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João Ladislau Rosa - Presidente do Cremesp


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Vandana Shiva e Jeffrey Smith


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MÉDICOS NO MUNDO (págs. 28 a 31)
Fernando Nobre


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HISTÓRIA DA MEDICINA (págs. 36 a 38)
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Edição 69 - Outubro// de 2014

MÉDICOS NO MUNDO (págs. 28 a 31)

Fernando Nobre

O planeta é sua casa

O cirurgião e urologista português Fernando Nobre já participou de missões humanitárias em 170 países, nos quais enfrentou inúmeras tragédias e, até mesmo, um atentado a sua própria vida.



         
 

                  Há 36 anos, Nobre participa de assistência médica humanitária a vítimas de terremotos,
maremotos, genocídios, guerras, entre outras tragédias; "só não vi o efeito de uma bomba nuclear", diz

 

Para os filhos do médico e ex-candidato à presidência de Portugal, Fernando Nobre, o pai é um “avião”. Há 36 anos, ele passa mais tempo viajando pelo mundo, dedicando-se a ações humanitárias, do que em sua casa, em Lisboa. As missões o levaram a 170 países nesse período, praticamente o mundo todo. “A única coisa que eu não presenciei foi o efeito de uma bomba nuclear, e espero não ver”, conta. No mais, já encarou de tudo: desde tragédias provocadas por desastres naturais, como terremotos e maremotos, a acampamentos de refugiados famintos, genocídios, guerras e, até mesmo, um atentado à sua própria vida. Mas o que ele mais lamenta, e classifica como doenças mais graves do mundo, são a intolerância e a indiferença ao próximo.

Desde criança – quando ainda morava em Luanda, capital de Angola, onde nasceu, em 1951 – Nobre tinha certeza de que seria médico. Filho de pai português e mãe francesa, cursou Medicina em Bruxelas, na Bélgica, onde especializou-se em Urologia e Cirurgia-geral. O futuro profissional, na Europa, era promissor, mas seu sonho era “montar um hospital no meio do mato, como fez Albert Schweitzer” (médico francês que dedicou parte de sua vida a pacientes de pequenos povoados da África), lembra.

Pouco depois da especialização, o médico decidiu dedicar-se ao trabalho humanitário. Na época havia grandes conflitos de independência na África. “Entendi que, assim, realizaria meu sonho. Como não podia ter um hospital no mato, viveria em missões pelo mundo afora”, lembra. É o que faz desde então.

Começou em 1976, na Organização Não-Governamental Médicos Sem Fronteira (MSF). Depois de seis anos e várias missões humanitárias, decidiu sair devido a divergências com a direção da ONG no Chade, no centro-norte da África, relativa ao conflito desse país com a Líbia. Em 1984, ao mudar-se de Bruxelas para Portugal, a convite do ministro da Saúde português, Nobre decidiu, então, fundar ele mesmo uma organização de ajuda humanitária, a Assistência Médica Internacional (AMI), com sede em Lisboa, na qual trabalha.

Dentre os inúmeros desafios que os cenários de conflitos armados, genocídios e catástrofes representam para o trabalho dos médicos, o maior deles, na opinião de Nobre, é a cirurgia de guerra. “Muitas vezes, nós não podemos fazer tudo o que seria necessário, pois é preciso operar o maior número de pessoas no menor tempo possível. O que importa é salvar vidas e, para isso, temos de tomar decisões muito rápidas. Infelizmente, nas guerras, geralmente amputamos muitos membros”, lamenta.

As incontáveis cenas trágicas e tristes que já vivenciou, e as lembranças dos lugares por onde passou e das pessoas que ajudou, frequentemente voltam à lembrança. “Às vezes, à noite, fecho os olhos e revejo algumas cenas ou momentos pelos quais passei”, diz. Dois deles – durante uma missão no Líbano, em 1982, pelo MSF – ficarão marcados para sempre, acredita o médico. O primeiro foi o ambiente de alto estresse que lá viveu durante dois meses. “Havia bombardeios marítimos, aéreos e terrestres todos os dias. Para mim, os piores eram os bombardeios noturnos. Pela manhã, conseguíamos ver os aviões e tínhamos certa noção de onde a bomba cairia, mas à noite não dava para saber, só escutávamos o barulho. A próxima poderia cair sobre nós”, relata.

  O segundo foi uma tentativa de assassinato que sofreu durante essa mesma missão. Certa noite, quando acabara de sair da casa onde morava e se encontrava na rua, um franco-atirador disparou na direção de Nobre. Ele só não foi atingido porque, após o projétil passar de raspão por sua orelha, pulou para se esconder – sem refletir para onde ia, já que não sabia de onde viriam os tiros. E, felizmente, pulou para o lado correto, o dos imóveis onde estava o franco-atirador. Assim, como este se encontrava em um dos tetos, o médico foi se esgueirando pelas paredes até conseguir sair daquela área. Se tivesse pulado para o outro lado, teria continuado na mira do atirador e, provavelmente, não estaria vivo.

