as caixas de medicamentos no meio da tribo e informou que eu ficaria ali até o seu retorno. Dois ou três índios adolescentes falavam português. Me apontaram a maloca de sapé onde eu deveria permanecer. Coisa do destino, era a farmácia da Funai, com as prateleiras de galhos trançados, cheias de cápsulas, comprimidos e frascos para injeção, tombados, quebrados, empoeirados. Era uma coincidência curiosa ser hospedado logo na farmácia, eu que adotaria a saúde e a doença como temas de minhas matérias anos mais tarde.

Na tribo me ofereciam arroz mal cozido com uma gema de ovo e as mulheres me jogavam pedras enquanto fotografava o jogo de futebol. No meio da aldeia, só havia o campo de bola, e eles jogavam todos os dias. Os índios peidavam e riam enquanto trançavam as cestas debaixo das grandes árvores, no meio da tarde, na beira do rio. Grupos inteiros saiam para caçar com dois únicos cartuchos na espingarda. Se um deles caia pelo caminho, passavam o dia procurando. Se o único anzol enroscava no fundo do rio, a tribo inteira se revezava mergulhando em sua busca.

Eu dormia de calças e botas no giral um metro acima do solo, coçando os bichos invisíveis que percorriam meu corpo. A maloca não tinha portas, por ela entravam cães enfurecidos que brigavam debaixo da minha cama, mães com crianças chorando no colo vinham na madrugada a procura de remédio na prateleira. Tateavam no escu-ro e levavam qualquer coisa, não havia ninguém que cuidasse delas. Os desastres provocados pela Funai na área da saúde um dia certamente estarão listados entre as causas do genocídio do povo indígena no País.

Depois do arroz salgado, passava a noite ardendo de sede, sem cora-gem para atravessar a aldeia cheia de cães e “índios estranhos” para buscar água no rio. No início da noite, os homens se reuniam em roda prometendo guerra aos fazendeiros vizinhos, depois de rezar em latim dois terços inteiros. A vigília termi-nava em gritos e ameaças ao inimigo, que um garoto Xavante tentava traduzir, esforçando-se para me acalmar. As noites ali coincidiram com o ritual que batizava os meninos em adultos, tomadas por uivos, gritos e gemidos que me gelavam a alma. Sem porta, sem informação e sem nenhum aliado, rezava para que o sol nascesse logo.

O fazendeiro só apareceu cinco dias depois. Eu estava emagrecido e dividido. Mesmo com as pedradas das mulheres e a folia dos índios que riam e me ameaçavam, sabia que sentiria falta dessa gente. No retorno, tomamos cerveja gelada num barraco à beira do rio das Mortes, enquanto meu anfitrião de botas e camioneta desaparecia.

É a primeira vez que relato essa história. Na época, o Estadão não publicou a matéria alegando que coincidia com um encontro internacional promovido pela Funai, e que tais relatos não seriam bem-vindos. Naquele período, o jornal estava submetido à censura prévia. As fotos se perderam no arquivo.

Dessa viagem – quase um mês dormindo em assentamentos ou fazendas – escrevi uma série de reportagens sobre a disputa de terras na região, histórias que relatavam personagens da guerrilha do Araguaia e as vítimas desse rio lindo e doente. Só uma das matérias foi publicada. A que não questionava a ação do governo.

Trinta anos depois, a miséria e as desigualdades não acabaram. Mas a organização orquestrada pelo SUS mudou a cara da saúde, virou exemplo para o mundo. Graças à municipalização, cada cidade está se ocupando dos seus destinos. Mesmo nas tribos indígenas, ninguém mais vai encontrar uma “farmácia” tomada pelos cachorros, com frascos quebrados e datas vencidas.

Por acaso, os cachorros voltam a ser personagens de cenas que descrevi, agora para o livro “Cirurgia em Campo Aberto”, publicado pela Brasiliense em 2001, sobre a saúde e a doença na Grande São Paulo. Em um dos capítulos, onde percorro o gigantesco posto de especialidades de Sapopempa, zona sudoeste da capital, os cachorros caminham dóceis pelos corredores, onde se vê de tudo, menos médicos e pacientes. Em uma das salas, onde um pequeno prego conservava a porta encostada, um aviso alertava: “mantenha o preguinho no lugar, se não os cachorros entram”.

