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CAPA

PONTO DE PARTIDA (pág. 1)
Mauro Gomes Aranha de Lima - Presidente do Cremesp


ENTREVISTA (pág. 4)
Paulo Saldiva


CRÔNICA (pág. 10)
Mario Prata


CONJUNTURA (pág. 12)
Aids: novos e velhos desafios


DEBATE (pág. 16)
O teto dos gastos públicos é realmente necessário?


HISTÓRIA DA MEDICINA (Pág. 23)
O outro lado das guerras


SINTONIA (pág. 26)
A sétima arte e humanização da Medicina


GIRAMUNDO (Pág. 30 e 31)
Avanços da ciência


PONTO COM (Pág. 32 e 33)
Mundo digital & tecnologia científica


HOBBY DE MÉDICO (págs. 34 a 37)
Adolfo Leirner


CULTURA (págs. 38 a 41)
Osesp


GOURMET (Pág. 42)
Edmund Baracat


CARTAS & NOTAS (pág. 46)
Espaço dos leitores


FOTOPOESIA (pág. 48)
Carlos Drummund de Andrade


GALERIA DE FOTOS


Edição 78 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2017

SINTONIA (pág. 26)

A sétima arte e humanização da Medicina

Pablo González Blasco*

Dizer que os médicos estão munidos de excelente preparação técnica não é novidade. Como, infelizmente, também não o é afirmar que carecem, em sua maioria, de sensibilidade suficiente para lidar com o ser humano doente, que sofre e se confia aos seus cuidados. Fala-se em humanizar a Medicina quando, na verdade, o que se gostaria é de injetar doses de humanidade nos médicos para ver se o paciente consegue, de algum modo, fazer-se entender pelo profissional que está destinado a cuidá-lo. Esse, absorvido pela técnica moderna – útil e necessária – parece esquecer o paciente, ocupando-se apenas da doença.

Para um professor de Medicina, como é o meu caso, trazer o médico de volta ao que realmente importa – o paciente – é um desafio diário. Mas o cinema tem-se mostrado um recurso eficaz para promover essa reflexão. Estudantes, médicos e demais profissionais de saúde são convidados, por meio dessa metodologia, a pensar sobre as suas atitudes. De modo, talvez excessivamente simples, pode-se dizer que humanizar é, em primeiro lugar, lembrar ao médico que ele é um ser humano e que o paciente também o é. Algo evidente, embora esquecido com muita frequência. A reflexão traz isso à tona, com vigor. Se o cinema nos ajuda a pensar e a refletir sobre as coisas essenciais da vida, converte-se em recurso educacional de valor para formar pessoas e, naturalmente, para melhorar a formação dos médicos.

O universo da afetividade – sentimentos, emoções e paixões – vem assumindo um crescente papel de protagonista no mundo da educação. As emoções do aluno não podem ser ignoradas nesse processo. E o cinema mostra-se particularmente útil na educação afetiva por sintonizar com o universo do estudante, no qual impera uma cultura da emoção e da imagem. A educação por meio de filmes arranca desejos profundos do jovem, motiva-o para grandes sonhos, pa­ra novos desafios.

Lembro-me de uma ocasião, em um congresso de universitários, quando projetávamos a cena da batalha em O Último Samurai. Aqueles homens medievais, valentes, enfrentam as modernas metralhadoras, com a coragem e a espada. A atitude de servir e chegar até o fim, que parece ser a motivação dos samurais, arranca do inimigo o reconhecimento, a veneração e até a vitória moral. Quando acabou a conferência e os comentários das cenas, antes de sair, um aluno veio até a frente, me segurou pelo braço e me disse com os olhos brilhando: “Professor, eu quero ser um samurai!”. O cinema é também um modo de entender, de exprimir aquilo que a racionalidade levaria muito tempo para explicitar, e acabaria resultando até enfadonho.

Vale esclarecer que a educação através da estética, que atinge as emoções e a sensibilidade, não é uma tentativa de apoiar a educação do jovem na emotividade. Trata-se de suscitar uma reflexão sobre os valores e atitudes. É possível incorporar um conhecimento técnico ou mesmo treinar uma habilidade sem refletir sobre eles; mas é impossível adquirir valores, progredir em virtudes, incorporar atitudes, sem um prévio processo de reflexão. Esse processo requer tato, habilidade, evitar precipitações, promovendo um aprendizado que respeite, de alguma maneira, o ritmo quase fisiológico da emotividade. Não se pode obrigar a ninguém a sentir o que não sente. Pode-se simplesmente mostrar, e o tempo e a reflexão sobre as emoções se encarregarão de aprimorar o paladar afetivo.