Outra imagem que volta sempre à sua lembrança aconteceu por ocasião do genocídio de Ruanda, em 1994. Quando Nobre entrou em uma das tendas do acampamento, viu uma mulher africana, em silêncio, com lágrimas escorrendo pelo rosto e, no colo, um bebê, morto. “As pessoas acham que os africanos estão acostumados com a morte, mas isso é uma grande mentira. Mãe é mãe em qualquer lugar. A pior dor que se pode ter é a provocada pela morte de um filho”, garante.

A inocência acabou
Em relação aos conflitos atuais, afirma que a AMI não envia seus quadros a algumas áreas de conflito do Oriente Médio, como a Síria e o Iraque, por exemplo. “Estamos em uma época de opressão, a inocência acabou. Muitas forças fundamentalistas não querem mais saber se você é médico ou padre, sem vínculo algum com os governos ocidentais. Para eles, agora, todos são culpados e, portanto, passíveis de serem alvos de sequestros, execuções ou atentados terroristas”, conta. Apenas em 2013, informa Nobre, o número de pessoas envolvidas em ações humanitárias feridas, mortas ou executadas chegou a 470. “Não tenho medo de morrer de um tiro, mas morrer degolado, como uma galinha, não! Não posso enviar o pessoal da ONG para onde eu mesmo não esteja disposto a ir”, afirma.

As viagens constantes fazem com que o médico não tenha uma rotina com a família como gostaria. Ele casou-se duas vezes e tem quatro filhos. A segunda esposa, que também trabalha na AMI, onde se conheceram, é quem cuida da família. “Ela é pai e mãe ao mesmo tempo. É o preço que eu pago por viver por um ideal. Minha sorte é que nós acreditamos nos mesmos ideais”, diz. Alguns membros da família trabalham junto com ele, como o irmão, José Luís Nobre – que cuida da logística de transporte e estruturas físicas das missões da AMI –, e a filha Isabel, que o acompanha em algumas missões, como fotógrafa.

Política
A candidatura à presidência de Portugal aconteceu há três anos. Nobre apresentou-se de forma independente, sem partido e sem recursos. Mesmo assim, ficou em terceiro lugar, com 15% dos votos. “Decidi disputar a presidência por acreditar que, como cidadão conhecedor de algumas realidades especiais do país e do mundo, poderia contribuir com Portugal, dar outra visão de mundo e despertar a sensibilidade nas pessoas”. Ele não pretende mais candidatar-se. “As dificuldades financeiras são imensas para sustentar uma candidatura independente”, enfatiza.

Além de administrar e participar das missões da AMI, o médico dá aula de Medicina Humanitária na Universidade de Lisboa. Acredita que só o humanitarismo pode mudar o mundo. “Infelizmente, as pessoas estão perdendo a humanidade e mesmo a Medicina tomou outros rumos. “O médico não encosta mais no paciente, às vezes nem o olha nos olhos, isso não é praticar Medicina”, afirma. “A única coisa que um robô não pode fazer no lugar do médico é ser sensível. Se não mantivermos a humanidade, a Medicina será mais uma profissão tecnicista e não passará disso”, conclui.

 


 

A AMI no mundo


Criada em dezembro de 1984, a Assistência Médica Internacional (AMI) tem sede em Lisboa, Portugal, e é a primeira organização humanitária do país. Conta com 250 funcionários e com ajuda voluntária.

Todas as missões das quais a AMI participa envolvem um plano de ação médica e social para prestar auxílio a qualquer país que tenha passado por uma catástrofe natural, ou que esteja vivendo um cenário de guerra. A logística de uma missão humanitária é enorme, englobando desde locais para abrigar o pessoal, transportes e recursos para mantimentos, entre outros.

Inicialmente, a organização criada por Nobre visava levar ajuda a todos os países de língua portuguesa, mas, depois, ampliou sua ajuda, e esteve presente em todos os cenários de guerra e catástrofes naturais das últimas três décadas, em todo o mundo. Atualmente, só não participa de missões no Iraque e na Síria.

O trabalho da ONG abrange: assistência médica, ação social, conscientização sobre a importância da preservação do ambiente e sensibilização em torno de questões que acredita serem importantes para a humanidade, como a necessidade da participação da sociedade civil para promover mudança de atitudes e comportamentos.


(Colaborou: Fátima Lopes)
 


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