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EDITORIAL
Ponto de Partida


ENTREVISTA
Roberto Sávio é o convidado especial desta edição


CRÔNICA
Rubem Alves


BIOÉTICA
Giovanni Berlinger


EM FOCO
Clínica ou Cirurgia? Eis a questão


DEBATE
Aprendizagem baseada em problemas


JUSCELINO KUBITSCHEK
O médico que virou Presidente


HISTÓRIA DA MEDICINA
São Lucas, o médico evangelista

LIVRO DE CABECEIRA
O segredo dos médicos antigos


GOURMET
Pequi: bom demais da conta


CULTURA
Jairo Arco e Flexa


CARTAS & NOTAS
Novas publicações do Cremesp


POESIA
Adriana e Luis Orlando Rotelli Resende


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Edição 22 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2003

CULTURA

Jairo Arco e Flexa










Doutores de Mentirinha

Jairo Arco e Flexa*

No dia em que algum estudioso resolver pesquisar em profundidade quais as atividades mais freqüentes entre os personagens do cinema é bem provável que se surpreenda com o que descobrir: pois em meio aos detetives durões, os gângsteres e cowboys que se tornaram presença habitual na tela, encontra-se uma figura que para cumprir sua missão não recorre a pistolas, metralhadoras, nem à força dos punhos. Pelo contrário, em vez de agredir aqueles com quem convive, esse personagem dedica-se à sua cura e salvação. Esse personagem, claro, é o médico.

Médicos têm sido protagonistas de grandes sucessos do cinema. Pode ser em histórias inteiramente fictícias como “Doutor Jivago” (de 1965), nas duas versões do melodrama “Sublime Obsessão” (1935 e 1954), nas inúmeras transposições à tela do célebre romance de Robert Louis Stevenson “O Médico e o Monstro” (a primeira, poucos sabem, foi rodada em 1908, e não passa muito tempo sem que se anuncie nova refilmagem) ou em séries que fizeram história na TV como “Dr. Kildare” (1961 – 1965) e “Ben Casey” (1960 – 1965). Ou sucessos atuais da telinha, como “Plantão Médico”, que já está em sua oitava temporada.

Infatigáveis e audaciosos, os médicos da tela já visitaram até mesmo o limite extremo da fantasia, como na ficção científica “Viagem Fantástica” (1966), em que um grupo deles, depois de miniaturizado, é injetado na corrente sangüínea de um cientista para efetuar delicada cirurgia em seu cérebro. Mas eles já brilharam também em filmes basea-dos em fatos e profissionais da medicina do mundo real, como o clássico “A História de Louis Pasteur” (1936), “Freud, Além da Alma” (1962), com Montgomery Clift no papel do criador da psicanálise, ou “Tempo de Despertar” (1990), baseado nas pesquisas do neurologista americano Oliver Sacks.

O cinema ainda engatinhava quando produtores e roteiristas perceberam o enorme potencial que os “homens de branco” podiam trazer para a arte cinematográfica. Desde então, os médicos começaram a se tornar uma imagem constante nos filmes. Os motivos são fáceis de compreender. De fato, se no consultório e na sala de cirurgia falta a ação espetacular dos tiroteios e perseguições, sobram no entanto suspense e ação dramática. Quantas vezes o público não foi tomado de emoção ao ouvir frases como “meu caso é grave, doutor? Mas não há nada que se possa fazer? Quantos meses me restam?”, ou então: “ferimento de bala! Levem essa criança imediatamente para a sala de cirurgia!”

Diante de frases e situações como essas é compreensível que o espectador ficasse de olhos grudados na tela, ansioso para descobrir o que está para acontecer. Compreensível também é ter sido Hollywood, centro responsável pela popularização mundial do cinema, o lugar onde a figura do médico iria se consagrar como um dos grandes ícones do entretenimento no século XX. Mas não só por esse motivo: o extraordinário desenvolvimento tecnológico que a medicina conquistou nos EUA, com seus imponentes complexos hospitalares e uma parafernália cada vez mais vistosa e variada, acabou conferindo à atividade médica uma aura toda especial.

Fotografada e projetada na tela com habilidade, a prática médica, sempre que vista pelo olho da câmara, torna-se uma combinação insólita dotada de raro poder. O que se celebra naqueles fotogramas é o encontro entre um saber altamente especializado, o fascínio pela tecnologia e a crença no poder da cura. Mesmo que de forma inconsciente, o espectador leigo (e não só ele, na verdade) sente nesse conjunto uma arrebatadora aliança entre a precisão do science fiction e os mistérios do imponderável.

Entre as décadas de 30 e o começo dos anos 60, fase considerada áurea dos grandes estúdios, os principais artistas de Hollywood volta e meia surgiam na tela envergando o jaleco de médico. O público se acostumou a ver, empunhando o estetoscópio ou o bisturi, nomes do primeiríssimo time como Gary Cooper (“Pelos Vales das Sombras”, que Cecil B. De Mille rodou em 1944), Cary Grant (na comédia “Quero este Homem”, de 1948, e no drama “Terra em Fogo”, de 1950), Humphrey Bogart (“Campo de Batalha”, 1953), Robert Taylor (no “Sublime Obsessão” nº 1) e Rock Hudson (na sua refilmagem).

