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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Mauro Gomes Aranha de Lima - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Peggy Cohen-Kettenis


CRÔNICA (pág. 10)
Tufik Bauab*


EM FOCO (pág. 12)
Informação científica


ESPECIAL (pág. 16)
Por que as cotas raciais são importantes? - Aureliano Biancarelli


CONJUNTURA (pág. 24)
Qualidade de vida


CARTAS E NOTAS (Pág. 27)
Cremesp facilita localização de pessoas desaparecidas


HISTÓRIA DA MEDICINA (Pág. 28)
Patrimônio histórico


GIRAMUNDO (Pág. 32 e 33)
Avanços da ciência


PONTO COM (Pág. 34 e 35)
Mundo digital & tecnologia científica


SINTONIA (Pág. 36)
Literatura & Medicina


TURISMO (págs. 40 a 43)
Aurora boreal


CULTURA (págs. 44 a 47)
O Rubaiyat de Omar Khayyam


FOTOPOESIA (pág. 48)
Ano Novo


GALERIA DE FOTOS


Edição 77 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2016

HISTÓRIA DA MEDICINA (Pág. 28)

Patrimônio histórico

Juquery, uma outra história

Patrimônio histórico e arquitetônico do centenário complexo hospitalar de saúde
mental testemunha costumes e valores de várias épocas

Ivolethe Duarte*

 

Histórica e centenária instituição psiquiátrica, o Complexo Hospitalar do Juquery também proporcionou um importante patrimônio arquitetônico, artístico e ambiental ao País. Suas edificações e acervos são testemunhos de costumes e valores da sociedade e da Medicina do final do século 19 até hoje. Construído inicialmente sob a coordenação do médico Franco da Rocha – que dirigiu a instituição até 1923 –, foi inaugurado em 1898 como Asilo de Alienados e Colônia Agrícola, com cerca de 80 pacientes internados, mas chegou a ter mais de 14 mil nessa condição na década de 1970.

Ampliado e readequado em diferentes épocas, o Juquery foi alvo de debates durante todo seu transcurso. A instituição está em processo de desativação, com poucas equipes e unidades em funcionamento. O presidente do Cremesp, Mauro Aranha, visitou o Juquery em setembro de 2016, ocasião em que tinha apenas 119 pacientes internados. A maioria, idosa e remanescente do período anterior à luta antimanicomial, iniciada na década de 1970, que resultou na Lei da Reforma Psiquiátrica nº 10.216 de 2011.

 “O Juquery tem funcionado mais como uma instituição de abrigamento”, afirmou a coordenadora médica da psiquiatria do complexo, Maria Alice Scardoelli, que – juntamente com o arquiteto Pier Paolo Bertuzzi Pizzolato, diretor de projetos e acervo – acompanhou parte da visita do presidente do Cremesp à instituição. Os pacientes que permaneciam internados não puderam ser reinseridos socialmente por falta de retaguarda familiar ou de assistência adequada aos casos em outros serviços. Aranha visitou essas unidades, ocasião em que conversou com alguns dos pacientes.

Ele também conheceu alguns prédios parcial ou totalmente desativados. O extenso conjunto inclui antigas unidades terapêuticas, vila de médicos, colônias e pavilhões isolados ou intercomunicados. A relevância do Juquery como monumento foi reconhecida em 2011, ao ter parte de suas edificações tombadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Das 34 edificações tombadas (28 edifícios e seis conjuntos de colônias), cerca de 20 são do período inicial, quando Franco da Rocha e o engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo conceberam o projeto. Professor fundador da Escola Politécnica de São Paulo, Ramos de Azevedo foi um dos mais produtivos arquitetos do cenário paulistano da época e pelo seu escritório foram executados os projetos do Teatro Municipal, da Pinacoteca do Estado, do edifício Alexander Mackenzie (Shopping Light) e da Casa das Rosas, entre tantos outros.

O Juquery da fase inicial baseou-se nos modelos do Asilo-Colônia de Alt-Scherbitz da Alemanha. Foi preciso “recorrer ao sistema germânico nas colônias masculinas, para construir nas proximidades do hospício um asilo barato, sem luxo, apenas confortável, com terreno vasto para cultura e criação, de modo que pudesse abrigar os doentes com proveito e economia”, diz Franco da Rocha no livro de sua autoria Hospício e colônias de Juquery: vinte anos de assistência aos alienados em São Paulo, publicado em 1912.


Juquery abriga ainda 119 pacientes, por falta de retaguarda familiar

O asilo de Alt-Scherbitz, de acordo com a tese Juquery, o hospício além de suas práticas manicomiais, da urbanista e arquiteta Iná Rosa da Silva, apoiava-se no isolamento rural e na reabilitação pelo trabalho agrícola, modelo também adotado na época em colônias para portadores de hanseníase e de tuberculose.

