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Edição 24 - Julho/Agosto/Setembro de 2003

CRÔNICA

Luis Fernando Veríssimo

Wilde

Luis Fernando Veríssimo*

Oscar Wilde, que morreu há mais de 100 anos, escreveu algumas das frases mais memoráveis e citáveis da língua inglesa para seus personagens, mas hoje o seu personagem mais lembrado é ele mesmo, e vários autores modernos o aproveitaram e botaram no palco com falas novas. Wilde aparece na peça de Tom Stoppard The Invention of Love, sobre o poeta e classicista A. E. Housman, como uma espécie de contraponto flamante ao sóbrio mas também homossexual Housman, dizendo coisas como “a arte não pode ser subordinada ao seu sujeito, pois neste caso não é arte mas biografia, e biografia é a malha através da qual a vida real escapa”. E: “Melhor um foguete caído do que nenhuma explosão de luz. Dante reservou um lugar no seu Inferno para os deliberadamente tristes – os taciturnos no doce ar, como ele disse.” E: “O artista é o criminoso secreto em nosso meio. É o agente do progresso contra a autoridade.” E: “Um artista deve mentir, trapacear, enganar, ser infiel à Natureza e desprezar a história. Eu transformei minha arte na minha vida e fui um sucesso incondicional. O fulgor da minha imolação iluminou todos os cantos desta terra, onde jovens sem conta recolhiam-se, cada um à sua própria escuridão.” E: “Eu despertei a imaginação do século.” O Wilde de Stoppard diz tudo isto a Housman depois de morto, esperando o barqueiro que levará a alma dos dois para o outro lado.

Outro autor inglês que brincou de Wilde escrevendo para um Wilde fictício foi Terry Eagleton. Um dramaturgo surpreendente, pois é mais conhecido como crítico literário e pensador marxista. Na sua peça Saint Oscar, sobre o julgamento que condenou Wilde à prisão, Eagleton põe vários solilóquios wildianos na boca do escritor. A começar por sua apresentação à platéia: “Me chamaram Oscar Fingal O`Flahertie Wills Wilde. Outros ganham nomes, eu ganhei uma sentença inteira. Nasci com uma sentença sobre a minha cabeça.” Depois de explicar sua gordura dizendo que come para compensar a fome na Irlanda, Wilde diz: “Sempre julguem pelas aparências, que são mais confiáveis do que a realidade. Os ingleses acham que isso é hipocrisia. Vocês se surpreendem que eles desconfiem de aparências, depois do que fizeram à metade do mundo? Eles fogem disso para um lugar interior chamado verdade. Um lugar profundo – como uma cloaca. Enquanto eu sou superficial, profundamente superficial. Não há nada à flor da pele na minha superficialidade.” E sobre a sua mãe: “Uma mulher admirável. Talvez seja o que mais desagrade nela.”

Num dos seus solilóquios dirigidos à platéia, o “Wilde” de Eagleton diz: “Tento não ter nenhum tipo de ressentimento social, mas não consigo evitar a inveja dos privilégios dos pobres. Eles estão livres da indigestão e do pânico na escolha do que vestir e não têm tempo para especulações metafísicas inúteis. Detesto a Natureza. Ela me parece, de alguma forma, inepta. Um clichê. Observo uma pequena gaivota bicando perfunctoriamente à sua volta e a considero pouco convincente. Eu sei que eles se esforçam, mas os animais são atores atrozes. Sempre estragam tudo. A Natureza não tem o dom do improviso: está sempre tediosamente se repetindo. Enquanto eu nunca faço a mesma coisa duas vezes, e é isso que me torna tão fascinante. Toda a minha vida tem sido uma longa prática antinatural. Não sou previsível como uma couve-flor.”

E: “É curioso como as pessoas ainda desaprovam a roupa, depois de tantos milênios. Consideram a nudez mais autêntica. Não posso imaginar um pensamento mais pervertido. A nudez sempre me pareceu tão artificial. Aparecer no tribunal totalmente nu – ah, essa seria a pose extrema. Tirem a minha roupa e a minha alma vai junto.”
E: “Sou um igualitário: para mim todas as classes são vulgares.”
E: “Sou socialista porque sou individualista. Como pode alguém ser um indivíduo neste esgoto de sociedade? Na minha santa devoção ao meu próprio ego prefiguro uma Nova Jerusalém, em que todos poderão ser, puramente, eles mesmos.”
E, falando no tribunal que o condenaria: “Nunca entendi o sentido do termo moralidade, a não ser como um meio de opressão. Sou, em suma, um decadente. Mas temo que a saúde de vocês possa ser mais doentia do que a minha decadência. Melhor sensacionalista do que imperialista. Temo pela saúde moral de uma nação inteira obcecada em determinar qual é o buraco certo. Vocês subjugam raças inteiras, condenam a massa da sua própria população à miséria e ao desespero, e só conseguem pensar que órgão sexual deve entrar onde”.
E: “Vocês sustentam que homem é homem e mulher é mulher. Eu sustento que nada é simplesmente o que é, e que o ponto em que isso acontece se chama morte. Portanto exijo que meus defensores sejam metafísicos em vez de advogados e que o júri seja composto pelos meus pares – poetas, pervertidos, vagabundos e gênios.”

Do livro Banquete com os deuses - Cinema, literatura, música e outras artes, editora Objetiva - Rio de Janeiro.

*Luis Fernando Veríssimo é escritor e cronista.


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