Estou escrevendo para uma publicação cujos leitores foram sempre referências para o meu trabalho. Se há profissionais devotados, que não se importam em passar o celular nem em ser acordados de madrugada ou interrompidos em sua vida social, são os médicos. Que façam isso com seus pacientes particulares, é até compreensível, mas há médicos que atendem pelo SUS fazendo a mesma coisa, o que é admirável.

Na outra ponta, há profissionais cobrando R$ 400 a R$ 600 pela consulta de uma hora. Perdoem o desabafo, mas nem “dr. Fritz”, com seus milagres, mereceria tanto. Na maioria das vezes, esses profissionais se valem da credibilidade dos serviços públicos de referência onde dedicam algumas poucas horas para cobrar somas exorbitantes nos consultórios. Nós, da imprensa, que mantemos esses nomes na mídia, somos um dos responsáveis por tais abusos.

Gostaria ainda de falar de episódios que considero marcantes (e marginais) na minha carreira. Trabalhava no Jornal da Tarde nos anos 80 quando aproveitei minhas férias para “virar” garimpeiro em Serra Pelada. Nessa época, o imenso buraco, do tamanho do Maracanã, atraia cerca de 100 mil pessoas. Comprei um centésimo da lavra denominada Malvinas, o que equivalia a um centímetro quadrado. O ouro que fosse encontrado ali, era meu. Podia “bamburar”, verbo usado para quem achava um filão e ficava rico. E podia não encontrar nada, como – naturalmente – aconteceu. Ganhei do governo carteirinha de garimpeiro e passei três semanas em torno do grande garimpo.

Havia duas clínicas particulares no imenso povoado que ia de barracos cobertos por lonas pretas até casas de alvenaria com geladeira e uísque importado, onde ficavam os que mais investiam no garimpo. Os “formigas”, que carregavam a terra, ganhavam por dia, pouco importava se o patrão achava ouro ou não. Vinham de todos os Estados, subiam escadas perigosas com sacos de 20 quilos de lama nas costas e nunca caiam doentes – ou nunca anunciavam suas doenças. Nas clínicas particulares, só apareciam os patrões.

Em meados dos anos 80, ainda no Jornal da Tarde, virei “samaritano” do Centro de Valorização da Vida (CVV) sem que a redação e a própria entidade soubessem. Minha intenção era colher histórias das pessoas que ligavam para lá, mas logo percebi que não seria tão simples. Tive que passar por várias semanas de treinamento rigoroso antes de atender a um telefonema.

Passei quase três anos atendendo os telefones da central da rua Abolição, durante as madrugadas. Deixei de ser repórter para virar “samaritano” e nunca publiquei nenhum dos relatos que ouvi, embora tenha preenchido pelo menos uma dezena de blocos de anotações. Uma coisa me chamou a atenção: a solidão e o desamparo de quem sente dores e não encontra resposta nos serviços médicos que procura. É como se a dor fosse parte obrigatória da doença. Mesmo contando com drogas capazes de aliviar a dor, muitos médicos pouco se importam com o sofrimento dos pacientes.

Recebi freqüentes telefonemas de médicos angustiados. Um deles cuidava de pacientes terminais de classe média alta e dizia receber da família um cheque em branco para preencher com o valor que achasse conveniente. Bastava que desse a melhor condução ao tratamento. Que tentasse salvar o paciente, se houvesse chances, ou que o deixasse morrer, com o menor sofrimento possível. O médico fazia o melhor, depois preenchia o cheque, depois tomava meia garrafa de uísque e ligava para mim, no meio da madrugada. Minha tarefa, no casarão escuro da Abolição, era apenas ouvir. É a primeira vez que faço esses relatos.

Em quase trinta anos de jornalismo, os médicos e suas tarefas sempre cruzaram minhas reportagens, em algumas eram os vilões, em outras, os heróis. Se os médicos tivessem de escrever sobre os jornalistas, talvez fizessem a mesma coisa. Apesar das desconfianças, médicos e jornalistas convivem com angústias semelhantes.

* Aureliano Biancarelli é jornalista, reporter de saúde do Jornal Folha de São Paulo e autor do livro Cirurgia em Campo Aberto.


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