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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Renato Azevedo Júnior - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Heiner Flassbeck, economista e diretor da Unctad


SINTONIA (pág. 9)
José Ricardo de C. M. Ayres*


CRÔNICA (pág. 12)
Antonio Prata*


CONJUNTURA (pág. 14)
Os problemas da população de rua


DEBATE (pág. 18)
Haino Burmester e Laura Schiesari


MÉDICOS NO MUNDO (pág. 24)
O atendimento da população em regiões de alto risco


SUSTENTABILIDADE (pág. 28)
Alerta para o consumo de alimentos contaminados


GIRAMUNDO (págs. 30 e 31)
Curiosidades da ciência e tecnologia, da história e atualidade


PONTO COM (págs. 32/33)
Acompanhe as novidades que agitam o mundo digital


EM FOCO (pág. 34)
Sherlock Holmes, um doutor detetive


LIVRO DE CABECEIRA (pág. 37)
Sugestão de leitura de Krikor Boyaciyan*


HOBBY (pág. 38)
Esporte já não é exclusivo do universo masculino


CULTURA (pág. 40)
Arte urbana conquista espaço internacional


GOURMET (pág. 45)
Arroz indiano


POESIA( pág. 48)
Ana Cristina César


GALERIA DE FOTOS


Edição 57 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2011

SINTONIA (pág. 9)

José Ricardo de C. M. Ayres*


Medicina e Filosofia
Em busca de uma prática existencialmente significativa



Que razão levaria um médico a interessar-se por filosofia? Hoje, o que se espera de um médico é que domine o campo científico de sua especialidade. Se, além de exercer o trabalho de assistência, estiver envolvido em pesquisa e docência, ou, se não quiser apenas “consumir” conhecimento, mas ter algum domínio crítico sobre ele, também lhe interessará a metodologia científica de seu campo. O médico do século XXI é, concomitantemente, cada vez mais, um tecnólogo, que domina não apenas conhecimento, mas que precisa ser capaz de manejar, ou ao menos conhecer, aparatos tecnológicos cada vez mais complexos e sofisticados do ponto de vista de sua materialidade, inclusive as tecnologias de informação, espécie de pré-condição para os requisitos anteriores.


Desde finais do século XX até as primeiras décadas do século XXI, no cenário pós-industrial da “sociedade da informação”, os personagens centrais da crônica histórica da medicina não são mais personalidades nem instituições. Os protagonistas são as tecnologias, especialmente aquelas que abstraem do corpo apenas um conjunto seleto de informações úteis, de preferência transformando-as em expressões visuais passíveis de tratamento analítico e comparativo, assim como tecnologias de quantificação e análise matemática, em particular as de probabilidade.

Os conceitos-chave das ciências médicas, por sua vez, transformaram-se radicalmente: código genético, de um lado, e risco epidemiológico, de outro, constituem as ferramentas fundamentais dos raciocínios causais e da fundamentação teórica das intervenções em saúde em seus diversos níveis. E chama a atenção não apenas a mudança de conteúdo dos conceitos, compatível com a historicidade de qualquer prática social, mas a mudança da natureza desses conceitos.

A concepção hipocrática de physis e a teoria galênica dos humores perderam completamente sua utilidade para o médico moderno, assim como as concepções de organismo e os raciocínios anátomo-fisio-patológicos dos modernos não fariam sentido racional para os médicos da Antiguidade Clássica ou da Idade Média. Houve, porém, uma certa continuidade em meio a tais rupturas conceituais, uma identidade que pode ser resumida, em termos bem esquemáticos, como a busca de uma totalidade de sentido que vinculava os conceitos médicos a uma compreensão geral de mundo e da matéria, apoiados na concretude corporal dos fenômenos de saúde e doença, o que, absolutamente, não acontece agora. As polaridades genéticas e epidemiológicas dos saberes médicos não estão apenas produzindo conceitos que substituíram as teorias substancialistas pré-modernas e o mecanicismo da anátomo-fisio-patologia experimental moderna, elas estão superando também suas bases ontológicas e determinísticas. Pragmatismo e probabilismo sustentam, na medicina contemporânea, um conhecimento que pretende prescindir de estruturas e mecanismos para delimitar e manejar fenômenos de saúde e doença. Radicalizado esse movimento, “bastaria” à medicina conhecer as possibilidades dos arranjos moleculares da informação genética, de um lado, e sua associação probabilística com ações e desfechos desejados e indesejados para a saúde, de outro, favorecendo aqueles e refreando estes.

