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Acompanhe uma conversa informal com o artista plástico Guto Lacaz


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Séries exageram no conteúdo e na exposição, de médicos e pacientes


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Para a secretária-geral da CNRM é preciso revisar os programas de ingresso na RM


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Psiquiatras avaliam o atendimento aos pacientes infratores


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EM FOCO (pág. 32)
O compositor e pianista alemão sob a perspectiva da psiquiatria forense


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Dolma: dicas para a preparação de um prato tradicional da Armênia


CULTURA (pág. 36)
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Muito além de suas famosas muralhas...


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POESIA( pág. 48)
Roberto Perche: radiologista, poeta, escritor e contista


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Edição 53 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2010

EM FOCO (pág. 32)

O compositor e pianista alemão sob a perspectiva da psiquiatria forense

A loucura de Schumann

No meio de sua genial carreira, eclodiram fobias, angústias e pânico pela consciência da perda de razão

Por Guido Arturo Palomba*

Para alguns grandes gênios da arte, a doença aparece como consequência, quase como uma maldição, pelo extraordinário exercício criativo ou pelo exaustivo empenho à criação sublime. Na história da humanidade não faltam exemplos. O ano em que se comemora o bicentenário do compositor e pianista alemão Robert Alexander Schumann, nascido em junho de 1810, apresenta-se como um motivo para comentar sua história trágica.

Schumann encantava-se com as mãos de Nicoló Paganini – músico e compositor italiano, nascido no século 18, que revolucionou a forma de tocar violino – e com as de Franz Liszt – do século 19, reconhecido como um dos maiores pianistas de todos os tempos, por sua contribuição ao desenvolvimento da técnica do instrumento. Sobre Liszt, a imprensa europeia da época escreveu que era preciso vê-lo “lançar seus dedos de um extremo a outro do teclado; parecem alongar-se e encolher-se por uma mola e, às vezes, se separam das mãos”.

O resultado dessa admiração foi trágico para Schumann, que muitas vezes manifestou o desejo de ser “um Paganini do teclado”. Aos 22 anos, em 1832, ele teve a estranha ideia de tornar independente os movimentos do quarto dedo e ampliar o alcance da mão. Para isso, inventou e construiu uma estrovenga de madeira que o fazia trabalhar com o dedo anular preso e os demais esticados. As consequências da infeliz tentativa foram terríveis para um pianista, pois Schumann deslocou e ancilosou dois dedos da mão direita.

Essa catástrofe foi uma espécie de prenúncio de seu transtorno mental – que mais tarde se revelaria intenso –, provavelmente de origem heredofamiliar, considerando, segundo os biógrafos, a mãe anormalmente sensível e nervosa e a irmã suicida. O pai faleceu um ano após esse suicídio. Aos 23 anos, quando parecia ter superado a lesão que invalidou sua mão, teve a primeira grande explosão de sintomas, com desmaios – provavelmente crises convulsivas incompletas –, respiração entrecortada e episódios de angústia e de pânico, que culminaram em uma noite de terror quando ele tentou, para se livrar do sofrimento, jogar-se pela janela. O quadro clínico cedeu, mas permaneceram as fobias às facas e aos lugares altos.

Em 1840, Schumann casou-se com Clara, pianista prodigiosa desde os onze anos, filha de seu professor, Friedrich Wieck, que tudo fez para separá-los. Não adiantou. Às escondidas, o casal tomou medidas legais e entrou com uma ação judicial para tornar desnecessário o consentimento de Wieck e consumar o casamento quando Clara completasse a maioridade. No período de recém-casado, o compositor alternava momentos de abatimento com os de excitação. Em um deles, que se apresentou no mesmo ano de 1840, assim resumiu seus dias: “(...) de ontem de manhã para cá, escrevi 27 páginas de música das quais só posso dizer isso: enquanto as compunha ri e chorei de alegria”. Nessa fase, ele compôs febrilmente. Em menos de um ano, produziu 136 lieders – canções de elevada expressão artística, que aproveita versos dos maiores poetas da língua alemã –, do total de 246 que viria a criar durante a vida.