Esse poder de estimular a reflexão torna-se evidente no clássico O Rei Leão. Simba está na boa vida e não quer assumir que cresceu. O macaco lhe interroga e pergunta: “quem é você?”. Essa pergunta vira do avesso o confortável Hakuna Matata em que Simba vivia, para trazê-lo à realidade. A seguir, o macaco lhe mostra o caminho para encontrar o seu pai. Simba tem dificuldade porque não está acostumado a refletir e, no início, apenas vê a própria imagem refletida na água. “Olhe com mais atenção, pense, reflita”. E chega o grande susto: “Simba, você me esqueceu. Sim, você me esqueceu, porque esqueceu quem você é. Você não é um gatinho, mas o meu filho, o verdadeiro Rei Leão”. O que de melhor se pode fazer é promover a reflexão, para que o jovem vá se construindo. Algo muito próximo ao que o macaco Rafiki faz com Simba. Não são as respostas que devem vir prontas, fabricadas, mas sim as perguntas, a modo de provocações, que o professor deve, contínua e serenamente, dirigir ao seu interlocutor. A ficha tem de cair por si. E por utilizar uma linguagem moderna, o cinema é uma oportunidade excelente.

“Faça por merecer”


"É impossível adquirir valores, progredir em virtudes, incorporar atitudes, sem prévio processo de reflexão"

Algumas cenas de filmes são verdadeiros questionadores. Lembremos de O Resgate do Soldado Ryan. Tom Hanks, o capitão, está morrendo. O soldado Ryan inclina-se sobre ele. E o capitão apenas lhe diz: “James, faça por merecer”. Depois de 40 anos, James Ryan vai ao cemitério, acompanhado da sua mulher, filhos e netos, para prestar contas: “Todos os dias penso no que você me disse aquele dia na ponte. Procurei viver a minha vida do melhor modo possível. Espero que, pelo menos diante dos seus olhos, eu tenha feito por merecer aquilo que todos vocês fizeram por mim”. Não satisfeito, procura a avaliação doméstica da sua vida, se prestou, se foi útil, e convoca sua mulher e lhe diz: “diga que sou um homem bom, que tive uma vida digna”. O capitão – que era, na vida civil, um professor, educou James Ryan com essa simples frase – “faz por merecer” – e com seu exemplo de vida. Para qualquer um que medite nesse contexto, basta lembrar-lhe que faça por merecer, para que tudo venha à tona na cabeça e no coração.

Mas tudo isto não será muito perigoso? Não levantará problemas com os quais não saberemos lidar depois? Lembro-me de um fato ocorrido em um congresso internacional em Florença, Itália, há mais de 10 anos, durante um workshop no qual apresentamos a metodologia reflexiva que o cinema oferece ao educador. Curiosamente, a plateia – mais de 100 pessoas – estava composta integralmente por não latinos: finlandeses, ingleses, alemães, dinamarqueses, noruegueses, belgas, holandeses. Diante desse público, novidade para mim, tive um momento de hesitação. Funcionaria com eles como tinha funcionado no Brasil e em ambientes latinos? Projetar trechos de filmes, fazer comentários simultâneos? Uma audiência na qual, possivelmente, a manifestação dos sentimentos teria uma expressão diferente? A sessão correu bem, em silêncio profundo, e deixavam-se ouvir – mesmo sem a estrondosa componente latina – alguns suspiros emocionados. No final, um professor britânico pediu a palavra:

– Isso que vocês fazem é muito perigoso. Despertar emoções nos jovens pode trazer à tona graves problemas que estão lá enrustidos.

Enquanto me preparava para responder, com a maior delicadeza possível, um finlandês levantou a mão e respondeu:

– Meu caro amigo, os problemas estão lá e virão à tona, conosco, sem nós ou apesar de nós. Isso funcionará perfeitamente no meu país e na minha universidade.

Um outro espectador, professor da Noruega, comentou de modo contundente:

– Penso que somente pode ter medo de fazer algo assim quem tem medo das próprias emoções.

Não houve necessidade de nenhum esclarecimento da nossa parte. E, confortavelmente, a sessão prolongou-se por mais meia hora, entre comentários e sugestões.

Vivemos tempos em que humanismo e humanização são temas habituais de conversas, sobretudo na área da assistência à saúde. Cabe aos educadores e pesquisadores o compromisso de fazer do humanismo médico um caminho real, concreto e prático, que possa ser percorrido pelo estudante de Medicina na construção da sua vocação profissional, uma condição sine qua non da razão de ser médico. Professores, estudantes, líderes empresariais, educadores, familiares, agentes sociais, recursos humanos e todos os que têm a gestão de pessoas como objetivo profissional encontrarão no cinema uma metodologia simples, acessível e divertida para aperfeiçoar seu desempenho. Onde há pessoas querendo melhorar e alguém querendo educar, o cinema tem vez.

*Médico e diretor científico da Sobramfa – Educação Médica e Humanismo (www.sobramfa.com.br) e autor dos livros: Humanizando a Medicina, uma metodologia com o cinema, Lições de liderança no cinema e Educação da afetividade através do cinema.


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