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Tom Zé: "Persistindo os médicos, os sintomas deverão ser consultados"


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Memórias de cárceres: Luiz Guedes e Eleonora Menicucci


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HISTÓRIA DA MEDICINA
A Medicina islâmica em Córdoba e Toledo


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Edição 29 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2004

HISTÓRIA DA MEDICINA

A Medicina islâmica em Córdoba e Toledo

A Medicina Islâmica em Córdoba e Toledo

Lybio Martire Junior*

Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., a Europa se desestruturou. As invasões pelos povos do norte, somadas a epidemias pelas aglomerações humanas sem a organização das cidades romanas, além da crescente influência religiosa, levaram a uma perda substancial e estagnação do conhecimento em todos os campos, incluindo a Medicina.


No século VII d.C., após as revelações de Maomé que levariam à união dos povos árabes em torno do Islã, a expansão islâmica dominou um vasto território que abrangeu parte da Europa. Em muitos aspectos, sua cultura era mais evoluída que a ocidental, que regredira. Ao contrário de outros invasores, buscou manter o conhecimento encontrado, incorporando-o aos seus, o que ajudaria na preservação dos textos clássicos greco-romanos, em especial, no que tange à Medicina, os de Hipócrates, Galeno, Dioscórides e Aristóteles.

A Espanha foi o local em que a civilização árabe floresceu de forma mais interessante. A miscigenação cultural produziu resultados curiosos. Na arquitetura, por exemplo, surgiu o estilo singular que combina motivos árabes e espanhóis, denominado Mudéjar. A Medicina também colheria seus frutos.

Os árabes já haviam tomado contato com a cultura ocidental antes da fundação do Islã por Maomé. Em 489 d.C., os cristãos nestorianos – seguidores do Patriarca Nestório, que foi expulso de Constantinopla como herege no ano 431 d.C., por defender a dualidade de Cristo – tiveram que abandonar Edessa na Menopotâmia onde Santo Efrém havia fundado um hospital. Eles, então, fundaram um novo hospital em Gundihaspur, na Pérsia. Ali teriam encontrado médicos gregos cujo conhecimento tinha origem na antiga Escola de Alexandria e filósofos, também gregos, herdeiros do pensamento de outros, que ali haviam se estabelecido quando Justiniano fechara a Academia de Atenas no século VI d.C.. Muitos judeus também haviam fugido para lá, levando um pouco da tradição greco-romana, pela qual já estavam influenciados, quando da destruição de Jerusalém pelos romanos em 76 d.C.

Assim, quando os árabes chegaram à Espanha, o pensamento grego não era exatamente uma novidade, mas algo do que já sabiam a importância e que queriam conhecer mais. Seu domínio na Península Ibérica permitiu o convívio de cristãos, judeus e muçulmanos, o que já havia ocorrido na Península Arábica, por ocasião da migração dos nestorianos.
Acredita-se, que o contato com estes teria sido responsável pelo desenvolvimento da medicina árabe e, como conseqüência, da ocidental, pois, em 765 d.C., o califa de Bagdá, al-Mansur, foi curado pelo médico Girgis ibn Gibril do Hospital de Gundihaspur, fundado por nestorianos. O califa teria ficado impressionado e ordenado a tradução para o árabe de vários autores médicos clássicos.

Na expansão islâmica, inicialmente Bagdá foi o centro dominante até o período de Harum al-Rachid (764 – 809), o califa das Mil e Uma Noites. A partir daí, sua influência diminuiu e Córdoba adquiriu maior importância dentro do Islã e também em toda a Europa, como centro cultural. Em Toledo, a então capital espanhola, a convivência pacífica, na maior parte do tempo, entre cristãos, judeus e muçulmanos na Escola de Tradutores trouxe grande contribuição, pois intelectuais das três religiões traduziram obras de filósofos gregos e romanos e mesmo textos orientais. Nessa fase surgem os médicos mais influentes da Espanha muçulmana.

O Hakim (médico islâmico) via na assistência aos doentes e na contínua busca do conhecimento o caminho mais importante. Os médicos árabes deram grande ênfase ao aprendizado da clínica e alguns contribuíram com brilhantes observações. Em relação à doença, o conceito árabe a desligava do estigma moral e, embora também visse na oração um meio de cura milagrosa, acreditava que a ajuda divina se manifestava por intermédio da atuação do médico. Conseqüentemente, a figura deste era valorizada.
A religião árabe proibia a dissecação de cadáveres, todavia, o pensamento em relação a alguns aspectos do funcionamento corporal seguia na linha da racionalidade.

