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Michelangelo - Lição de Anatomia


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A Medicina islâmica em Córdoba e Toledo


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Edição 29 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2004

CULTURA

Michelangelo - Lição de Anatomia

Lição de Anatomia

“...não há nenhum animal cuja anatomia ele não dissecasse, e ele trabalhou em tantas anatomias humanas, que aqueles que haviam passado suas vidas nisso e feito disso sua profissão dificilmente saberiam tanto quanto ele.”

A. Condivi (1527-1574), A vida de Michelangelo

O trecho acima, de Condivi, revela uma faceta de Michelangelo Buonarroti (1475-1564) que normalmente é negligenciada pelos historiadores e estudiosos de sua obra. As biografias o descrevem como um dos maiores escultores de todos os tempos, cuja fama incomparável adquirida durante a Renascença, se deve também à sua pintura, arquitetura, desenhos e obra poética.

Na verdade, a influência de Michelangelo sobre a história da arte foi tão extraordinária que a própria palavra Renascença, do italiano rinascita, foi cunhada – por seu biógrafo Vasari, 1511-1574 – para descrever o salto das artes sob as influências de Michelangelo e Rafael. Se já não fosse honra suficiente ter creditado a si a existência da Renascença, devemos creditar a Michelangelo o fato de ter sido um dos maiores anatomistas da história. É esta faceta que revelamos no livro A Arte Secreta de Michelangelo – Uma lição de Anatomia na Capela Sistina através da descoberta de que todo o teto da Sistina estampa uma lição camuflada de anatomia humana, que vai muito além da anatomia de superfície que até então se conhecia. Um fato que permaneceu desconhecido nos últimos 500 anos.

Esta descoberta foi motivada em parte por um artigo científico, publicado em 1990 pelo médico americano Frank Lynn Meshberger no “Jornal of the American Medical Association”, que apresentou uma interpretação para a cena da Criação de Adão de Michelangelo, baseada em neuroanatomia. Meshberger argumenta de forma convincente que a cena mais famosa da capela possui uma característica que ainda não havia sido reconhecida. Ele compara a cena em que o criador se encontra dentro de um manto cercado de querubins, com várias figuras anatômicas que mostram esquemas do corte sagital do crânio humano, contendo o cérebro. Meshberger mostra uma impressionante semelhança entre a figura pictórica e as figuras anatômicas. Também identifica várias estruturas incluindo a artéria vertebral, o cordão espinal, a hipófise, o nervo óptico e o quiasma óptico. concluindo que a intenção de Michelangelo pode ter sido a de representar Deus fornecendo a Adão o intelecto.

Tomei conhecimento do artigo na década de 90 e a analogia entre a pintura desta cena e o corte sagital do cérebro me pareceu fazer sentido, a ponto de eu ter preparado um slide desta comparação para usar em minhas aulas de cirurgia de cabeça e pescoço no hospital onde trabalho. Em abril de 2003, quando procurava esse slide, fui tomado por um desses insights que às vezes nos assolam: se na cena da criação de Adão, Michelangelo fez uma representação de um corte sagital do crânio, não teria ele também representado outras estruturas anatômicas em outras cenas? Resolvi folhear meu livro da Capela Sistina. Abri na página da cena do profeta Jeremias e ao olhar para as vestes sobre os joelhos do profeta vi imediatamente, e de forma clara, uma estrutura que vejo com muita freqüência em minhas cirurgias: ali estava o ouvido interno dissecado, com a membrana do tímpano e o ossículo do martelo! Corri para o livro de anatomia e não demorei a encontrar uma figura anatômica muito semelhante à da cena. Suando frio, voltei para o livro da Sistina e continuei a examinar as demais cenas. Outras três ou quatro descobertas se sucederam nesta noite atormentada. Na manhã seguinte, levei as descobertas à casa de meus amigos e vizinhos Jacinta e Marcelo, e logo já tinha mais dois cúmplices matinais tão perplexos quanto eu.