Não será difícil, portanto, inferir o grau de especialização científica e domínio de tecnologias que essa tendência nos cobra a todos, médicos das diversas áreas. Mas... repare, leitor! Para justificar porque é tão comum, em nossos tempos, julgar que tudo que um médico precisa conhecer é ciência e técnica, chegamos... à filosofia. Para compreender a tecnociência que fazemos e os tecnocientistas que somos, precisamos ser um pouco filósofos. Então, voltando à pergunta do início, podemos responder que um médico deve se interessar pela filosofia na medida em que queira compreender o núcleo duro dos saberes que aplica, produz e transmite no desempenho de seu ofício. Desenvolver nossa capacidade de compreensão histórica e crítica epistemológica das ciências médicas pode nos ajudar a encontrar uma salutar distância de estéreis posturas saudosistas ou utópicas (no mau sentido), tanto quanto da reprodução automatizada e inconsequente de saberes e práticas.

Concedamos então, alguns poderiam retrucar, que médicos não precisam apenas de tecnociência, mas também de epistemologia, ou filosofia do conhecimento. Mas será que esse é o único ramo da filosofia que responde às necessidades de uma boa medicina? Se voltarmos às breves considerações acima, será simples encontrar interrogações que remetem já a outros ramos da filosofia. Quando nos referimos a permanências e rupturas na história epistemológica da medicina, tocamos em temas como “compreensão geral do mundo e da matéria”, isto é, em formas de construir e fundamentar a explicação dos fenômenos. Ora, ao nos colocarmos questões dessa natureza, já estamos nos dirigindo às fronteiras da ontologia e da metafísica. Quando nos referimos, de outro lado, às necessidades de conhecimento para uma boa medicina, tocamos interrogações de natureza ética e de filosofia política. Porém, há outra gama de questões que não foram diretamente assinaladas até aqui, fundamentais para a medicina, e que também têm caráter filosófico. Trata-se das reflexões sobre o “outro polo” do exercício da medicina, a que muitos, ao longo da história, quiseram se referir ao definir a medicina como “ciência e arte”.

A associação/distinção de ciência e arte – leia-se técnica – aponta, na verdade, para uma polarização com a qual devemos lidar com muita reserva, ao menos desde a modernidade tardia. É que ciência e técnica estão tão fortemente vinculadas na atualidade, que as diferentes esferas de racionalidade a que queriam remeter originalmente estas expressões já não são mais tão facilmente distinguíveis por elas. Talvez, nos tempos atuais, seja mais adequado e produtivo, em contrapartida, distinguirmos analiticamente dois horizontes inextrincáveis de toda ação tecnocientífica em medicina: o êxito técnico e o sucesso prático. Ou seja, se é verdade que a medicina apoia-se na ciência para a construção de objetos que instruem a arte/técnica da atenção à saúde (horizonte do êxito técnico), é também verdade que existem exigências quanto ao sentido dessas ações para que elas sejam de fato desejadas e convenientes para os indivíduos e grupos populacionais (horizonte do sucesso prático). Sem a tecnociência, a medicina de hoje não se movimenta, mas sem o horizonte do sucesso prático, ela não sabe exatamente para qual direção caminhar. A rigor, só podemos falar em um efetivo cuidado em saúde quando esses horizontes se fundem, instruindo-se mutuamente.

Por isso, talvez a maior necessidade da filosofia para os médicos, e para a medicina de hoje, resida aqui: para além das questões epistemológicas, ontológicas e metafísicas, é do resgate de uma filosofia prática que precisamos. Precisamos buscar o exercício mais prudente e existencialmente significativo das ações médicas, aquele que melhor pode beneficiar uma prática médica efetivamente interessada nos projetos de felicidade daqueles a que se dirigem os saberes e práticas da medicina.

(*) Professor titular e chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, pró-reitor adjunto de Extensão Universitária da USP e autor do livro Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde.


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