Por exemplo, alguns defendiam a existência de uma comunicação entre as pequenas artérias e as veias por meio de poros. Ibn al-Nagis sustentava a hipótese de uma comunicação semelhante nos pulmões, verdadeiro ensaio filosófico da micro-circulação. Mas, como não era possível a comprovação anatômica, a teoria de Galeno era aceita pelos médicos árabes como base de seus conceitos anatômicos.

Muitos médicos destacaram-se na Espanha Islâmica. Albucassis (936-1013), escreveu uma enciclopédia médica em trinta tratados o al-Tasri Li-Man Ajiza An al-Táli, na qual aborda medicina, cirurgia, química farmacêutica e até cosmética.

O sevilhano Avenzoar (1091-1162) escreveu uma obra sobre a teriaga, complexo de drogas contra envenenamentos o al-Tiryaq al-Sab´ini. Descreveu doenças como a sarna e a pericardite e, também, a traqueotomia. Escreveu outros textos sobre medicamentos, dieta e alquimia e condenou o uso do misticismo e astronomia na Medicina. Ibn Nafid, de Toledo, sintetizou obras de Dioscóres e Galeno, além de escrever um manual de terapêutica.

Averróis (1126- 1198) nasceu em Córdoba, teria sido discípulo de Avenzoar e também de Avempace (1080-1138), que era médico, matemático e físico. A filosofia de Averróis incorporava o pensamento Aristotélico, mas rechaçava a religião, o que foi motivo de crítica por parte da Igreja e do Islã. Além de médico, foi também nomeado juiz em Sevilha em 1169 e em Córdoba em 1171. Deixou vasta obra abordando filosofia com mais de doze livros além de considerações sobre qualidade de vida e dieta.
Maimônides (1135 – 1204), de origem judaica, nasceu em Córdoba. Tornou-se médico do Sultão Saladino e foi autor de vários textos versando sobre dietas, primeiros socorros e hemorróidas. Sua obra inclui livros filosóficos e médicos. Seus tratados de medicina foram usados até o século XVI. O Ocidente foi naturalmente influenciado por tudo isso.

Os judeus que sofreram perseguições no período da Dinastia al Mohades de Córdoba dispersaram-se para outros centros culturais da Europa, levando a ciência e a medicina árabes. Entre esses centros, incluem-se Salerno e Montpellier onde renasceriam as faculdades de medicina ocidentais, portanto também influenciadas pela medicina árabe miscigenada com a greco-romana.
Aos medicamentos então conhecidos somaram-se muitos outros descobertos ou utilizados pelos árabes. Outra contribuição à medicina ocidental foi a introdução de técnicas físico-químicas como: destilação, sublimação, cristalização e filtração descritas por Jabir Ibn Hayyan (702-765).

A botica, local para comércio de remédios e sua eventual elaboração, embora os médicos por muito tempo continuassem a fazer seus medicamentos, é uma invenção árabe. No vocabulário também é evidente sua influência em termos como: elixir, álcool, alambique, álcali, alcatrão, alcachofra, xarope entre muitos outros.

O bom funcionamento dos hospitais árabes, principalmente em organização e higiene, foi outra grande contribuição à Medicina de seu tempo. A presença árabe na Europa medieval favoreceu os locais invadidos, funcionando como ponte entre o conhecimento ocidental e oriental além de deixar marcas indeléveis, em sua maioria, benéficas, na sociedade e na Medicina ocidentais.

* Lybio Martire Junior é cirurgião plástico, vice-presidente da Sociedade Brasileira de História da Medicina, professor responsável pela Disciplina de História da Medicina e professor Adjunto de Cirurgia Plástica e Técnica Cirúrgica na Faculdade de Medicina de Itajubá, editor científico do Jornal Brasileiro de História da Medicina e fellow do International College of Surgeons e autor do livro “História da Medicina - Curiosidades & fatos”.

Foto: Divulgação/Centro Oficial de Turismo da Espanha


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