Nesse dia, iniciamos um mergulho em um abismo de quase 500 anos de história, onde um grande enigma havia sido selado por um dos maiores artistas que a humanidade já conheceu. Uma espécie de cápsula do tempo havia sido aberta e, assombrados, começamos a ler a mensagem deixada. No trabalho que se seguiu, agora com a colaboração do Marcelo, descobrimos que não só todas as cenas do teto possuem estruturas anatômicas ocultas, mas que todas elas são acompanhadas de um impressionante código que Michelangelo usou para indicar onde as peças estão. Após muitos meses de trabalho, nos deparamos com a questão do que fazer com esta inacreditável descoberta. Nossa idéia inicial de divulgá-la na forma de artigos científicos, teve que ser abandonada frente à dimensão das correlações encontradas, que superavam em muito o espaço que qualquer jornal ou revista científica poderiam nos conceder. Foi então, com o apoio do amigo Heródoto Barbeiro, que conseguimos apresentar a descoberta à Editora ARX, que nos incentivou a organizar todo o material na forma de um livro. Nossa investigação para a montagem do livro, exigiu um mergulho também na história do Renascimento onde descobrirmos o Michelangelo anatomista. Esta história, que raramente se encontra nos livros de arte, compõe uma parte importante de nosso livro. O profundo interesse que Michelangelo teve por anatomia ao longo de sua vida foi um reflexo da cultura de seu tempo. Em sua determinação em compreender os movimentos do corpo humano, os artistas dos séculos XV e XVI passaram a estudar a sua estrutura interna. Michelangelo começou a participar das seções de dissecações públicas já em sua adolescência, conduzido por Elia Del Medigo, um médico-filósofo, membro do círculo de Lorenzo de Médici, que incluía muitos outros pensadores como Giovan Francesco Rustici (1474-1554), que se dedicava ao estudo da “necromancia” e Marsílio Ficino (1433-1499), um dos humanistas de maior destaque desta época, filho de um cirurgião e que tinha também estudado Medicina. Aos dezoito anos, Michelangelo já dominava a arte da dissecação e fazia suas próprias dissecações e demonstrações.

Ele não foi é claro o único anatomista obsessivamente minucioso desta época. Outros contemporâneos seus, grandes figuras como Leonardo da Vinci (1452-1519), Berengario da Capri (1470-1550), Niccolo Massa (1489-1569), Andréas Vesalius (1514-1564) e Realdo Colombo (1516-1559) romperam com a subserviência aos medievalistas e re-exploraram o corpo humano. Leonardo produziu cerca de 750 desenhos anatômicos, sendo considerado o fundador da anatomia fisiológica e iconográfica. Em nossa pesquisa descobrimos que o ambiente no qual a personalidade de Michelangelo se formou, o expôs à dissecação, permitiu que ele a praticasse e o colocou em contato com pessoas familiarizadas com o estudo da anatomia e com os textos médicos. Descobrimos também, que seu profundo interesse pela anatomia se estendeu por toda a sua longa vida a ponto de ter planejado publicar um tratado de anatomia para artistas e colaborar em um texto de anatomia para estudantes de Medicina, o que infelizmente não conseguiu concretizar.

No livro, fazemos uma apresentação muito diferente do teto da famosa Capela Sistina. Em trinta e três cenas do teto, com mais de trezentas figuras contorcidas e espiraladas, os Ignuds, Profetas, Sibilas, Escravos de Bronze e Querubins, participam de um código orquestrado que visa conduzir o apreciador da arte a uma estrutura anatômica camuflada. Elas estão todas comparadas com fotos ou desenhos anatômicos. Por fim, o gênio também ocultou estruturas anatômicas em duas de suas mais famosas esculturas: o Moisés e a Pietá. Michelangelo pode não ter editado em papel seu tratado de anatomia. Mas ele, conscientemente, o deixou registrado de uma forma muito mais perene.

Foto: Detalhe do quadro A Criação de Adão

* Gilson Barreto é cirurgião oncológico, coordenador do serviço de cirurgia do Hospital Municipal de Paulínea e autor, junto com Marcelo de Oliveira, do livro “A Arte Secreta de Michelangelo – Uma lição de Anatomia na Capela Sistina”, Editora ARX, 2000.


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