Foram chamados de doutor até mesmo atores mais identificados com filmes de aventura, como Clark Gable (“Alma de Médico”, 1934), Errol Flynn (“Luz de Esperança”, 1937) e Robert Mitchum (“Não Serás Um Estranho”, 1955). Em 1945, a bela sueca Ingrid Bergman interpretou a psicanalista Constance Petersen em “Quando Fala o Coração”, de Alfred Hitchcock. Se você está achando estranho haver apenas uma mulher no meio de tantos marmanjos, saiba que está em boa companhia. Durante muito tempo as atrizes americanas e os próprios médicos (principalmente as médicas) cansaram-se de protestar pela ausência de mulheres médicas na tela. Como resultado dessas reclamações, em 1952 a Metro Goldwyn Mayer produziu “A Jovem de Branco”, com June Allyson no papel de Emily Dunning, primeira médica a trabalhar num hospital público em Nova York.

A partir daí, de maneira lenta mas segura, as mulheres passaram a conquistar seu espaço nos consultórios e hospitais, tanto do cinema como da TV. Com os negros aconteceu a mesma coisa, desde 1950, ano em que Sidney Poitier estrelou “O Ódio É Cego”, como um jovem médico negro às voltas com um paciente branco e racista interpretado por Richard Widmark. As inquietações sociais que ganharam corpo a partir dos anos 60 teriam necessariamente de se refletir no papel representado pelos médicos da tela. Assim, em “Hospital”, de 1971, George C. Scott é um profissional que precisa lidar não só com as doenças dos pacientes como também com os problemas de falta de verba da instituição e o espírito de contestação dos jovens rebeldes da época.

Um ano antes, o polêmico “MASH” já dera um Oscar ao roteirista Ring Lardner Jr. e consagrava Robert Altman como um dos melhores cineastas americanos. Ambientada na década de 50, no front de guerra da Coréia, e tendo como personagens centrais dois oficiais-cirurgiões que pareciam saídos de uma comédia dos irmãos Marx, o filme, mais do que uma sátira à medicina, impunha-se como uma crítica feroz ao militarismo. E, embora sua ação declaradamente se passasse na Coréia, ninguém duvidava que o verdadeiro alvo do ataque era a presença americana no Vietnã.

Ao lado dos médicos dedicados e para quem a primeira preocupação é o bem-estar do paciente (uma lista extensa na qual, aliás, faz boa figura o filme brasileiro deste ano “Sonhos Tropicais”, de André Sturm, baseado no trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz), tornaram-se comuns no cinema colegas de profissão guiados por princípios bem menos nobres. Às vezes trata-se de médicos cujo objetivo pode ser alcançar a glória graças a alguma grande descoberta científica, como em “O Médico e o Monstro”, “A Ilha do Dr. Moreau” (também de Robert Louis Stevenson, e também filmado várias vezes), ou “Frankenstein” (baseado no único romance de Mary Shelley e que, de maneira clara ou disfarçada, já recebeu igualmente inúmeras versões cinematográficas). Com a obsessão de inscrever a qualquer custo seu nome na história e na ciência, os protagonistas desse filmes não tardam a perder a noção dos limites e logo estão agindo como se fossem Deus, sempre com conseqüências desastrosas.

O desenvolvimento das técnicas de transplante fez com que aparecesse na tela um novo tipo de médico, que também esquece o juramento de Hipócrates. Desses, um dos mais amea-çadores foi o cirurgião interpretado por Richard Widmark em “Coma”, de 1978 (cujo diretor, Michael Crichton, além de cineasta é médico). Para ganhar um bom dinheiro no mercado negro de órgãos, o sinistro personagem precipita a morte de alguns pacientes na mesa de cirurgia. Sua carreira de crimes só é interrompida quando dois jovens internos (Michael Douglas e Geneviève Bujold) conseguem desmascará-lo. Situação semelhante foi abordada no recente filme alemão “Anatomia” (2000), estrelado por Franka Potente, de “Corra Lola, Corra”. Ela é uma estudante que descobre a existência de uma sociedade secreta dirigida por um pesquisador sem escrúpulos que realiza experiências ilegais em seus pacientes.

No gênero, o mais assustador desses profissio-nais é o médico vivido por Gene Hackman na aventura de suspense “Medidas Extremas”, de 1996. Cientista brilhante, ele é um expoente da classe que, embora guiado por princípios humanitários (restituir a liberdade de movimentos a pessoas paralíticas) perde qualquer vestígio de humanidade quando decide condenar à morte os infelizes sem-teto que têm o azar de ser levados ao hospital que dirige. Tudo para que não faltem cobaias às suas experiências. Será um jovem médico em início de carreira (interpretado por Hugh Grant) que irá pôr um fim a essa série de atrocidades: em vez de se curvar às ameaças do colega famoso, ele prefere seguir o código de ética da profissão que abraçou e tem a coragem de denunciá-lo.

Exemplar em sua postura, a aventura, assim, torna-se a versão médica da célebre lição popularizada pelas histórias policiais, segundo a qual o crime não compensa: tanto o cientista desprovido de escrúpulos como o espectador chegam ao fim do filme convencidos de que não se desobedece impunemente ao juramento de Hipócrates.

* Mesmo sendo incapaz de applicar uma injeção, Jairo Arco e Flexa já foi médico diversas vezes no palco e na TV. Na vida real, ostenta um expressivo currículo de paciente, superado apenas pela paciência quase infinita de seus médicos.

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