Ainda é desse período o prédio da administração central do Juquery, que sofreu um incêndio em 2005, com perda de parte de seu acervo histórico, incluindo prontuários completos de pacientes.

A segunda grande ampliação do complexo é atribuída ao engenheiro Ralph Pompeu de Camargo, menos conhecido que seu antecessor. Nesse período, o hospital era dirigido pelo anatomopatologista Antonio Carlos Pacheco e Silva, indicado ao cargo aos 25 anos – pelo próprio Franco da Rocha, ao se aposentar –, que ficou à frente do Juquery de 1923 a 1937.

De estilo neocolonial do tipo missões e menos suntuoso que o anterior, as novas construções incluíram a vila residencial médica, a sexta colônia masculina e a primeira feminina, que mantinham o projeto terapêutico da fase de fundação. Nesse período, também foi criada a seção de radiologia e equipados os laboratórios de biologia e de anatomia patológica. Ainda na era Pacheco e Silva foi construído, na mesma área, o Manicômio Judiciário, que embora não fosse diretamente vinculado ao Juquery, utilizava seus serviços de assistência e infraestrutura.

Em tese de mestrado, Pizzolato catalogou 86 edificações na área do antigo complexo. Dentre as tombadas, 14 são da era Pacheco e Silva, incluindo a do Manicômio Judiciário.


Documentação e peças anatômicas representam o "ideário da psiquiatria brasileira em diferentes períodos"

Pacheco e Silva deixou o Juquery para tornar-se professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e, posteriormente, da Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp), da qual foi um dos fundadores. Ocupou inúmeros cargos, dentre eles o de conselheiro do Cremesp na gestão de 1959 a 1963, presidente da World Federation for Mental Health e membro do Conselho de Peritos em Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde, além de ter sido deputado constituinte por São Paulo.

 

Novas finalidades

Unidades de serviços da Prefeitura de Franco da Rocha e do governo de São Paulo paulista deram novas finalidades a alguns prédios desativados. Em um dos pavilhões antigos, funciona o Centro de Atendimento Integral à Saúde Mental (Caism). Mais da metade do antigo terreno de 24 mil metros quadrados do antigo complexo é ocupado pelo Parque Estadual do Juquery, criado em 1993, que possui uma rara porção de mata nativa de Cerrado em plena região metropolitana de São Paulo.

De acordo com Pizzolato, o Plano Diretor do Juquery prevê a ocupação da maior parte dos prédios vazios por uma universidade pública e um hospital de reabilitação física – que ainda não saiu do papel.


 

A arteterapia e o legado de Osório César

Durante a visita, o presidente do Cremesp conheceu o Museu Osório César, que possui um acervo de pinturas e esculturas produzidas por pacientes do Juquery, móveis e objetos que pertenceram a Franco da Rocha, além de documentos e cartas, dentre elas uma de Sigmund Freud ao médico Durval Marcondes, ex-aluno de Franco da Rocha.

Precursor dos estudos sobre arte e loucura no País, Osório César trabalhou na instituição de 1925 até aposentar-se, em 1965. Médico anatomopatologista com formação também em psicanálise, ele também era responsável pelas autópsias, trabalho pelo qual pesquisava associações entre alterações cerebrais e transtorno mental.

Conhecido e influente no meio artístico paulista e segundo companheiro de Tarsila do Amaral, ele foi fundador e primeiro diretor da Escola Livre de Artes Plásticas, que funcionou no Juquery entre as décadas de 1950 a 1970. Em 1933, na exposição Mês dos Loucos e das Crianças, organizada pelo amigo e artista Flávio de Carvalho (1899-1973), Osório César exibiu publicamente pela primeira vez os trabalhos dos internos do Juquery no Clube dos Artistas Modernos.

Parte das obras do Juquery estão no acervo de reserva Museu de Arte de São Paulo (Masp), que realizou exposições com esses trabalhos em 1948, em 1954 e, mais recentemente, em 2015. Entre os destaques do acervo estão as obras de Aurora Cursino dos Santos (1896-1959), profissional do sexo internada no Juquery por comportamento “amoral”, expostas em várias mostras no Brasil e no Exterior.

Acervo médico

Ao lado das salas com as obras de artes, ficam as documentações médicas e peças anatômicas como órgãos e ossos. O presidente do Cremesp examinou alguns prontuários, dentre eles o da primeira paciente internada na instituição, em 1898. “Além da abrangência cultural, a documentação do museu é representativa do ideário da psiquiatria brasileira em diferentes períodos da história. Os registros e o conjunto arquitetônico do Juquery permitem acompanhar a história da política assistencial, das classificações diagnósticas e indicações terapêuticas em saúde mental”, comentou Aranha.

 

*Jornalista do Cremesp.


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