Nos treze anos seguintes, eclodiram as fobias, angústias e pânico pela consciência da perda de razão, além de comportamento mágico-místico. Há relatos de que ele consultava “mesas voadoras”, talvez uma espécie de oráculo, em obsessiva atividade ocultista. Ele fazia exigências irracionais de silêncio absoluto, que o obrigaram a mudar de domicílio quatro vezes na mesma cidade. Dentro de casa, ele impunha à Clara a quietude forçada. Consciente de sua penúria psíquica, manifestou, em muitas ocasiões, profundo sentimento de culpa, que só agravou seu estado mental. O espectro da loucura começou a se tornar amea¬çador quando tiveram início os conflitos com colegas e surgiram as impressões melancólicas, os temores e os sons alucinatórios.

Em 10 de fevereiro de 1854, ele disse ter ouvido, durante toda noite, estranhos ruídos dominados por um som da nota musical lá, que teria produzido um “maravilhoso sofrimento”. E, no dia 20, além das alucinações auditivas, manifestou ocorrências visuais. Viu anjos ditando a ele as melodias, mas também figuras animalescas aterrorizadoras – apresentando, primeiro, estado de êxtase e, seguidamente, o de confusão mental. Nos dias subsequentes, pediu insistentemente à Clara que o abandonasse, temendo perder o controle e agredi-la. Uma semana depois, em 27 de janeiro, ele saiu de casa e se atirou no Reno, sendo salvo por pescadores. Em 2 de março, foi internado no Manicômio de Enrelich, próximo à cidade de Bonn, com o consentimento da esposa Clara, que em outras ocasiões havia resistido a essa orientação médica.

Dois anos depois, em 28 de julho de 1856, Robert Schumann faleceu no manicômio. Consta que cinco dias antes da morte, como se estivesse iluminado por um raio de razão, reconheceu Clara e abraçou-a: “(...) esta, enxugando as lágrimas ao sair do quarto, exclama: ‘não trocaria esse abraço por todos os tesouros do mundo’”.

Psiquiatras propuseram diferentes diagnósticos para o mal do qual o compositor padecia. Para Slater e Mayer, tratava-se de esquizofrenia alucinatória delirante; para Vallejo-Nágera, de desenvolvimento paranoide, com anomalias ciclotímicas e neuróticas. Alguns biógrafos, como Jean-Gallois e Camila Frésca, atestaram que o compositor era portador de sífilis. Outros fazem referência à psicose maníaco-depressiva e síndrome do pânico.

Para mim, não há dúvida de que se trata de disritmia cerebral, pois existe, por um lado, a criatividade em seu nível mais elevado, própria dos grandes gênios das artes e da literatura – como, por exemplo, o pintor Vincent Van Gogh e o escritor Fiódor Dostoiévski. E, por outro, as alucinações visuais, o comportamento mágico-místico, os distúrbios de humor (depressivo e excitado) e as tais psicopatologias (que são tributos pagos à doença), ao lado de momentos de calma, com conservação da autocrítica, encaixam-se bem no que se descreve como psicose epilética. Mas é bem verdade que, no final de sua vida, o quadro clínico era de demência – e psicose epilética raramente leva a tal estado. Nesse ponto é necessário considerar um segundo elemento, pois é muito provável que ele também padecesse de sífilis (da mesma maneira que aquele que já tem tuberculose pode contrair tifo), enfermidade que, implacável e impiedosamente, termina em demência.


Fontes e referências bibliográficas

– Vallejo-Nágera, J. A. Loucos Egrégios. Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1979, p.211, 221, 222, 226, 227,228.
– Gautier, A. Liszt. Madrid: Espasa-Calpe, 1975, p. 45-46.
– Mayer, A; Slater, E. Contribution to a pathography of Robert Schumann. Confinia Psychiatric, 1959, p. 65-94.
– Gallois, J. Schumann. Madrid: Espasa-Calpe, 1975, p. 67.
– Frésca, C. Robert Schumann. Revista Concerto, junho de 2010, p. 27.
– Palomba, G. A. Tratado de psiquiatria forense civil e penal. São Paulo: Atheneu Editora, 2003, p. 419-439.

*Psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.


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